Descrição de chapéu Coronavírus

Com Guimarães Rosa, coletivo de BH avisa em projeções que ninguém está sozinho

Frases colocadas em cartão-postal de Niemeyer mesclam política e apoio em meio a quarentena

Belo Horizonte

Por volta das 19h de segunda-feira (23), pouco antes do horário marcado para panelaços no país, na empena sem janelas de um dos blocos do Condomínio JK, uma frase avisava aos moradores, em quarentena contra o novo coronavírus: “Ninguém está sozinho”.

Em meio ao isolamento social e aos protestos contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), integrantes de um coletivo de moradores dos prédios projetados por Oscar Niemeyer nos anos 1950, encontraram nas projeções um meio para conversar com os vizinhos e a cidade.

“Soubemos que tem pessoas que ficam sozinhas aqui no prédio. Queríamos dar essa mensagem de acalanto para elas”, diz um dos integrantes do Viva JK. Com cerca de 60 pessoas, os integrantes do grupo preferem não se identificar, para evitar problemas no condomínio.

Mensagem projetada em prédio diz "Ninguém está sozinho"
Com Guimarães Rosa, coletivo de BH avisa em projeções que ninguém está sozinho - 27.03.2020/Coletivo Viva JK

Outras projeções que viralizaram nas redes sociais mostram agradecimento aos trabalhadores que não podem ficar em casa, como profissionais da saúde, entregadores, encarregados de limpeza; um aceno ao editorial desta Folha, “Solidários venceremos”, e um trecho de Grande Sertão: Veredas, do mineiro Guimarães Rosa (1908-1967). Além do pedido: se puder, fique em casa.

As primeiras frases foram projetadas no sábado (21), dia do aniversário de Bolsonaro, e vieram com tom político, à hora do panelaço. A primeira imagem dizia: Acabou. A segunda: Renuncie. Em seguida, o paredão exibiu a frase dita por um haitiano ao presidente, na porta do Palácio da Alvorada, durante a semana: Você não é mais presidente.

Mas, a imagem mais compartilhada nas redes, segundo os integrantes, foi da mensagem dizendo “Tudo vai ficar bem, BH <3”. Como um lembrete de que o isolamento e os riscos de agora também vão passar.

Hoje, entre os dois blocos, estima-se que o JK (oficialmente, Condomínio Governador Kubitschek) tenha cerca de 4 mil moradores, de todas as idades e diferentes classes sociais, além de salas comerciais e uma delegacia da Polícia Civil. Ainda há quem torça o nariz, lembrando da fama do passado do prédio, que foi conhecido como endereço de prostitutas e traficantes.

O coletivo Viva JK se formou para tentar reverter a estigmatização e lembrar Belo Horizonte sobre o cartão-postal, localizado no Centro. Desenhado por Niemeyer nos anos 1950, os dois blocos que compõe o JK demoraram mais tempo que o irmão mais famoso, o Copan, em São Paulo, para serem concluídos. Mas, como ele, fazem parte da mesma proposta de uma cidade dentro da cidade.

Em meio ao isolamento da quarentena, sem poderem se encontrar pessoalmente, os integrantes do coletivo promoveram um piquenique virtual em uma videoconferência. O projetor usado nas intervenções foi empréstimo entre vizinhos. E os responsáveis pelas frases ressaltam que o equipamento foi devidamente higienizado com álcool em gel.

Belo Horizonte tem 118 dos 189 casos confirmados de infecção pelo novo coronavírus, em Minas Gerais. Segundo boletim do governo do estado, há mais de 21 mil casos suspeitos no estado. Entre as medidas adotadas pela prefeitura e pelo governo do estado estão fechamento de shoppings e comércio não-essencial, suspensão de aulas e fechamento de divisas.

Em São Paulo, há indicativos de que o isolamento social ajudou a achatar a curva de casos, mas o discurso de Bolsonaro pedindo isolamento vertical — apenas para grupo de risco — pode levar à reversão das orientações adotadas por governadores até aqui.

Os integrantes do coletivo do JK, que vivem voltados à Praça Raul Soares, região de movimento intenso na capital, dizem que já perceberam aumento na circulação de carros essa semana.

“O que quer dizer que o posicionamento do presidente tem feito diferença. As pessoas vão sair nas ruas e podemos virar a Itália”, diz um deles, se referindo à escalada da pandemia no país europeu.

Sem previsão do fim da quarentena, o coletivo diz que pretende seguir com o diálogo nas paredes, usando letras de música nas próximas intervenções, mas mantendo sempre uma posição política clara diante da crise. Na primeira noite, eles lembraram ainda do SUS (Sistema Único de Saúde).

“Acho que está todo mundo nesse barco. Todo mundo preocupado com saúde, com dinheiro, com os avós, com não ter leito de hospital, caso a gente precise”, diz uma das pessoas por trás das frases.

“Quando a gente agradece aos profissionais de saúde, de entrega, à imprensa é isso, porque são pessoas tentando movimentar as coisas, para a sociedade ver [o que estamos passando] de forma diferente“, completa outro.

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