Prefeito médico do CE suspeito de abuso sexual é afastado do cargo

Ele nega as acusações e diz, por meio de seu advogado, que há perseguição política

Marcel Rizzo
Fortaleza

A Câmara Municipal de Uruburetama (a 110 km de Fortaleza) aprovou nesta segunda (15) o afastamento do médico e prefeito da cidade, José Hilson de Paiva (PC do B), 70, suspeito de ter abusado de pacientes mulheres. 

Os nove vereadores votaram a favor do afastamento, por 90 dias, quando serão investigadas as denúncias. Ele pode perder o cargo definitivamente depois disso.

Quem assume é o vice-prefeito, Artur Wagner Vasconcelos Nery. Há 20 dias, ele, seu filho Alexandre Wagner Albuquerque Nery, vereador na cidade, a esposa de Alexandre, Sandra Prado Albuquerque e o empresário Francisco Leonardo de Castro Bezerra Melo foram denunciados pelo Ministério Público do Ceará por extorsão. 

O PC do B, por sua vez, afirmou em comunicado que "repudia os atos que afrontam a dignidade humana" cometidos por José Hilton e que a Comissão Política Estadual do partido decidiu, em reunião extraordinária, expulsá-lo da sigla. Ele era filiado desde setembro de 2015. 

​O Ministério Público do Ceará apura as denúncias de abuso que pesam contra José Hilson. Ele nega as acusações e diz, por meio de seu advogado, que há perseguição política.

Vídeos que chegaram aos promotores, e que foram divulgados pela TV Globo no domingo (14), mostram Paiva em consultas onde supostamente abusa de pacientes. Há 23 mulheres diferentes, em 63 vídeos, sendo que 17 podem ter sido abusadas.

Reprodução de um dos vídeos em que o médio e prefeito Uruburetama aparece durante atendimento médico em que supostamente também abusa de uma paciente - Reprodução

"Em nenhum momento da humanidade existe esse procedimento, isso é asqueroso", disse à TV Globo o médico Antônio Jorge Salomão, da AMB (Associação Médica Brasileira), que analisou os vídeos e constatou que os procedimentos adotados por Paiva não seguem as normas médicas de um ginecologista. 

Nos vídeos, mulheres são colocadas de costas apoiadas em macas e em um deles ele coloca na boca o seio de uma paciente. Nesta segunda (15), Paiva não foi até a prefeitura e despachou da residência de parentes em Uruburetama —ele está receoso com sua segurança, diz a defesa.

O caso começou em 2018, quando um vídeo de Paiva praticando sexo com uma mulher no que aparentava ser um consultório viralizou em redes sociais. Na época ele admitiu o caso extraconjugal e disse ser consensual —ele é casado com a ex-prefeita da cidade, Maria das Graças Cordeiro de Paiva.

"Mas não era um consultório e sim uma local privado, no interior da cidade", disse Kaio Galvão de Castro, advogado de Hilson Paiva. Ele afirmou ainda não ter tido acesso aos vídeos que os promotores receberam e por isso não poderia comentar o teor deles.
 
O advogado disse não ter falado ainda com o cliente sobre o motivo de filmar consultas, mas que, em 2018, pouco antes do vídeo que viralizou ter aparecido, o celular de Paiva foi roubado dentro de sua casa. 

O vídeo estimulou algumas mulheres a denunciarem que teriam sofrido abuso em atendimentos feitos por Paiva. 

Ao menos quatro, entre março e abril de 2018, vieram a público falar que perceberam atitudes estranhas do médico durante consultas, como apertos nos seios e até que o médico tirava o órgão genital para fora.

Os relatos são semelhantes aos feitos por mulheres entrevistadas peloa TV Globo e que tiveram a identidade preservada.

"Ele sempre trancava a porta, mandava a gente entrar e mandava tirar a roupa. Pegava no seio, ficava pegando no corpo da gente, colocava o pênis na gente", disse uma das mulheres que deu entrevista à TV.

O Ministério Público do Ceará informou que como o caso corre em segredo de justiça não se pronunciaria a respeito. A reportagem tentou uma posição do Cremece (Conselho Regional de Medicina do Ceará), mas não obteve resposta. O Conselho Federal de Medicina (CFM) também não se pronunciou.
 

OUTRO LADO

Por meio do advogado Kaio Galvão de Castro, o prefeito José Hilson Paiva negou as acusações de abuso.

Em 2018, ele fez um pronunciamento para alguns moradores também negando as acusações que apareceram após a divulgação do primeiro vídeo. "Tudo foi consensual", disse.

Paiva processou quatro das mulheres que o denunciaram a programas de TV, em 2018, por calúnia e difamação. Três delas, em audiência de conciliação, pediram desculpas a ele, segundo Castro. 

José Hilson Paiva os acusa de pedirem sua renúncia mediante chantagem da divulgação de vídeos e fotos de atos sexuais do prefeito.

"Não recebemos ainda a notificação da denúncia", disse o advogado Paulo Pimentel, que defende Alexandre Nery e Sandra Prado. Ele disse que seus clientes jamais comentaram sobre supostos vídeos contra o prefeito. "O que sei sobre esse caso soube pela mídia", disse Pimentel. 

A Polícia Civil do Ceará informou que há um inquérito na delegacia de Uruburetama para investigar ocorrências tendo como suspeito um político e médico ginecologista —a instituição disse que não poderia informar o nome. Também foi registrado um boletim de ocorrência na delegacia de Cruz, nesta segunda-feira (15), referente a uma denúncia de estupro, que tem como suspeito o mesmo médico. 

José Hilson de Paiva trabalhou na cidade, que fica a 150 km de Uruburetama, e alguns dos vídeos entregues ao Ministério Público são de pacientes de Cruz. 

Ainda segundo a polícia, imagens dos atos, veiculadas pela imprensa, foram disponibilizadas para autoridades das delegacias de Cruz e de Uruburetama para auxiliarem nas investigações.

Os conselhos Federal e Estadual de Medicina ainda não responderam os questionamentos da reportagem.

 
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