Descrição de chapéu Coronavírus

Estudos tentam entender como coronavírus atinge crianças e adolescentes

Pesquisa aponta que 90% delas são assintomáticas; no Brasil, ao menos sete crianças e adolescentes morreram por Covid-19

São Paulo

Desde que o novo coronavírus começou a fazer vítimas pelo mundo, ficou claro que os maiores alvos eram idosos e pessoas com doenças crônicas. No Brasil, até o domingo (19), houve 2.462 mortes e 38.654 casos confirmados, a maioria (73%) de pessoas com mais de 60 anos.

Há, porém, casos intrigantes de contágio e mortes de crianças e adolescentes, e cientistas tentam entender como a infecção se dá nos mais jovens e por que (ou se) se eles seriam menos afetados.

Um grupo de pesquisadores da Universidade do Sul da Flórida, nos EUA, publicou em 17 de abril na revista científica Journal of Public Health Management & Practice um novo estudo em que estimam que para cada criança com a Covid-19 que precise de cuidados intensivos existam 2.381 infectadas pelo vírus.

O grupo estima que existam mais de 176 mil crianças infectadas nos EUA, uma vez que os registros americanos indicam que 74 crianças precisaram ser internadas em UTIs pediátricas. Quase metade dos hospitalizados (46%) tinha entre 12 e 17 anos. O tempo médio de permanência dos pacientes com menos de 18 anos nos hospitais, segundo o estudo, é de 14 dias.

Um outro estudo, realizado em Madri, na Espanha, durante as duas primeiras semanas da epidemia no país examinou crianças que passaram por 30 hospitais até o dia 16 de março. Na ocasião, das 4.695 pessoas com a doença confirmada em Madri, apenas 41 eram crianças. Dessas, 25 foram hospitalizadas (60%) —quatro delas foram internadas em UTI e outras quatro precisaram de aparelhos respiradores. Nenhuma das 41 morreu.

Nos dois casos, o problema parece ser a subnotificação, com testes feitos apenas nas pessoas com quadros mais graves de Covid-19.

Filhos de trabalhadores migrantes usam máscaras protetoras dentro de um complexo esportivo transformado em abrigo em Nova Délhi, na Índia
Filhos de trabalhadores migrantes usam máscaras protetoras dentro de um complexo esportivo transformado em abrigo em Nova Délhi, na Índia - Adnan Abidi/Reuters

Outra pesquisa, realizada na China e publicada pela Academia Americana de Pediatria em 1º de abril, analisou a infecção por coronavírus de 728 crianças com idade entre 2 e 13 anos para buscar entender como os mais jovens são afetados pela Covid-19.

O principal resultado observado pelos pesquisadores foi a confirmação de que as crianças são, sim, suscetíveis ao coronavírus e que mais de 90% dos jovens apresentaram casos assintomáticos ou com sintomas leves e moderados.

Além disso, o tempo médio entre o início da doença e a confirmação da infecção foi de dois dias, período ao qual se seguiu redução constante dos sintomas e melhora gradual do quadro clínico.

Ainda não se sabe o que leva as crianças morrer por causa do novo coronavírus. Há mais estudos sobre as razões pelas quais os mais novos são menos suscetíveis ao Sars-CoV-2.

Uma das hipóteses que explicariam a Covid-19 em crianças, levantada por Graham Roberts, diretor do David Hide Asthma and Allergy Research Centre no Reino Unido e consultor da Universidade de Southampton em entrevista à BBC, é que elas poderiam ter menos receptores da enzima angiotensina 2 (ECA-2) na superfície das células.

A ausência dessa enzima nas vias aéreas inferiores explicaria por que crianças manifestaram apenas sintomas leves e moderados observados nas vias aéreas superiores (boca, nariz e garganta).

A infectologia da Unifesp Sandra de Oliveira também cita essa possibilidade, mas ressalta que não há nada na literatura médica que comprove a tese.

“Cada vírus tem um caminho pelo organismo. Ao circular pelo sangue, o vírus encontra o seu alvo, que é célula que expressa uma proteína a qual ele pode se ligar. A expressão dessa proteína poderia ser diferente [em crianças e adultos]”, diz.

Até o momento, o consenso é de que os casos de infecção em crianças são subnotificados, e que a principal ferramenta para conter a disseminação da doença, uma vez que os mais novos tendem a ser assintomáticos, é o isolamento social.

“Nos EUA, as escolas são rapidamente fechadas durante surtos de H1N1, por exemplo, para que as crianças não levem o vírus para casa. Avós que cuidam de crianças costumam ter infecções graves e pneumonia com maior frequência”, explica Campos.

Por isso, autoridades sanitárias, incluindo o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, recomendam que os pais não deixem seus filhos com os avós, que integram o grupo de risco devido à idade.

Outra possibilidade sugerida por Roberts para explicar a baixa incidência de Covid-19 em crianças é que as muitas vacinas aplicadas durante a infância, associadas ao desenvolvimento do sistema imunológico, ajudariam a fortalecer o organismo das crianças contra novas infecções. Nos adultos ocorre a imunossenescência, um envelhecimento natural do sistema imunológico e que atrapalha a defesa do corpo contra vírus novos.

Apesar de ser natural, o enfraquecimento do sistema imunológico também pode ser provocado pelo próprio paciente a longo prazo, como no caso dos fumantes, por exemplo.

Campos diz não acreditar nessa possibilidade e explica que o número de infecções respiratórias em crianças é frequente e às vezes elas podem ser bastante graves.

Ela sugere, em contrapartida, que os mais jovens possam ter uma resposta inflamatória diferente dos adultos, o que explicaria por que é mais comum agravamento da condição clínica dos mais velhos com inflamação das vias respiratórias inferiores, como o pulmão.

Mortes no Brasil e no mundo

Levantamento feito pela Folha mostra que foram noticiadas, por sites de notícias de língua inglesa e portuguesa, 25 mortes de crianças e adolescentes no mundo. Dentre as mortes noticiadas no mundo, 15 foram de crianças com menos de dez anos e 8 de bebês com menos de um ano.

No Brasil, até a terça (14), seis pessoas com menos de 19 anos morreram vítimas do coronavírus, segundo o Ministério da Saúde, mas a pasta não informou quantas têm menos de 18 anos, a idade e o gênero de cada uma das vítimas e onde as mortes foram registradas.

O levantamento realizado pela Folha indica que há ao menos sete mortes de pessoas com menos de 18 anos no Brasil, a maioria (5) na região Nordeste. Foram registradas, até esta quinta (16), uma morte no Rio de Janeiro, uma em Roraima, uma no Ceará, duas em Pernambuco e duas no Rio Grande do Norte.

Em Roraima, um jovem ianomâmi de 15 anos morreu após contrair o coronavírus. Ele morava e estudava uma comunidade do município de Alto Alegre.

Em Pernambuco, a Secretaria de Saúde disse à reportagem que um jovem de 15 anos, que vivia em São Lourenço da Mata, foi vítima do coronavírus. No estado, no último dia 12 de abril, morreu um bebê de sete meses que tinha síndrome de Down, hipertensão pulmonar e cardiopatia.

No Ceará, uma bebê de apenas três meses morreu após contrair a Covid-19. Ela tinha síndrome de Bartter, uma doença crônica rara que reduz o potássio no sangue, causando fraqueza, vômitos e dificuldade para respirar. Já no Rio Grande do Norte, morreram um bebê de um ano e sete meses e um recém-nascido prematuro, com apenas quatro dias de vida.

Na quinta (16), a Prefeitura de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, confirmou a morte de uma jovem de 17 anos por causa do coronavírus. Kamilly Ribeiro ficou 20 dias internada no CTI do Hospital Moacyr do Carmo.

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