Com cartão até da Antártida, acervo de radioamador em SC revela joias do design

Neto encontrou milhares de cartões QSL de seu avô, Herbert Schlindwein

Jasmin Endo Tran
São Paulo

“Eu confirmo a recepção do seu contato”, dizem todos os 3.000 cartões espalhados pela sala de Gustavo Schlindwein. O designer de 25 anos mora em São Paulo, mas cresceu visitando sua família materna em Brusque (SC). O avô Herbert tinha o hábito de ficar por horas no escritório onde havia construído uma estação de rádio.

“Nunca entendi bem o que ele estava fazendo pendurado num rádio ou quem eram as pessoas com quem ele estava falando”, relembra. Passariam-se anos depois da morte de Herbert até que Gustavo encontrasse sua coleção de cartões QSL e resgatasse uma parte de sua história como radioamador.

Os primeiros registros de cartões QSL surgiram na década 1920, como uma forma de confirmar que o sinal de um radioamador havia de fato sido captado por outro. No código Q, usado na radiocomunicação, a sigla QSL quer dizer “entendido” ou “eu confirmo a recepção do seu contato”. 

 

Os radioamadores estavam espalhados pelo mundo todo; levados pelo entusiasmo pela tecnologia e possibilidades do rádio, construíam suas próprias estações. Para isso aparelhavam cômodos, garagens e até mesmo carros, no caso das estações móveis.

Foi no escritório de casa que Herbert Schlindwein passou boa parte de sua vida, emitindo sinais de sua estação na esperança de que outro radioamador em algum canto do planeta os captasse e respondesse.

Herbert foi bem sucedido muitas vezes, como comprova sua extensa coleção de cartões QSL. Gustavo calcula que sejam cerca de 4.000 cartões, alguns com remetentes de pontos remotos, como a Antártida.

Entre a comunicação e a chegada do cartão, podiam se passar meses, e o mecanismo de entrega era quase tão complexo quanto a própria radiochamada. Cada estação de rádio possui uma identificação, formada por letras e números. Era por esse código que os radioamadores se identificavam nas chamadas. Herbert Schlindwein era PY5VK.

Os dois primeiros caracteres definem o país e região de onde o rádio opera, e são padronizados pela União Internacional de Telecomunicações. O envio dos postais se dava entre os chamados bureaus —os escritórios da associação local de radioamadores.

No caso de Herbert, o prefixo PY5 indicava que ele estava no Brasil, na região de Santa Catarina. O bureau de seus interlocutores enviava o cartão QSL para o bureau de Santa Catarina, que, por sua vez, usava os últimos caracteres da estação, ou seja, VK, para entregar o cartão a Herbert.

Assim como cartões postais, os QSL trazem algumas informações obrigatórias. Nele devem ser registrados o código da estação de rádio contatada, a data e o horário da chamada, o equipamento usado, a qualidade do sinal e a frequência usada na chamada. Isso auxilia os praticantes a entenderem a qualidade de seus equipamentos.

Mas, diferentemente dos postais, os cartões QSL eram feitos pelos próprios radioamadores ou por associações de radioamadores. “Em termos de imagens não havia regras, não havia limitações”, explica Gustavo. E foi isso que o impressionou: ele nunca havia se interessado muito pelo rádio, mas acabou transformando o design dos cartões QSL em tema de pesquisa.

Muitos dos cartões foram construídos de forma experimental, misturando elementos e técnicas diferentes, como colagem, tipografia, fotografia e ilustrações. Além da variedade, impressiona a qualidade do material produzido pelos radioamadores.

“Eu fico pensando: como que você fez isso?”, diz Gustavo, rindo. Ele destaca um cartão suíço de um azul chapado no fundo, sobreposto por uma fotografia em preto e branco de gaivotas e da igreja Grossmünster, em Zurique.

“É uma comunicação fresca, contemporânea. Esse fundo de cor chapada com uma fotografia estourada em dois tons, combinado a uma tipografia simples —me arrisco até a dizer que é uma fonte helvetica— é alinhado às tendências do design da época e do país dele.” No verso está a foto do radioamador.

Os cartões confeccionados pelo próprio Herbert eram simples. Em geral traziam uma fotografia que mostrava algum aspecto de seu dia a dia e algo que remetesse à sua origem alemã. Para Gustavo, a pesquisa sobre os cartões e, consequentemente, sobre o radioamadorismo foi uma forma de se aproximar do avô e entender melhor o homem que ele foi.

A paixão pelo rádio era parte fundamental de sua vida. Por causa dela, Herbert viajou o mundo, encontrando amigos que conheceu através do hobby, muitas vezes com uma estação móvel a bordo. Ao lembrar do momento em que se deparou com os cartões no sótão, em perfeito estado, Gustavo sorri. “Vai soar meio piegas, mas eu acho que eles estavam guardados para mim.”

Ainda existem radioamadores, mas o hobby se transformou com a internet. Um dos seus principais atrativos, a dificuldade de se comunicar com alguém distante no planeta, deixou de existir. Essa mudança afetou igualmente os cartões, e a maioria deles hoje é feita digitalmente por meio de modelos prontos.

Mas é na internet que Gustavo mantém viva a memória dos tempos analógicos. Ele digitaliza e expõe a coleção do avô em uma conta no Instagram chamada @radioqsl. Através dela, se conecta com outros radioamadores, ou seus filhos e netos que ainda mantém suas próprias coleções na família.

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