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Angela Boldrini

Mãe de primeira viagem na pandemia relata medo, isolamento e ajuda de amigos

Antonio, filho da repórter Angela Boldrini, nasceu no domingo de Páscoa

Brasília

Quando estava grávida, ouvi de uma amiga: “você não vai ser uma daquelas mães que mandam passar álcool em gel na mão antes de encostar no bebê, né?”. Na época, sentada no cafezinho lotado da Câmara dos Deputados, dei risada. Claro que eu não seria uma mãe assim neurótica.

Alguns meses depois, em plena pandemia do novo coronavírus, a ideia de deixar alguém encostar no meu filho recém-nascido —depois de passar álcool em gel na mão ou não— é que parece completamente maluca.

Antonio nasceu no domingo de Páscoa. Vai fazer um mês na terça-feira (12), dois dias depois do meu primeiro Dia das Mães deste lado do balcão.

A jornalista Angela Boldrini com seu filho Antonio, em sua casa em Brasília
A jornalista Angela Boldrini com seu filho Antonio, em sua casa em Brasília - Arquivo pessoal

Sabia que a maternidade traria vários medos: do parto, do bebê engasgar, de não conseguir amamentar. Mas ninguém me contou que eu teria que aprender a ser mãe ao mesmo tempo em que o mundo tenta aplacar o avanço de um vírus altamente contagioso.

Em abril, fui dar a primeira vacina obrigatória. Na apertada sala de vacinação do posto de saúde do bairro, três enfermeiras deliberavam sobre qual delas iria almoçar primeiro. Uma quarta, responsável pela triagem das carteirinhas dos recém-nascidos, entrou sem máscara e limpou o nariz nas costas das mãos. Depois, voltou a mexer nos papéis.

A cena me fez suar frio, saí do posto quase chorando. Chegando em casa, limpei todo o carrinho, troquei o bebê, joguei todas as nossas roupas para lavar. Passei uma semana checando a respiração e a temperatura dele a cada cinco minutos.

Não se sabe exatamente como a doença afeta as crianças. Segundo levantamento da Folha de 20 de abril, foram noticiadas 8 mortes de bebês com menos de um ano. Pode ser pouco, estatisticamente falando, mas nada tira da minha cabeça: o que impede meu filho de ser a nona?

Claro que a minha experiência como mãe na pandemia é marcada pelo privilégio. Com carteira assinada e possibilidade real de isolamento, estou muito longe da realidade da maioria das mães do Brasil. Meu marido e doula puderam estar no meu parto, e já estou calculando onde apertar as contas para dar as próximas vacinas na rede particular, sem sair de casa.

Nos grupos de maternidade das redes sociais, a situação é drasticamente diferente. Todos os dias surgem publicações de grávidas desesperadas porque os acompanhantes não poderão estar no parto. Sozinhas no hospital, essas mulheres ficam mais vulneráveis à violência obstétrica.

Várias, como eu, estão com medo de levar seus filhos no posto médico e, sem ter, como eu tenho, um pediatra ao alcance do WhatsApp, perguntam a outras mães o que fazer com o bebê com febre, alergia, ou assadura. Outras são mães que dependem de um auxílio emergencial que não sai. Postam fotos de geladeiras vazias e fazem pedidos de ajuda. Na ausência do amparo do estado, têm encontrado algum alívio em ações coletivas de doação organizadas nessas comunidades virtuais.

Meu filho deveria ter conhecido meus pais nos primeiros dias de vida. Agora, não tem previsão de ver os avós. Tento fazer ligações de vídeo com eles e ao menos mostrar o bebê. Não dá para tentar isso com minha vó Ana, de 88 anos, que já tem dificuldade de nos reconhecer ao vivo, que dirá pelo Zoom.

A quarentena tem também outro efeito: depois de passar a gestação inteira ouvindo de amigos que são pais que nós precisaríamos de toda a ajuda possível no puerpério… não há quase ajuda possível. Meu marido e eu nos revezamos entre segurar o bebê que grita (e como grita), marcar exames, consultas e vacinas, cozinhar e tentar manter a casa minimamente habitável. A máxima “durma quando o bebê dorme” não se aplica à maternidade da Covid-19.

Apesar disso, descobrimos nos amigos uma rede de apoio à distância. Para minimizar as saídas, uma amiga vai ao mercado para nós uma vez a cada duas semanas. Em um dia de muito cansaço, pedi o almoço no meu pê-efe favorito. Quando chegou, descobrimos que um grupo de amigas minhas do ensino médio tinha deixado a conta paga —por muito tempo. Outros, de Brasília, São Paulo, Rio e até Paris, mandaram comidinhas e mensagens de apoio.

O que gostaria de poder dizer ao Antonio agora é só que acabou, e que ele está seguro. Por enquanto, não posso. Por isso, ficamos em casa —e espero que você, leitor, também.

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