Ator negro denuncia racismo após espectadora lhe dar uma banana

Durante espetáculo, mulher gritou "Vaza!" e, ao fim, mostrou dedo do meio

Anna Virginia Balloussier
Rio de Janeiro

Leonardo Negresco, 26, era o primeiro do elenco a entrar no palco. Caminhava até lá quando uma mulher sentada na ponta da plateia, segundo ele, pegou-o pelo braço e tirou duas bananas do porta-óculos que carregava. Eram para ele.

O ator, que é negro, diz à Folha que está acostumado com episódios de racismo como "chegar numa loja e os vendedores acharem que vou furtar algo". Mas nada parecido com aquele gesto no começo da sessão de sábado (12) de "Reféns", peça que apresenta no Teatro Norte Shopping, na zona norte carioca. 

Leo Negresco, ator que prestou queixa de injúria racial após receber de espectadora uma banana
Leo Negresco, ator que prestou queixa de injúria racial após receber de espectadora uma banana - Arquivo Pessoal

Na terça (15), ele e a diretora do espetáculo, Nicole Musafir, foram à 23ª DP, no bairro do Méier, prestar queixa por injúria racial contra a espectadora, que não teve o nome identificado. Eles, contudo, têm foto dela.

No teatro, Negresco diz que raciocinou muito rápido e pensou: não dá para interromper a montagem (que é o que teve vontade), "as pessoas do público não tinham nada a ver". O show tem que continuar.

"Disse [à mulher] que não ia fazer desfeita, né, brinquei. Minha  vontade era acabar com o espetáculo, mas veio o profissionalismo. Continuei, comi a banana como um ato de coragem mesmo. Foi trágico."

Segundo Negresco, a mulher que o ofendeu continuou com uma postura hostil ao longo do espetáculo, inclusive fazendo "barulho de gases". Numa foto tirada por Musafir no fim da sessão, com todo o elenco e a plateia atrás, ela aparece mostrando o dedo do meio para a câmera.

A diretora de "Reféns", uma comédia que parodia clássicos do humor para contar a saga de bandidos que tentam planejar um assalto, conta que se sentou perto da espectadora. "Vi e ouvi ela fazendo barulho de peido com a boca durante outra cena em que o o artista entrava sozinho. Em outra fala dele ela gritou: 'Vaza!'."

"Quando entrei, [o resto da] banana já estava na mão de outro ator, e não entendi de onde ela tinha surgido", afirma Musafir. Apenas no fim, com os atores no camarim, todos juntaram as peças e perceberam que ali havia se passado um caso de racismo, diz. 

Negresco atendeu o telefonema da reportagem dizendo: "Cabeça erguida em primeiro lugar". Afirma que queria um minuto com a mulher que lhe ofereceu a banana para entender por que fez isso, como se ele fosse um macaco.

"Isso não pode continuar. As pessoas não podem se calar de forma alguma. Racismo, e no século 21? Tem que acabar."

Para o ator, se comprovada a injúria racial, a ofensora tem que ser presa. "Não se trata de [doar] cesta básica, é cadeia mesmo. Sou negro com muito orgulho, nasci assim, sou um trabalhador, amo fazer o que faço. Poxa, estava ali para animar a plateia."

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