Acionados a cada 9 segundos, Bombeiros fazem 140 anos em SP

Criada em 1880 com 20 homens, corporação atende a 526 mil ocorrências ao ano, que vão de incêndios a salvamentos

São Paulo

Quem nunca sonhou em ser bombeiro um dia?
A pergunta está presente em uma das salas do Centro de Memória do Corpo de Bombeiros de São Paulo, na Vila Mariana (zona sul), inaugurado em 10 de março de 2005.

Nesta terça-feira (10), quando a corporação completa 140 anos salvando vidas, mais do que responder à pergunta basta imaginar que a cada 9,3 segundos os bombeiros da Polícia Militar de São Paulo são acionados, pelo telefone 193, para missões de resgate, salvamento e combate a incêndio, no ar, na terra ou no mar.

O cenário é bem diferente do de 1880, quando a corporação foi criada, muito devido à pressão pública e da imprensa, após um incêndio no largo São Francisco, num acervo da Faculdade de Direito, em 16 de fevereiro daquele ano.

140 anos do Corpo de Bombeiros.  Centro de memória do Corpo de Bombeiros na Vila Mariana (zona sul)
140 anos do Corpo de Bombeiros. Centro de memória do Corpo de Bombeiros na Vila Mariana (zona sul) - Karime Xavier - 09.mar.2020/Folhapress

Até então a cidade tinha documentado poucos incêndios. Mas aquele no largo São Francisco impulsionou a criação do Corpo de Bombeiros de São Paulo, em 10 de março.

A primeira equipe foi formada por 20 homens, 19 de São Paulo e um do Rio de Janeiro, oriundos da guarda particular do imperador dom Pedro 2º e egressos da Força Pública.

Mas não havia glamour, uma vez que, além de contarem com poucos materiais, entre eles uma carroça com rodas de madeira, que carregava um barril de 445 litros de água —hoje um caminhão autobomba leva pelo menos 4.000 litros—, esse primeiro time ainda patrulhava as ruas.

140 anos do Corpo de Bombeiros.  Centro de memória do Corpo de Bombeiros na Vila Mariana (zona sul)
140 anos do Corpo de Bombeiros. Centro de memória do Corpo de Bombeiros na Vila Mariana (zona sul) - Karime Xavier - 09.mar.2020/Folhapress

À medida que São Paulo cresceu —a população em 1880 era de cerca de 47 mil pessoas, ante 12,18 milhões hoje—, os bombeiros foram sendo cada vez mais sendo testados e, principalmente, exigidos a inovar.

Uma dessas inovações foi a criação da caixa avisadora de incêndios, em 1896. São Paulo teve 486 dessas caixas, que, quando acionadas, enviavam mensagem de telégrafo à central dos bombeiros informando sobre o incêndio —esse artefato, que constava em mapas cartográficos da cidade, substituiu o alarme dado pelos sinos das igrejas e foi usado até 1955, quando deu lugar ao telefone.

Por outro lado, também houve escassez de recursos, tanto que foram 30 anos até que a corporação pudesse contar com veículos automotores.

“Os bombeiros sempre fizeram mais com menos. E a dedicação e a paixão pela profissão levaram a inovar em muitas áreas”, explica o major Paulo Maculevicius.

Isso fica evidente na evolução de materiais, como o desenvolvimento de bombas de água e de dispositivos de salvamento em altura até a criação do Projeto Resgate em 1990 e o preparo dos 
profissionais (como salva-vidas no mar e mergulhadores).

Também fica evidente quando se vê que um dos maiores avanços foi aceitar mulheres desde 1942 —e formar a primeira turma totalmente feminina, com 37 soldados, as “Pioneiras do Fogo”, em 4 de dezembro de 1991.

“Ser mulher nos bombeiros é ser muito bem-aceita. Digo isso porque fui a primeira mulher no comando em Bauru (SP). A gente traz para a instituição, que já tem todo um cuidado com a vida, um olhar mais humano para a corporação, de melhoria na comida, no alojamento, como se fosse de mãe. E a minha história se funde com a dos bombeiros”, diz a capitão Luciana Soares, 43, que tem pai, marido e irmão também bombeiros.

“Somos o braço humano da Polícia Militar, e mais leve por não ter a pressão de reduzir taxas de criminalidade”, diz ela, que está há 25 anos na corporação e hoje atua no departamento de relações públicas.

Mesmo quem cumpre trabalho administrativo e interno, diz ela, participa do operacional nos bombeiros, ou seja, atende a chamados e também vive a emoção das ruas.

140 anos do Corpo de Bombeiros.  Centro de memória do Corpo de Bombeiros na Vila Mariana (zona sul)
140 anos do Corpo de Bombeiros. Centro de memória do Corpo de Bombeiros na Vila Mariana (zona sul) - Karime Xavier - 09.mar/2020/Folhapress

Em evidência no imaginário da cidade pelas tragédias, como as dos edifícios Grande Avenida (1981, com 17 mortes), Andraus (1972, 17) e Joelma (1974, 188) ou a do Cine Oberdan (1938, 31, sendo 30 crianças) e o estouro da barragem em Brumadinho —equipes de SP participaram das buscas—, os bombeiros se desdobram para cumprir a função, em jornadas de 24 horas que incluem finais de semana e feriados, por um salário inicial de R$ 3.600.

Mesmo diante do cenário de 1 profissional para cada 5.189 habitantes na Grande SP, os bombeiros conseguem atender a 90% das ligações do 193 no primeiro toque —são cerca de 144 mil por mês.

Além atuar com prevenção, educação e cobrir o estado de SP com 72 QGs (41 na capital) e 8.436 bombeiros, a corporação aposta em tratamento humanizado e tecnologia para dar conta de 526 mil ocorrências (em 2019), com 236,9 mil sendo destinadas ao resgate.

“A cobrança é horizontal, é fortíssima. Não tem corpo mole. Mas, nós, do comando, a cada troca de turno, checamos como está o profissional, como se sente em relação à missão que foi cumprida. Quem foi para Brumadinho passou por apoio psicológico. Às vezes, uma palavra é o que ajuda a manter a paixão pelo trabalho”, diz Maculevicius.

Segundo ele, às vezes não é o salvamento que martela na cabeça do profissional e sim a cobrança própria por não alcançar o desfecho desejado, como no quase salvamento de Ricardo Oliveira Galvão Pinheiro, no incêndio do edifício Wilton Paes de Almeida, em 2018 —o homem morreu com outras seis pessoas.

A paixão faz com que a corporação seja uma das mais queridas dos órgãos públicos —é a terceira com mais seguidores em redes sociais— e se mantenha em busca de melhorias técnicas e tecnológicas.

Tanto é assim que a busca por tecnologias envolverá, nos próximos dias 21 e 22 de março, um hackathon em busca de projetos e universitários que ajudem a desenvolver ferramentas que auxiliem os bombeiros em situações de desastres e emergências.

Contudo, além de incrementarem ações (o que inclui estudos sobre cada veículo para saber o melhor local para cortar a coluna quando a vítima está presa nas ferragens), o que define o trabalho do bombeiro é a doação. “O bombeiro se dispõe a doar tudo: o tempo, a juventude, a saúde... até a vida”, afirma Maculevicius.

Neste último caso, além dos trabalhos voluntários, nos 140 anos da corporação, a bravura de 120 bombeiros que morreram em ação —dois deles na Baixada Santista na semana passada— é lembrada em um monumento presente na Escola Superior de Bombeiros, em Franco da Rocha (SP).

Centro de Memória do Corpo de Bombeiros de São Paulo
Local: Rua Domingos de Morais, 2329, na Vila Mariana (zona sul de São Paulo)
Horário de funcionamento: 9h às 16h
Quanto: entrada gratuita

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