Descrição de chapéu Folha Verão

Construção desenfreada de hotéis isola praia em São Miguel dos Milagres

Paradisíaca, praia em Alagoas é tomada por grandes empreendimentos e muros irregulares

São Miguel dos Milagres (AL)

As praias paradisíacas da cidade de São Miguel dos Milagres, um dos destinos mais procurados no litoral norte de Alagoas, sofrem com a escalada de construções desordenadas e implantação de grandes empreendimentos à beira-mar.

O efeito prático é a restrição cada vez mais acentuada dos acessos. Na praia do Toque, uma das mais famosas, o visitante só consegue alcançar a areia com facilidade se estiver hospedado em uma das pousadas de frente para o mar.

Há apenas um acesso muito estreito ao local. O morador ou turista precisa caminhar por uma passagem de apenas 1,5 metro de largura entre o muro de uma pousada e uma cerca de arame farpado.
Outra saída é tentar entrar por terrenos privados. Neste caso, precisa contar com a anuência do proprietário.

“A praia é linda, mas venderam tudo por aqui. O poder público tinha obrigação de preservar ou mesmo criar os acessos. Deixaram essa passagem pequena”, diz José Honório Batista, que veio de São Paulo passar férias com a família no litoral nordestino.

A agente de viagens Gizele Barbier, hospedada em uma pousada da praia do Toque, aproveitava com amigas o caráter reservado da areia. “Aqui é o paraíso. Havíamos programado esse encontro antes dessa história do óleo. É tudo incrível”, diz, enquanto um garçom serve espumante, referindo-se à poluição de praias do nordeste por um vazamento de óleo em agosto.

Na praia de São Miguel dos Milagres, vizinha ao Toque, um muro de dois metros de altura cerca um terreno de 37 hectares à beira-mar.

“A impressão é a de que se construiu um presídio bem na beira da praia. Tomei um susto. Este lugar é lindo, mas faltou bom senso. Poderiam colocar uma cerca viva ou arranjar outra solução para evitar esse choque na paisagem”, diz o empresário carioca Augusto Maciel Lopes, que visitava o local pela primeira vez.

No terreno, serão instalados oito hotéis de luxo. Os lotes, com 100 metros de largura por 300 metros de comprimento cada, foram todos vendidos.

Pescadores, bugueiros, comerciantes e moradores reclamam que, com o aval da prefeitura de São Miguel dos Milagres, ao cercar a área sem debate público, vários acessos à praia foram bloqueados. Parte de uma cerca chegou a ser destruída pela população.

“Não respeitam a gente porque somos pobres. Ficamos isolados. Agora, precisamos ir lá longe para entrar na praia. Fizeram uma passagem muito pequena”, diz o pescador José Libório da Silva, o Coconha.

Junto com sua companheira, ele resiste no local graças a uma liminar da Justiça. “Aqui, retiraram todo mundo. Turismo chegou como a solução, mas acabou tudo para a gente. Estou aqui há 35 anos. Não tem nem mais pescador em São Miguel”, diz.

O plano diretor de São Miguel dos Milagres, aprovado em 2010, determina que qualquer edificação só pode ser erguida a uma distância de 70 metros da faixa de areia.

O ex-diretor de obras do município Kenny Wilson Bernardo da Silva diz que o proprietário do terreno foi notificado para corrigir as irregularidades. Ele não sabe informar se os problemas foram sanados. O município está sem diretor de obras há dois meses.

A legislação municipal também diz que é necessário um acesso à praia a cada 600 metros, o que não é respeitado.

 

O muro que assusta turistas e prejudica moradores foi erguido a menos de 15 metros de uma pequena área de mangue. A norma ambiental diz que a distância precisa ser respeitada.

Nivaldo Lessa, proprietário de uma pousada à beira-mar em São Miguel dos Milagres, reclama da falta de ordenamento e de um debate maior com os moradores.

“A cidade toda usava essa praia. Agora, ninguém vai mais. Fizeram apenas um acesso”, conta.
O procurador do município, Henrique Batista, afirmou que o empreendimento turístico é necessário. “Vai desenvolver e alavancar essa região aqui de uma forma como São Miguel nunca viu”, justifica.

Ele diz que o muro à beira-mar está dentro da legalidade. “São oito empreendimento diferentes. Estão com a licença ambiental para construção. Está tudo dentro da norma.”

Henrique diz que toda mudança traz retração em um primeiro momento. “A orla estava irregular e com comerciantes sem permissão”, diz.

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