Maioria dos presos mortos no Pará era negra, tinha até 35 anos e cometeu crime violento

Quase metade dos 62 presidiários assassinados em Altamira não havia sido condenada

Júlia Barbon Fabiano Maisonnave
Rio de Janeiro e Altamira (PA)

A maioria dos 62 presos mortos em um massacre no Pará na última semana era negra, tinha até 35 anos e cometeu crimes com uso de violência. Quase metade deles ainda não havia sido condenada e, entre os que a informação está disponível, quase nenhum havia terminado a escola.

O levantamento foi feito pela Folha com dados cedidos pela Superintendência Estadual do Sistema Penitenciário (Susipe). Considera tanto os 58 detentos assassinados dentro do presídio de Altamira, a 830 km de Belém, quanto os 4 estrangulados dentro de um caminhão durante transferência para a capital do estado.

Os números seguem a tendência nacional. No país, 64% das pessoas privadas de liberdade são pardas ou pretas, 72% delas têm até 34 anos porcentagem ainda maior no Pará e quase 90% não chegaram a terminar o ensino médio.

Um terço também está preso provisoriamente, segundo dados do Infopen (sistema de estatísticas das prisões brasileiras) de 2017, os últimos disponíveis.

Cerca de metade dos detentos mortos no Pará eram acusados de cometer mais de um crime, a maioria envolvendo ameaça e violência, como roubo e homicídio. Furto e tráfico de drogas, crimes não violentos, foram registrados no caso de 25 deles.

Só seis estavam detidos por participar de associações criminosas. Apesar disso, Ivonaldo Cascaes, advogado de alguns presos incluindo dois mortos, diz que os internos eram obrigados a escolher uma das facções quando entravam na prisão, pela própria administração penitenciária.

"Existem dois blocos, o A e o B, separados por um pátio. A partir do momento em que o preso chega, ele passa por uma triagem. Nessa triagem, além do crime que cometeu, eles informalmente já perguntam se é faccionado ou se tem algum conhecido faccionado", afirma.

Na rebelião, a facção Comando Classe A (CCA), de Altamira, tomou de assalto a ala do rival Comando Vermelho (CV) e promoveu a matança, segundo as investigações.

"Mesmo que você não vista a camisa da facção, a partir do momento em que o preso opta por um pavilhão, a outra facção já o considera simpatizante", diz o advogado. "No meu entendimento, o pessoal da CCA conseguiu entrar no outro pavilhão, decapitou as lideranças e colocou fogo nos simpatizantes."

Os dados mostram também que apenas 12 dos 62 mortos não eram do Pará. Eles vinham de estados principalmente do Nordeste, como Maranhão, Ceará e Bahia.

A Polícia Civil do Pará informou nesta sexta (2) que indiciou 15 presos da CCA, com base em imagens do presídio e de celulares de presos, por ao menos cinco crimes relacionados ao massacre: homicídio qualificado, dano, cárcere privado, motim e lesão corporal. Mas a investigação ainda não foi concluída e mais internos podem ser incluídos.

A transferência de 26 detentos de Altamira para Belém também foi finalizada neste sábado (3), em dois aviões. Eles estavam todos no caminhão onde quatro foram mortos, e acabaram passando por audiências de custódia em Marabá (a 815 km de Belém) por causa desses assassinatos.

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