Contra coronavírus, escolas orientam de quarentena a não levar filho doente

Decisão de afastar aluno sem sintoma que venha de região afetada é precipitada e não tem base técnica, diz ministro

São Paulo e Brasília

Diante do avanço do coronavírus em cidades da Europa e da confirmação de casos no Brasil, escolas de São Paulo têm adotado medidas que vão desde melhorar a ventilação e disponibilizar álcool em gel até orientar alunos que vieram de locais atingidos a não frequentarem as aulas.

A recomendação dessa espécie de quarentena a estudantes mesmo sem sintomas contraria orientação do Ministério da Saúde e foi criticada nesta segunda-feira (3) pelo ministro Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS).

A medida foi adotada em São Paulo pela escolas Avenues, Lycée Pasteur, Positivo e Pueri Domus.

Em nota, o Lycée, na Vila Mariana (zona sul de SP), afirma que orientou que colaboradores, pais e alunos que estiveram em zonas de exposição ao vírus, "em particular China, Singapura, Coreia do Sul e regiões italianas da Lombardia e Vêneto, não visitem a escola durante 14 dias após o seu regresso e que, em caso de sinais de infecção respiratória durante esse período, entrem em contato com as autoridades sanitárias".

Colégio Lycée Pasteur, de currículo bilíngue, na Vila Mariana (zona sul de SP)
Colégio Lycée Pasteur, de currículo bilíngue, na Vila Mariana (zona sul de SP) - Karime Xavier - 26.fev.2019/Folhapress

A escola afirma ainda que adotou medidas de prevenção recomendadas pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e instalou novos dispensadores de álcool em gel.

No mesmo sentido, a Avenues, no Jardim Panorama (zona sul de SP), pede que "as famílias que tiverem viajado a países impactados pelo vírus fiquem em quarentena por 14 dias após retornar ao Brasil". 

"Sabemos que essa medida pode gerar inconvenientes para algumas famílias. No entanto, acreditamos que é importante agir com cautela para reduzir o risco à nossa comunidade", diz o texto.

Ao comentar orientações como essa, de colocar alunos em quarentena, o ministro da Saúde afirmou nesta segunda-feira que não há qualquer suporte técnico para uma medida nesse sentido.

"Me parece uma decisão um pouco precipitada, porque ela não se embasa em nenhum critério técnico. Imagino que tenha reunião de pais e aí a autoridade parental prevalece. Agora, do ponto de vista de saúde pública, se a pessoa chega de um local e não tem febre, não tem coriza, não tem tosse, nenhum sinal, ela não tem porque ser retida. Ela é orientada: 'olha, se você tiver sinal de febre aí você entra em contato'", afirmou Mandetta.

"Nessas épocas de muito estresse às vezes as pessoas tomam esse tipo de decisão emocional, que não guarda nenhum suporte técnico." 

De acordo com o boletim mais recente da OMS, 65 países já registraram casos confirmados do coronavírus. Os mais afetados são a China, com 80.174, Coréia do Sul (4.212), Itália (1.689) e Irã (978).

Na Bela Vista (região central), o colégio Stance Dual não chegou a orientar aos alunos que vieram de países com casos que não frequentem as aulas. Mas, em comunicado, pediu aos pais que decidam "com responsabilidade e respeito aos demais [em caixa alta] a necessidade do aluno permanecer em casa, caso tenha viajado nessa semana para um dos países de risco, ou mesmo alguém de sua convivência". 

Assim como o Stance Dual, outros colégios paulistanos que não optaram pela quarentena também têm reforçado medidas de higiene e solicitado às famílias que não levem à escola crianças com sintomas. Ambas as medidas são apoiadas por médicos especialistas no tema.

Entre eles, está o Santa Cruz, em Alto de Pinheiros (zona oeste), que fez o pedido em comunicado aos pais, orientando ainda que eles informem o colégio a respeito de qualquer diagnóstico de doenças infectocontagiosas. 

Orientada pelo infectologista Caio Rosenthal, a escola também diz estar favorecendo a ventilação das salas de aula e reforçou aos estudantes a importância de higienizar constantemente as mãos.

Também o Dante Alighieri, nos Jardins, pediu que jovens com febre e/ou sintomas de gripe não frequentem a escola e divulgou medidas de prevenção.

No Jardim América, o St. Paul's reforça que têm seguido as orientações das autoridades nacionais e internacionais e afirma que tem aconselhando alunos e colaboradores que tenham viajado nos últimos dias para países com casos confirmados da doença que procurem assistência médica caso apresentem sintomas.

Na Vila Mariana, o Bandeirantes afirmou estar atento "atento às ações do governo brasileiro para combater o coronavírus e em linha com as orientações destacadas pelo Ministério da Saúde" e disse que enviou a pais e alunos informações sobre os cuidados e ações preventivas para evitar a disseminação do vírus.

A linha de reforçar as medidas de prevenção também foi adotada pelo Santa Maria, na zona sul de São Paulo.

Na rede estadual, a Secretaria da Educação orientou às escolas que façam um “dia D” com palestras de especialistas, dicas de higiene e cuidados. Algumas escolas pretendem abordar o tema em trabalhos pedagógicos.

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