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Alalaô

Mocidade tira o povo do sofá e atrapalha Gaviões no sonho de repetir título de 25 anos atrás

Samba fraco e tripés românticos da alvinegra não foram páreo para as paradinhas emocionantes da Morada do Samba

São Paulo

A Gaviões da Fiel investiu pesado no desfile de celebração de seus 50 anos, convocando o carnavalesco dos truques e surpresas, Paulo Barros, para fazer sua estreia no Carnaval de São Paulo. Mas a intenção de repetir o título memorável de seus 25 anos talvez seja atrapalhada pela Mocidade, que entrou como um trator na avenida.

Detalhe de um dos carros alegóricos da Mocidade Alegre no desfile deste sábado (22) - Ricardo Matsukawa/UOL

A segunda noite do grupo especial começou com a Pérola Negra, que pode voltar ao grupo de acesso após um desfile um tanto desanimado. A escola teve parte de suas fantasias estragadas na enchente que tomou conta da zona oeste de São Paulo neste mês, mas a Liga decidiu poupá-la na avaliação do quesito.

Porém, a pouca animação da escola, que contou a história dos ciganos, não segurou a onda no sambódromo e os carros alegóricos eram, para dizer o mínimo, estranhos, com figuras humanas de feições assustadoras que lembravam bonecos de filmes de terror.

Depois dela, a Colorado do Brás deu um show. A escola, que quase foi fechada poucos anos atrás e que chegou ao grupo especial graças a um incrível desfile no grupo de acesso há dois anos, entrou de cabeça erguida para brigar pelo título.

Com um enredo sobre o sumiço de dom Sebastião, a agremiação do Brás fez um desfile cheio de cores fortes, muito verde-limão e rosa-choque, levando o cafona para o nível do kitsch descolado e divertido. A elegância não era o alvo, e funcionou a ideia para animar o público, com a ajuda de uma bateria cheia de bossas e com uma madrinha trans de discurso ativista de orgulho LGBT.

Quarta escola da segunda noite do Anhembi, a Morada do Samba levantou a galera desde o começo, com paradinhas na bateria e silêncio dos puxadores que mostravam que a arquibancada pegou seu samba afro sobre o poder feminino logo de cara. O refrão, com o trecho "Yabá cantou, o chão estremeceu/ O corpo arrepiou, ​a lágrima correu", e o toque rápido da bateria do mestre Sombra faziam parecer que o chão da passarela estava mesmo a tremer.

Mas antes disso, a Gaviões havia fechado seu desfile com gostinho de campeã do ano. A escola causou impacto na avenida com príncipes que pegavam fogo ao beijar mocinhas na comissão de frente e com carros impecáveis —o abre-alas, com o mito grego do homem forjado do barro, foi o mais emocionante e belo das duas noites no Anhembi. 

Há 25 anos a Gaviões ganhava seu primeiro título no grupo especial paulistano, com o inesquecível samba, do compositor Grego, do refrão "Me dê a mão, me abraça/ viaja comigo pro céu", uma espécie de canção de amor e um dos sambas mais bonitos a ser tocados na história da festa às margens do Tietê. 

Neste ano, ao celebrar seu cinquentenário, a alvinegra fez um desfile tecnicamente perfeito, com alegorias lindíssimas e tripés que vinham em meio às alas com personagens de histórias de amor como Helena e Páris ou Dorothy, de "O Mágico de Oz", e seus três amigos.

A técnica, porém, parece ter levantado não muito mais do que a torcida já cativa da escola e enchido os olhos dos espectadores, mas o samba, fraco e pouco envolvente, não arrebatou corações. E isso ficou claro quando a Mocidade Alegre entrou, logo em seguida. 

O desfile da escola do Limão foi não apenas correto, foi desafiador ao espectador. O desafio, no caso, era ficar parado. A bateria impôs um ritmo junto com os componentes, com canto e palmas, difícil de ser ignorado até mesmo para quem via pela televisão sentado no sofá.

As alegorias eram cheias de detalhes e traziam cores vivas, as fantasias tinham belos costeiros e adereços de mão (tradição no Carnaval carioca) e dialogavam com a cultura afro —as alas coreografadas, com movimentos de danças afro.

Já ao amanhecer, depois de uma um tanto sonolenta Águia de Ouro, despontava a outra aposta a título da noite: a Rosas de Ouro. Como sempre, a escola não fez feio, mas fez desfile para jurado ver, e não para a arquibancada curtir.

Falando sobre tecnologia com um eu-lírico robô em seu enredo, veio ao sambódromo cheia das parafernálias, com chips em fantasias, controle de batimento cardíaco de rainha de bateria, realidade aumentada para a arquibancada ver em seus celulares. Mas e a brincadeira do Carnaval? E a diversão?

Foi bonito? Foi. Mas não foi emocionante. Resta saber, na tarde de terça (25), como votarão os jurados. 

P.S. De chorar mesmo foi ver as baianas da Império Serrano, na noite de sexta (a primeira do grupo de acesso carioca), desfilarem sem suas saias. Uma tristeza.

mulheres apenas com blusa de fantasia e shorts
Ala das baianas sem saia na escola de samba Império Serrano, durante desfile do grupo A do Carnaval do Rio de Janeiro - FCesar/Ofotográfico/Agência O Globo
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