Descrição de chapéu Folha Verão

'Turistas de um dia', que pegam balsa a pé, se multiplicam em Ilhabela

Visitantes reclamam de falta de banheiro público; comerciantes criticam baixo consumo

Reginaldo Pupo
Ilhabela (SP)

Eles saltam do ônibus na vizinha São Sebastião, tomam a balsa a pé e, às vezes, trazem coolers de isopor, cadeiras e lanches para evitar gastar mais. O destino: a praia mais perto possível do desembarque em Ilhabela, no litoral norte de São Paulo.

Com saídas do Terminal Barra Funda, de bairros da zona leste de São Paulo ou de cidades do interior, linhas de ônibus de turismo oferecem pacotes a banhistas de um dia. 

Com o verão, a circulação desses veículos em São Sebastião cresce desde setembro, segundo as prefeituras das duas cidades litorâneas.

Antes, em terrenos vazios próximos ao embarque da balsa, viam-se às sextas-feiras e dias de fim de semana pelo menos cinco desses veículos. Neste verão eles superam 20, segundo a gestão municipal. 

Vans, micro-ônibus e ônibus ficam estacionados no continente, já que o arquipélago cobra de grandes veículos com pessoas sem reserva de hotel ou pousada na cidade uma taxa de R$ 760, além de R$ 99 do pedágio.

Faixa de areia repleta de banhistas e guarda-sóis
Praia do Curral, no sul de Ilhabela, é a mais frequentada pelos turistas de um dia - Reginaldo Pupo / Folhapress

Os pacotes de um dia, divulgados em redes sociais, custam de R$ 150 a R$ 400 conforme o ponto de origem, sem refeição nem hospedagem. Da capital, partem na madrugada, com retorno de São Sebastião a partir das 16h.

Entre os pontos mais buscados está a praia do Curral, ao sul da ilha, a 7 km da balsa.

Pelo custo, esses turistas dizem não ver alternativa ao bate e volta. “Se Ilhabela não fosse tão cara, poderíamos vir com a família, nos hospedar aqui e frequentar os restaurantes. Mas a maioria da população de baixa renda não tem condições para isso”, disse a manicure Rosana Rodrigues Alves, 51, que integrava uma excursão da capital.

O autônomo Benedito Ferreira de Lima Júnior, de Guarulhos, estava com sua família e amigos na praia do Portinho e reclamava dos preços. “Pagamos R$ 80 em uma porção de camarão em um quiosque e a quantidade não pesava nem 500 gramas.”

A conta ficou em cerca de R$ 800 para 12 pessoas. Lima também sentiu falta de banheiro público na praia. “Temos que contar com a boa vontade dos comerciantes.”

Por causa do aumento do número de ônibus colados à balsa, a Prefeitura de Ilhabela convocou em novembro uma reunião pública para discutir a questão com os moradores. 

“Somos uma ilha com recursos limitados e vemos com preocupação essa atividade [turismo de um dia]. Acreditamos que cidades que não tenham os limites naturais de Ilhabela se prestam mais a acolher esse tipo de atividade turística”, diz Maria Regina Baptista Pereira, presidente da Amabsul (Associação de Moradores e Amigos dos Bairros do Sul de Ilhabela).

Indagada se tratar esse segmento de turista como problema não seria preconceito, a secretária de Turismo, Bianca Colepicolo, disse que a reunião foi solicitada por “desconforto de alguns munícipes com os visitantes”. 

“Há diversas motivações, mas tecnicamente entendemos que o turismo é um mercado e, portanto, o próprio município um produto a ser vendido. Para a balança comercial ficar positiva com o turismo gerando emprego e renda para a cidade, é preciso que o produto esteja valorizado”, disse a secretária.

“Entendemos que confundem turismo com lazer, quando alguns acham preconceito trabalhar com restrições baseadas em capacidade de carga. Lazer é direto de todo cidadão e turismo é mercado; consome quem pode e quer.”

Lixeiras e banheiros públicos são deficitários nas orlas de Ilhabela, de 40 mil habitantes, mas que recebe na temporada de verão até cinco vezes mais sua população. 

Em ao menos cinco praias onde esteve a reportagem em dezembro, a quantidade de lixeiras era insuficiente. Não havia banheiros públicos em Portinho, Feiticeira, Perequê e Saco da Capela.

O saneamento deficitário se reflete na qualidade das praias. Como a Folha mostrou, Ilhabela e São Sebastião tiveram piora na qualidade da água ao longo do ano, com um salto de 3 para 11 pontos com classificação negativa.

Alguns comerciantes se queixam que o turista bate e volta não deixa dinheiro na ilha. “Eles vêm com caixas térmicas com bebidas e comida e deixam de gastar em Ilhabela”, diz Paulo César Almeida, dono de uma lanchonete perto da praia do Perequê.

As reclamações, porém, não se estendem aos passageiros de cruzeiros, que também passam poucas horas na ilha.

Segundo estudo da FGV, esses turistas gastam por dia, em média, cerca de R$ 500 com passeios de jipes, restaurantes e artesanato. Só neste verão, são esperados 236 mil turistas de 54 navios de cruzeiros.

A prefeitura diz que tem procurado as empresas de ônibus para identificá-las e verificar se estão registradas no Cadastur, cadastro federal dos prestadores de serviços turísticos. 

“Já há um caso de sucesso. Uma empresa está no terceiro grupo que se hospeda em Ilhabela. Deixaram de fazer apenas bate e volta”, diz a secretária de Desenvolvimento Econômico e Turismo, Bianca Colepicolo.

Colepicolo diz ainda que sua pasta está concentrada em cuidar “com mais atenção” da higienização dos banheiros públicos da praia do Curral e Vila (no centro), os únicos de Ilhabela, que tem 333 km2, e disponibilizar banheiros químicos na da Feiticeira e Perequê.

Segundo ela, que não informou a  data de instalação, houve licitação para comprar banheiros químicos. No médio prazo, a secretária prevê a construção de banheiros públicos nas praias de Siriúba, Grande e Perequê dentro de um projeto de revitalização.

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