PM mata homem que manteve passageiros de ônibus reféns na ponte Rio-Niterói

Sniper fez disparos contra sequestrador; 38 passageiros e motorista não foram feridos

São Paulo e Rio de Janeiro

A Polícia Militar do Rio de Janeiro matou na manhã desta terça-feira (20) um homem que manteve 39 pessoas reféns durante quase quatro horas na ponte Rio-Niterói. Nenhum refém foi ferido.

Segundo a polícia, o homem foi identificado como Willian Augusto da Silva, 20 —mais cedo, o sobrenome relatado fora "Nascimento". A polícia também divulgou, erroneamente, que Silva tinha passagens na polícia. Ele não tinha antecedentes criminais conhecidos. As motivações do sequestro tampouco são claras.

O porta-voz da PM, coronel Mauro Fliess, confirmou no fim da manhã que atiradores de elite executaram a operação que culminou na morte do sequestrador. Silva foi atingido no momento em que saiu do veículo.

Ao ser baleado, caiu do ônibus e foi imobilizado. Levado por uma ambulância ao hospital Souza Aguiar, teve parada cardiorrespiratória durante o atendimento e morreu. 

O corpo do sequestrador sofreu seis perfurações: duas no tórax e as outras no antebraço direito, perna esquerda e braço esquerdo. 

Segundo o governador Wilson Witzel (PSC), a ordem de atirar contra o sequestrador partiu "da técnica da Polícia Militar."  ​

A polícia afirmou que a pistola usada por Silva no sequestro era de brinquedo. Ele também portava uma faca, um "taser"  (arma não letal de eletrochoque)  um galão de gasolina que ameaçou usar para atear fogo no veículo. Ele também chegou a lançar um coquetel molotov contra os policiais.

O sequestro começou por volta das 5h30, quando o homem obrigou o motorista do ônibus que faz a linha 2520 a estacionar o veículo atravessado na ponte. O veículo, da Viação Galo Branco, ia do Jardim Alcântara (São Gonçalo, região metropolitana do Rio) para o Estácio (região central da cidade) e estava cheio no início do rush matutino. 

Com a ponte fechada para o trânsito e cercada pela polícia, pouco depois das 6h, começou a negociação encabeçada por policiais rodoviários e do Batalhão de Choque. Ao longo das três horas seguintes, o suspeito libertou seis reféns: quatro homens e duas mulheres. Ao ser resgatada, uma das vítimas desmaiou no asfalto.

Apesar do choque emocional, todos os passageiros libertados passam bem, afirma a polícia. Segundo a Polícia Rodoviária Federal, ao menos 31 pessoas (incluindo o motorista) estavam no ônibus no momento em que o sequestrador foi imobilizado após ser baleado. 

Após horas de cerco, por volta de 9h, o atirador de elite da PM, que estava em cima de um caminhão, disparou e fez um sinal de positivo. O homem caiu. Os policiais, então, comemoraram e rezaram um Pai-Nosso. 

Até a conclusão desta reportagem, a polícia dizia não saber as motivações que levaram o suspeito a sequestrar o ônibus. 

O governador Wilson Witzel chegou ao local da ocorrência logo após a execução do suspeito,  de helicóptero, e celebrou o desfecho. Ele determinou a promoção dos policiais envolvidos na ação, cujos nomes foram omitidos para evitar retaliações de criminosos. Marinha e Bombeiros também deram apoio à operação policial.

"Eu fiquei o tempo todo monitorando, e a Polícia Militar usando seus atiradores escolheu a melhor oportunidade", afirmou. 

"O ideal era que todos saíssem vivos da operação, mas preferimos salvar os reféns. Determinei que a Secretária de Vitimização cuide dos reféns e também da família do sequestrador", completou o governador aos jornalistas.


PASSO A PASSO DO SEQUESTRO

5h26
Willian Augusto Nascimento sequestra ônibus na ponte Rio-Niterói com 39 pessoas e obriga motorista a deixar o veículo atravessado sobre a pista

5h40
Polícia Rodoviária Federal é acionada

6h11
Sequestrador obriga uma das vítimas a entregar um celular para manter comunicação com os policiais durante a negociação

6h20
Primeiro refém é libertado

6h38
Segundo refém é liberado pelo sequestrador

7h
Terceiro refém deixa o ônibus

7h15
Os dois sentidos da ponte são interditados. Antes, a pista no sentido Niterói estava liberada 

7h21
Quarto refém é libertado

7h58
Quinto refém deixa o ônibus

8h14
Sexta passageira é libertada, sai do ônibus, passa mal e cai nos braços de policiais

9h02
Tiros são disparados na ponte Rio-Niterói por snipers da PM

9h04
PM confirma que sequestrador é atingido por disparos


Sequestrador sai de ônibus com reféns na ponte Rio-Niterói
Sequestrador sai de ônibus com reféns na ponte Rio-Niterói - Reprodução

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) também afirmou que "não tem que ter pena" do sequestrador, antes da polícia atirar, e celebrou depois que nenhum inocente foi morto. Ele também lembrou, em conversa com jornalistas diante do Palácio da Alvorada, o caso do ônibus 174, também no Rio, que acabou com o sequestrador e uma passageira mortos.

"No ônibus 174 não usaram 'sniper' e o que aconteceu? A passageira morreu", disse. "Não tem que ter pena [do sequestrador]", completou Bolsonaro.

Mauro Fliess, porta-voz da PM, disse que há indícios de que a ação foi premeditada. "Ele porta instrumento para fazer coquetel molotov e imobilizar as vítimas. Estamos trabalhando para termos um final satisfatório", afirmou.

Um grande congestionamento se formou no acesso da via.

Tragédia do ônibus 174

Outro sequestro de ônibus no Rio gerou grande repercussão. Foi o assalto com reféns do ônibus 174, na tarde de 12 de junho de 2000.
 
Um assaltante e uma refém acabaram baleados e mortos, em caso exibido ao vivo na televisão.
 
Às 14h daquela segunda-feira, Sandro Barbosa do Nascimento tentou assaltar um ônibus da hoje extinta linha 174 no Jardim Botânico, na zona sul da cidade. Ele manteve os passageiros reféns por mais de cinco horas.
 
Ele aceitou se render quando já era noite, após muitos sinais de nervosismo e violência. Sandro saiu do ônibus com uma arma apontada para Geísa Firmo Gonçalves. 
 
A ação de policiais militares do Bope (Batalhão de Operações Especiais) terminou com a refém baleada e morta. O assaltante chegou a ser colocado no camburão, onde foi asfixiado por PMs e também morreu.

Em 2011, outro sequestro na avenida Presidente Vargas, centro do Rio, terminou com quatro pessoas feridas, entre elas um policial. Dois suspeitos foram presos e três armas e uma granada foram apreendidas.

Outros 11 passageiros foram libertados sem ferimentos graves. No total, foram 20 reféns e no momento da abordagem dos PMs, um dos criminosos dirigia o veículo.

Cena do documentário "Ônibus 174", de José Padilha, que trata do sequestro de um ônibus no Rio de Janeiro que acabou na morte da refém Geísa Golçalves e do sequestrador Sandro Rosa do Nascimento
Cena do documentário "Ônibus 174", de José Padilha, que trata do sequestro de um ônibus no Rio de Janeiro que acabou na morte da refém Geísa Golçalves e do sequestrador Sandro Rosa do Nascimento - Divulgação
Luciano Cavenagui, Dhiego Maia , Thaiza Pauluze e Júlia Barbon

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