Mancha de poluição no rio Tietê volta a crescer após três anos

Trecho mais sujo tem 163 km, entre Mogi das Cruzes e Cabreúva; índice é o maior em seis anos

Fabrício Lobel
São Paulo

A mancha de poluição no rio Tietê, o principal do Estado e que cruza a o capital paulista, aumentou 34% em 2019 em relação ao ano anterior. O resultado reverte três anos de melhora da qualidade do rio. 

Agora são 163 km de trecho poluído, entre as cidades de Mogi das Cruzes e Cabreúva, passando pela cidade de São Paulo —em 2018, eram 122 km. O trajeto representa 15% do curso do Tietê. Os dados são da SOS Mata Atlântica, ONG que acompanha a poluição rio com a mesma metodologia desde 2010. 

Trecho do Rio Tiete, próximo ao Cebolão - Rubens Cavallari - 18.set.2019/Folhapress

Para chegar aos índices, a SOS Mata Atlântica mede mensalmente 99 pontos de 73 rios da bacia do Tietê. As amostras são classificadas em cinco estágios: ótima, boa, regular, ruim e péssima. Os trechos classificados como poluídos têm medições ruins ou péssimas.

A maior concentração de poluentes está entre a região do Cebolão, em São Paulo, e Barueri. Ali, a medição aponta índice péssimo.

O único trecho com classificação boa é no município de Salesópolis, a leste da capital, onde fica a nascente do Tietê (nenhum trecho tem classificação ótima).

Segundo Malu Ribeiro, especialista em água da Fundação SOS Mata Atlântica, outra preocupação, além do aumento da mancha de poluição, é a deterioração do rio mesmo antes de chegar à cidade de São Paulo, ainda próximo de sua cabeceira. 

Depois de deixar Salesópolis, o Tietê passa pelas cidades de Biritiba-Mirim, Mogi das Cruzes e Suzano. Todas elas tiveram suas classificações rebaixadas na comparação de 2018 e 2019. "É a primeira vez que isso acontece na região da cabeceira do rio. Ali está um dos mananciais mais usados para abastecer São Paulo [o Alto Tietê, que fornece água para a porção leste da Grande SP]", analisa Malu.

De maneira geral, o atraso do saneamento na Grande SP é um dos principais problemas para a poluição de seus rios. Segundo a Sabesp, companhia paulista de saneamento, a região metropolitana de São Paulo ainda deixa de tratar 30% de seu esgoto gerado e deixa de coletar 13%.

Mas para Malu, é preciso ter uma visão mais ampla das causas da poluição no Tietê para atacá-las. "Se olharmos só para o avanço do saneamento, ficaremos por mais 20 anos sem um Tietê em boas condições", diz. Outro problema que deve ser cuidado, segundo ela é o avanço da ocupação irregular em áreas de mananciais. "É um problema crescente, principalmente próximo ao trecho leste do Rodoanel."

Há ainda o risco do uso excessivo de defensivos agrícolas e fertilizantes que podem alterar a qualidade da água. A preocupação é maior justamente nos municípios onde o Tietê ainda está no início de seu percurso, onde há forte produção agrícola. Um controle mais rigoroso desses produtos químicos poderia melhorar a qualidade da água. 

"Esses problemas na cabeceira do rio comprometem a bacia inteira, e não apenas localmente. É um rio que já nasce com problemas, com perda de disponibilidade hídrica, numa situação crítica", comenta. 

Outro fator que teria impactado na piora do rio foi o período de seca que São Paulo viveu entre 2018 e 2019. O volume de chuva foi 20% menor do que a média dos últimos 23 anos.

Se por um lado a menor quantidade de chuva carrega menos lixo, fertilizantes e erosão para o leito do rio, ela também impacta na capacidade do rio de diluir a poluição. 

Foi justamente essa a explicação dada no ano de 2015, quando a mancha de poluição aumentou 118% na comparação do ano anterior. No período, São Paulo viveu uma de suas secas mais severas no último século.

Desde 1992, o Projeto Tietê, tocado pela Sabesp, já investiu investiu cerca de US$ 3 bilhões. Benedito Braga, presidente da Sabesp, lista como saldos positivos a diminuição da mancha de poluição no Tietê e o aumento da área atendida por coleta e tratamento de esgoto. Antes, a região tinha 17% do esgoto tratado, hoje são 68%. A coleta era era 70% e subiu para 87%. 

"É um aumento significativo. Conectamos 10 milhões de pessoas à rede de esgoto nesses anos. Levando em conta que a região metropolitana ainda cresceu, posso dizer que, se não fosse o trabalho feito até aqui, o Tietê estaria muito pior", defende ele. 

 O anúncio da piora da qualidade do Tietê ocorre durante uma campanha do governador João Doria (PSDB) para despoluir o rio Pinheiros, um afluente do Tietê, muito menor em extensão e circunscrito apenas à cidade de São Paulo. 

Só a Sabesp planeja investir R$ 1,5 bilhão para que o Pinheiros fique despoluído e vire ponto turístico paulistano até 2022, ano em que Doria deve ser candidato à presidência da República. 

Malu espera que a ação no Pinheiros seja encarada pelo governo do Estado como um trabalho complementar ao Projeto Tietê, mais amplo.

Braga diz que outros projetos que melhoram o Tietê seguem sendo tocados, como o aumento da coleta de esgoto no ABC, por exemplo. "O projeto do Pinheiros é o Projeto Tietê. Não deixamos de cuidar do Tietê de jeito nenhum", diz.

 

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