Com subsídio, SP terá escola internacional francesa de tempo integral por R$ 3.000

Fusão de colégios na Vila Mariana dará lugar ao Grand Lycée Pasteur

Angela Pinho
São Paulo

Cônsul geral da França em São Paulo, Brieuc Pont recorre a um pensamento do estilista alemão Karl Lagerfeld (1933-2019) para defender a importância do ensino de francês em um mundo no qual o inglês virou pré-requisito. “Ele dizia: hoje em dia, falar só duas línguas é brega”, afirma.

Filho de diplomata e ex-aluno do Lycée Pasteur, em São Paulo, Pont, 45, é um entusiasta de um projeto milionário que será inaugurado nesta semana e pode movimentar o mercado de escolas bilíngues na capital paulista.

Trata-se da fusão do Lycée, de currículo bilíngue, com o Liceu Pasteur, com aulas predominantemente em português, ambos na Vila Mariana (zona sul de São Paulo).

A unificação, com investimento de R$ 150 milhões, incluiu a reforma do prédio da unidade da rua Mairinque, projetada por Ramos de Azevedo (1851-1928). Ela irá sediar a nova instituição, que passará a ser chamada de Grand Lycée Pasteur.

O currículo será o plurilíngue, já adotado atualmente no Lycée. Todas as aulas serão em francês, com exceção de educação física, música, língua portuguesa e história e geografia do Brasil.

Haverá ainda cursos obrigatórios de inglês e optativos de alemão, espanhol, grego e latim.

Prevista para terminar em 2023, a fusão de currículos começou em 2018, com a educação infantil, e será gradual para os já matriculados no ensino fundamental no curso brasileiro.

A mensalidade, na faixa de R$ 3.000 para período integral, ficará abaixo da média de outros colégios de elite em São Paulo, em parte porque o governo francês dá um subsídio de cerca de € 3.000 ao ano por aluno (em torno de R$ 13 mil).

Pont diz esperar que o valor seja um diferencial. “Queremos ser a melhor escola internacional com preço acessível”, afirma. Sem citar a Avenues, com unidade em São Paulo inaugurada no ano passado, ele faz referência velada à escola americana que se propõe a formar “líderes globais” e menciona a rede de liceus franceses pelo mundo.

"Vejo escola dizendo que cobra mensalidade de R$ 10 mil, mas que o aluno terá acesso a mais de cinco unidades pelo mundo”, afirma. “Nosso sistema tem 496 escolas em 137 países.”

Além do crescimento do mercado de escolas internacionais, outra motivação para a fusão foi a constatação de que outros colégios tradicionais da capital paulista, como o Bandeirantes e o São Luís, estavam em transformação, diz o diretor geral do Liceu, Cláudio Kassab.

Eles esperam que, com as mudanças, o número de alunos aumente dos atuais 1.600 estudantes para 2.500.

O objetivo é atrair um público que vá além da comunidade francesa em São Paulo.

Para isso, Pont já tem uma lista de argumentos à mão: em 2050, segundo projeções, o francês será a terceira língua mais falada do mundo, e empresas do país estão entre os grandes empregadores estrangeiros no Brasil.

“Falar inglês é o mínimo que se exige hoje. Para ter um diferencial e dominar um terceiro idioma falado por milhões de pessoas, qual escolher? Chinês, árabe? Nós propomos o francês”, diz.

Para convencer as famílias disso, haverá outro incentivo: o ensino de francês para os pais que assim quiserem e desconto na Aliança Francesa.

A escola afirma que o conteúdo em português não será negligenciado, e que o aluno será preparado tanto para vestibulares do exterior como para o de universidades brasileiras.

Além do idioma, o currículo terá ainda outras matérias com uma pitada francesa.

Em consonância com o sistema educacional de seu país, filosofia e história são consideradas matérias prioritárias, segundo Pont, para que o aluno compreenda o mundo.

“A Caverna de Platão, por exemplo, nos faz pensar na internet”, afirma, em referência à metáfora criada pelo filósofo grego, de homens acorrentados em uma gruta que pensam que a realidade são as sombras que veem projetadas.

Nesse contexto, a tecnologia tem um papel delimitado na escola. Embora esteja presente nos laboratórios, sistemas de projeção e laptops em diversas salas de aula, não é protagonista absoluta. “Como dizia [o filósofo Jean-Jacques] Rosseau, ciência sem consciência é a ruína da alma”, diz Pont. “Tecnologia é muito importante, desde que o aluno tenha consciência do que está fazendo.”

A proposta se reflete na reforma do espaço, com projeto do estúdio NPC arquitetura. O objetivo, segundo a arquiteta Maria Coccoli, foi modernizar o prédio antigo, que havia sido descaracterizado, mas manter as marcas do tempo.

Para recuperar o projeto original, a equipe fez uma pesquisa nos arquivos da prefeitura. Entre outras descobertas, encontraram vãos que haviam sido fechados para virar salas de depósitos.

Mantiveram algumas características, como o piso de peroba e o armário e a chapeleira da sala dos professores, e recuperaram ou adaptaram outras. A pintura das colunas da biblioteca foi retirada para deixar à mostra os tijolos originais. Prateleiras antigas da biblioteca foram sustentar o palco no pátio dos alunos.

Para manter o forro de estuque das salas de aula sem que o barulho dos alunos tomasse conta do ambiente, foram encomendadas placas acústicas da Suécia.

Com o investimento, a escola e o governo francês pretendem resgatar o prestígio da instituição, que tem entre seus ex-alunos nomes como a cantora Rita Lee e o maestro João Carlos Martins.

“Precisamos reconquistar esse público e mostrar que o francês é uma língua moderna dos negócios e da intelectualidade”, afirma o cônsul, para em seguida voltar a citar o estilista alemão. “Lagerfeld sabia tudo”, brinca.

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