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Jogadoras com síndrome de Down montam time de futsal no interior de SP

Equipe recebe jogadoras de outras cidades e, sem rivais, joga contra times masculinos

Jogadores de futsal de time para atletas com síndrome de Down, em Ribeirão Preto

Jogadores de futsal de time para atletas com síndrome de Down, em Ribeirão Preto Ricardo Benichio/Folhapress

Marcelo Toledo
Ribeirão Preto

A rotina se repete três vezes por semana. Mariana Cristina de Carvalho Garcia, 31, prepara seus materiais esportivos e se dirige para a quadra, onde, embora atue na defesa, gosta de atacar, fazer seus gols e comemorar muito.

Ela é a pioneira entre as atletas que formam o primeiro time de futsal feminino down em Ribeirão Preto (a 313 km de São Paulo).

Criada oficialmente em agosto, a equipe feminina da associação Sem Fronteiras recebe atletas com síndrome de Down, surdez ou deficiência intelectual a partir de 15 anos de idade.

“Se não houvesse o futsal, depois das aulas eles ficariam sem fazer nada, no fim de semana não teriam atividade. A palavra parece batida, mas é real, é inclusão, eles todos socializam muito, ficam muito alegres. O esporte é um ótimo caminho para isso, é uma porta que se abre”, disse a aposentada Eunice Aparecida de Carvalho, mãe de Mariana.

 

A atleta joga futsal desde 2016, quando ingressou num time de meninos de uma escola municipal de Ribeirão. Com o fim do contrato do professor, no ano passado, a modalidade deixou de ser praticada no local, o que motivou o surgimento da associação, que hoje já tem cerca de 80 atletas, 12 deles mulheres.

Os pais fazem parte integralmente do projeto como voluntários. Eunice, por exemplo, cuida dos uniformes dos atletas. Outros pais cuidam da alimentação, do transporte, da manutenção das redes sociais da associação e da captação de patrocínios.

Enquanto os jogadores treinam, os pais trocam experiências e planejam as atividades das equipes. A associação sobrevive de doações e patrocínios pontuais. Arrecada entre R$ 2.500 e R$ 3.000 por mês, valor insuficiente para cobrir os gastos com viagens, alimentação e uniformes, entre outros.

O ideal seria obter algo entre R$ 15 mil e R$ 20 mil, para melhorar os treinos e dar mais condições aos atletas, de acordo com o presidente da associação e técnico do time, Demetrius Nogueira de Souza, 38.

São nove horas semanais de treinos, às terças e quintas no campus do centro universitário Moura Lacerda e aos sábados numa quadra de esportes.

“Alguns têm outras deficiências agregadas, como autismo, e às vezes nem correm o tempo todo na quadra nos treinos, ficam observando. Ao olhar, parece que não estão gostando, mas os pais conhecem os filhos, falam sempre da felicidade deles por estarem ali, eles adoram”, afirmou o treinador.

A avaliação de pais e entidade é que, nas viagens, os atletas também ganham independência, ao ficarem longe do núcleo familiar.

A equipe feminina ainda não tem rivais em outras localidades para a disputa de campeonatos, o que faz com que, por enquanto, treine contra os homens e dispute amistosos.

“A dificuldade nesse momento é encontrar adversárias, mas a prática está se disseminando e temos visto um interesse grande. Outros times surgirão”, disse Souza, que também é membro da comissão técnica da seleção brasileira.

Com a montagem da equipe feminina, até mesmo a família de uma jovem de Uberaba (MG), distante 187 quilômetros de Ribeirão, procurou a associação para inscrevê-la.

Além dos treinamentos com os homens, as garotas viajam aos torneios para saberem como é o funcionamento de uma competição e, nos intervalos, treinam pênaltis, por exemplo.

IMPULSO

Em junho, Ribeirão Preto sediou o segundo campeonato mundial masculino de futsal down, vencido pelo Brasil —o primeiro foi em Portugal, em 2018. Um atleta da entidade disputaria, mas se contundiu. Bandeiras e faixas foram carregadas pelos jogadores da associação.

A competição, segundo Souza, impulsionou as atividades da entidade. Em agosto, a Sem Fronteiras fez uma parceria com o Comercial, time de futebol de Ribeirão que disputa a Série A-3 do Campeonato Paulista, que permitirá a participação em competições utilizando o escudo do clube.

“Quando ela entra na quadra, é dona de si, ela reina, é tudo que ela realmente mais gosta de fazer. Ok, há limitações, mas a garra e a vontade de todos eles e o respeito que têm uns pelos outros e com os adversários nos ensina muito. O desenvolvimento é visível”, disse Eunice.

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