Pais tendem a frear generosidade com filhos, mostra experimento

'Sabotagem' inconsciente faz investimento nas crianças ser menor que o planejado

Ana Estela de Sousa Pinto
São Paulo

os 14 anos, William Kamkwamba foi impedido de frequentar a escola porque seus pais deixaram de pagar as mensalidades. Pouco depois, projetou e construiu um sistema de irrigação movido a vento que salvou da fome sua família e sua aldeia, no Maláui.

A história, contada no filme  “O Menino que Descobriu o Vento” (lançado neste ano pela Netflix), tem um final excepcional, mas um começo comum, diz o economista brasileiro Guilherme Lichand: embora estejam dispostos a investir em seus filhos —e cientes de que isso trará retornos no futuro—, pais acabam sendo menos generosos com seus filhos do que planejavam.

Ou seja, uma "sabotagem" inconsciente age especificamente quando ele tem que dividir os recursos entre si mesmo e o próprio filho, reduzindo a generosidade almejada.

Várias mulheres do Malaui sentadas no chão desenham em caderno
Mães do Malaui fazem desenho sobre o que esperam para o futuro dos seus filhos, como parte de um projeto que procura aumentar a capacidade dos pais de investir nas crianças - Arquivo Pessoal
 

O mecanismo psicológico apareceu em pesquisa feita por Lichand, professor da Universidade de Zurique, e Juliette Thibaud-Rebaud, doutoranda da universidade, no país de Kamkwamba (os economistas desenvolvem no Maláui projetos em parceria com o Unicef - Fundo das Nações Unidas para a Infância).

Reconhecer a sabotagem inconsciente é importante porque o investimento feito na infância afeta o potencial de uma pessoa no futuro. Cada US$ 1 investido no desenvolvimento infantil gera rendimento anual —descontada a inflação— de 8% a 10% no futuro, contra 5% do mercado de capitais, segundo o economista americano James Heckman.

A criança, porém, não tem controle sobre essa partilha, o que aumenta a relevância de como os pais tomam a decisão.

O objetivo dos economistas, portanto, era descobrir mecanismos que podem afetar positivamente o investimento dos pais nos filhos e reduzir essa tendência a deixar de transformar intenções em realidade.
Lichand diz que, em geral, há respostas óbvias para o baixo gasto dos pais, como a própria pobreza, mas pesquisas enfraquecem essa hipótese.

“Mesmo quando há dinheiro de programas de microfinanças ou de doações, os pais acabam não usando os recursos naquilo que haviam planejado.”

Outra explicação para a falha em cumprir promessas é dada pela economia comportamental (que mescla o conhecimento econômico a psicologia, neurociência e outras ciências sociais): a de que as pessoas veem de forma diferente a realidade no presente e no futuro. 

A pessoa faz planos para o futuro que implicam sacrifício no presente (deixar de consumir para poupar, por exemplo, ou deixar de comer para emagrecer), e o “eu presente” acaba sendo mais forte que o “eu futuro” na hora da decisão —o fenômeno é chamado de viés do presente (“present bias”).

O trabalho de Lichand, no entanto, descobriu um outro tipo de viés, batizado de “parent bias” (viés parental), que afeta especificamente a divisão de recursos entre os pais e seus filhos: 70% deles resultaram menos generosos com os filhos do que prometiam ser.

A tendência aparecia mesmo em pais que não tinham viés do presente, ou seja, os fenômenos se mostraram independentes.

Pai e filho de mãos dadas
O objetivo era descobrir mecanismos que podem afetar positivamente o investimento dos pais nos filhos - Fotolia

Iluminar essa diferença entre os mecanismos inconscientes é importante, afirma o economista, porque ela pode afetar políticas públicas. “Se um programa assistencial é pago ao domicílio como um todo, está sujeito a realocações. Os pais podem pensar que vão comprar um livro didático, mas, quando chega o momento, não o fazem.”

Iniciativas que tentam controlar a tendência a consumir imediatamente, como guardar o dinheiro num cofre para que ele não seja gasto antes da hora, são inúteis: quando o cofre for aberto, os pais ainda farão uma divisão menos favorável aos filhos.

Por isso, Lichand e Thibaud-Rebaud também testaram mecanismos que aumentassem a chance de os pais manterem seus planos em relação às crianças.

Um deles era o comprometimento formal, por escrito, de manter até o final a decisão tomada no presente. Outro era envolver o filho na decisão. Os pais com maior redução de generosidade no futuro (ou seja, com maior viés parental) foram os que mais se mostraram interessados em se comprometer.

“É uma ótima notícia, porque toda a literatura mostra que quem é imediatista no consumo tem uma demanda baixíssima por comprometimento, o que trazia desesperança. Esses novos resultados, ao contrário, trazem esperança: é possível criar um círculo virtuoso”, diz Lichand.

Caderno com desenho no colo de uma mãe do Malaui; desenhos a caneta esferográfica mostram casas e pessoa
Os desenhos das mães do Maláui costumam mostrar os filhos indo para a escola e casas com telhado e banheiro - Arquivo pessoal

A decisão dos pais sobre como repartir os recursos entre si próprios e seus filhos envolve também questões culturais, lembra Vera Iaconelli, autora de “O Mal-estar na Maternidade” e colunista da Folha.
“Até pouco tempo, os filhos eram quem cuidaria dos pais na velhice. Trariam um retorno evidente pelo investimento. Isso estava na conta, era consciente”, diz a psicanalista.

Hoje, os pais esperam menos um retorno financeiro, mas ele acaba substituído pela expectativa de amor eterno. “Os pais querem esse retorno afetivo; que os filhos fiquem sempre próximos, que deem admiração infindável”, afirma.

Para Vera, assim como as crianças nem sempre correspondem a esse desejo —“e ainda bem”—, os pais também não cumprem todas as promessas de dedicação aos filhos.

Em parte, a distância entre o que planejamos e o que executamos é da natureza humana, mas há casos em que o inconsciente pode promover um “acerto de contas subterrâneo” com os filhos.

“As crianças têm toda a vida pela frente, e isso mostra nosso envelhecimento. Pode haver certo ressentimento, competição, inveja”, diz ela, ressalvando que a reação é normal. “Não há nada errado, não somos tão magnânimos quanto gostaríamos de imaginar.”

No outro extremo há uma atitude de anulação dos pais em nome dos filhos, que, segundo Vera, traz prejuízos. “Não é altruísmo, mas a busca do retorno afetivo total, e o resultado é desprezo.”

Experimento com amendoins mostrou efeito

Para calcular o viés parental, os economistas Guilherme Lichand e Juliette Thibaud-Rebaud usaram pacotes de amendoim, que deveriam ser divididos pelos pais em três ocasiões.

Embora pareça prosaico, Lichand observa que o amendoim tem bastante valor para a população mais pobre do Maláui. Além disso, o experimento foi feito quase um ano após a colheita, quando as famílias já não comem a semente há algum tempo, o que aumenta a importância das escolhas dos pais.

Na primeira visita à família, os pesquisadores diziam que voltariam à casa dali a 2 dias e dali a 30 dias, com cinco pacotes de amendoim. Pediam então ao pai ou à mãe que resolvesse, nesse primeiro dia, como dividiria os pacotes com um dos filhos (sorteado aleatoriamente), na visita mais próxima e na mais longínqua.

Nessa primeira tomada de decisão, 70% dois pais eram mais favoráveis a si próprios no futuro próximo: por exemplo, ficavam com 3 pacotes e davam 2 para o filho na visita mais próxima, e deixavam 4 para o filho e 1 para si próprio dali a 30 dias.

Os economistas ponderaram que poderia haver outras causas para a decisão de antecipar seu próprio consumo, em detrimento das crianças. “Por exemplo, algum trabalho braçal urgente talvez exigisse que o pai estivesse mais bem alimentado”, diz Lichand.

Mas essa hipótese foi derrubada dois dias depois, quando o produto era efetivamente entregue. Nessa ocasião, os pesquisadores diziam ter perdido suas anotações e pediam aos pais que repetissem como fariam a divisão.

O experimento detectou então uma clara realocação em prejuízo dos filhos: pais que haviam dado 3 pacotes para si mesmos e 2 para a criança, por exemplo, agora ficavam com 4 e destinavam apenas 1 ao filho. 

Nessa segunda escolha, o consumo destinado à criança chegou a cair 15% para o dia 2 e 50% para o dia 30.

Os pesquisadores fizeram o experimento com amendoim, em vez de dinheiro, porque ele é consumido na frente dos pesquisadores, o que permite atestar de fato a distribuição.

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