Descrição de chapéu Rio de Janeiro

Helicóptero com Witzel a bordo atirou em lona de oração em Angra, dizem moradores

Episódio foi citado em denúncia contra o governador do Rio à ONU por recorde de mortes em ações policiais

Júlia Barbon
Rio de Janeiro

Tiros disparados do helicóptero em que o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), estava a bordo no último sábado (4) em Angra dos Reis atingiram uma lona que frequentemente é usada por religiosos para orar, segundo relatos de moradores.

O político publicou naquele dia um vídeo em suas redes sociais onde aparece dentro da aeronave, anunciando o início de uma operação da Polícia Civil que seguiu até esta terça (7) em favelas da região. “Vamos botar fim na bandidagem”, diz ele.

Um vídeo gravado na mesma ocasião e exibido pelo telejornal “RJTV”, da TV Globo, mostra um policial de costas disparando uma rajada de tiros sobre uma pequena lona azul cercada de grama, no topo de um morro (chamado de Monte do Campo Belo). De acordo com moradores ela serve como ponto de apoio para peregrinos cristãos.

“Ali é um ambiente de oração, os cristãos estão diariamente ali, idosos, crianças. É um espaço que temos para estarmos reservados com Deus”, diz à Folha o diácono Shirton Leone, da igreja Assembleia de Deus, que contou quatro ou cinco tiros no tecido após o sobrevoo.

A lona também é usada pelos religiosos para urinar e para se proteger do sol durante os dias de andança. “A barraquinha é como uma espécie de um banheiro. Esse local aqui não tem ponto de tráfico, aqui não tem nada, é essa tranquilidade aqui”, disse o também morador Rodrigo Bernardo Dias ao “RJTV”. 

A cerca de um quilômetro dali, em outro morro, uma lona preta embaixo de uma torre de energia serve como ponto para olheiros do tráfico, diz Leone. Para ele, porém, seria difícil confundir os dois locais: “São muito diferentes. E cristão não tem rádio, binóculo, o que eu acredito que da luneta de um sniper você consiga identificar”.

O uso de helicópteros para disparar rajadas vai contra uma normativa publicada em outubro pela extinta Secretaria de Segurança Publica do RJ, que determinava diretrizes para a atuação das polícias fluminenses durante operações.

A regra não impede que agentes disparem de helicópteros, mas estabelece que os tiros só sejam dados quando forem estritamente necessários para proteger vidas. Também ressalta que deve ser feito um tiro de cada vez, nunca rajadas, e que essas investidas devem ser evitadas em locais populosos.

Foi uma ordem da Justiça que obrigou o estado, então sob intervenção federal na segurança, a apresentar um plano para reduzir os riscos e danos aos direitos humanos durante operações.

Mesmo após a normativa, porém, os relatos de moradores de favelas do Rio sobre rajadas de tiros vindos de helicópteros continuam sendo comuns, como na operação da Polícia Civil que deixou oito mortos no Complexo da Maré na última segunda (6).

Ao lado de Witzel, também estavam na aeronave no sábado o prefeito de Angra do Reis, Fernando Jordão (MDB), o secretário de Polícia Civil, Marcus Vinicius Braga, e o vereador sargento Thimóteo (PR), além de policiais civis da Core (Coordenadoria de Recursos Especiais).

OUTRO LADO

Questionada, a Polícia Civil não se pronunciou sobre a rajada de disparos contra a lona usada por religiosos. Também não respondeu quais foram os resultados daquela operação, informando apenas os efeitos da ação desta terça.

Segundo a corporação, os cerca de cem agentes que participaram cumpriram sete mandados de prisão, recuperaram três veículos roubados, mapearam a área, checaram denúncias de um cemitério clandestino e colheram provas para auxiliar inquéritos contra o tráfico de drogas.

Já o governo do estado disse em nota que a operação em que Witzel esteve presente “foi para reconhecimento de áreas atingidas pela criminalidade e não houve vítimas”, ressaltando que “sua política de segurança é baseada em inteligência, investigação e aparelhamento das polícias Civil e Militar”.

Também afirmou que o Comando de Operações Especiais (COE), da Polícia Militar, trabalha com atiradores de elite há vários anos e eles são constantemente treinados. “Todas as operações da Polícia Militar, com a participação de atiradores de alta precisão ou não, são precedidas de planejamento técnico e seguem protocolos previstos em lei”.

DENÚNCIA CONTRA WITZEL À ONU

A presença do governador no episódio em Angra foi citada em uma denúncia enviada nesta terça à ONU (Organização das Nações Unidas) pela Comissão de Direitos Humanos da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) e pela deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ).

Para a deputada Renata Souza (PSOL), que preside a comissão e já tinha encaminhado um pedido semelhante à OEA (Organização dos Estados Americanos), o número recorde de 434 pessoas mortas por policiais no Rio no primeiro trimestre deste ano está diretamente relacionado à permissividade do governador. Ele já disse ser favorável ao "abate" de criminosos que estejam portando fuzis e ao uso de helicópteros para disparos.

Caso as denúncias sejam aceitas, o Brasil pode responder pelas mortes em cortes internacionais. Os documentos pedem que a ONU recomende formalmente ao Brasil a redução da letalidade em ações policiais e que o organismo avalie a conduta de Witzel, que encorajaria a letalidade de agentes de segurança.

Em nota, o governo respondeu que aumentou o Regime Adicional de Serviço (RAS) dos policiais, investiu em equipamentos, ampliou o departamento de combate à corrupção e ao crime organizado e que convocará mais de 3.000 agentes até o fim do ano. Também ressaltou que os números de homicídios dolosos e a letalidade violenta caíram pelo terceiro mês consecutivo, na comparação com o ano passado.

Colaborou Gabriel Sabóia, do UOL
 

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