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Menino de 14 anos é morto em casa durante ação da PF no Rio

Família diz que agentes chegaram atirando; polícias afirmam que adolescente foi baleado em confronto

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Júlia Barbon Marcela Lemos
Rio de Janeiro | UOL

Um menino de 14 anos foi baleado nesta segunda-feira (18) dentro da casa de seu tio em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro, durante uma operação da Polícia Federal com apoio das polícias Civil e Militar fluminenses no Complexo do Salgueiro.

Parentes e amigos dizem que João Pedro Matos Pinto estava brincando com os primos quando policiais chegaram jogando bombas de gás e atirando, acertando o jovem na barriga. Já as polícias alegam que o adolescente foi atingido durante um confronto com traficantes que pularam o muro enquanto fugiam.

João Pedro Matos Pinto, 14, morto durante operação da Polícia Federal em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio
João Pedro Matos Pinto, 14, morto durante operação da Polícia Federal em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio - Twitter/Reprodução

O garoto foi socorrido em um helicóptero da Polícia Civil até o grupamento de operações aéreas dos Bombeiros, que fica na zona sul carioca, a cerca 18 km de distância em linha reta. Segundo o Corpo de Bombeiros, ele já chegou morto, e um médico da corporação atestou o óbito por volta das 15h15.

Sem poder entrar no helicóptero e sem receber informações, a família começou uma busca por toda a madrugada em hospitais e delegacias e criou uma campanha nas redes sociais com a "#procurasejoaopedro". Só informaram ter encontrado seu corpo na manhã desta terça (19), no IML (Instituto Médico Legal) da cidade.

A Secretaria de Estado de Vitimados afirmou em nota que foi a equipe de assistência social da pasta que entrou em contato com um tio de João Pedro, às 21h49 de segunda, para avisar que o corpo estava no IML, oferecendo atendimento social, psicológico e encaminhamento para o enterro gratuito.

O perfil criado por parentes na internet divulgou o relato em áudio de um dos primos que estavam com o menino no momento da ocorrência, também adolescente.

"A gente tava jogando sinuca, e o helicóptero começou a voar em volta da casa. Aí começaram a dar tiro em direção ao morro. A gente entrou dentro de casa e ficou lá. Aí todo mundo deitou no chão. O primo de D. viu, o M. viu, os policiais entrando, se agachando ali no deque da piscina", conta.

"Aí a gente foi, deitou no chão, levantou a mão, o M. começou a gritar que só tinha criança. [pausa] Aí eles tacaram duas granadas assim na porta da sala. Quem tava mais perto da porta era eu e o João. Aí ficou um zumbido, eles deram muitos tiros na janela e a gente saiu correndo para o quarto", continua.

"Nisso que a gente correu para o quarto ficou o João e D. na sala, na copa, deitada. Os policiais entraram, mandaram a gente deitar no chão e todo mundo calar a boca. Eu olhei para a frente e o João tava deitado, mas eu não sabia o que tinha acontecido, para mim ele tava só... O policial viu a pulsação dele para ver se ele tava vivo", diz.

"O M. e o amigo dele pegaram ele, botaram no carro, e nisso que o M. tava levando ele para o carro, a gente escutou o M. gritando e uns tiros. As polícias deram tiro no M. enquanto ele levava o João para o carro, para o helicóptero pegar ele", conclui o primo.

À reportagem, uma tia afirmou que, até a manhã desta terça, a família ainda não sabia o local da morte. "O primo passou na casa dele e foi lá buscá-lo para brincar. Eles estavam no quintal da casa. Ele se assustou com o policial, e o policial atirou na barriga dele. Até agora não sabemos de nada. Se ele morreu no local, a caminho do hospital", disse Georgia Matos de Assis, 41.

João Pedro era filho de uma professora e de um comerciante e vinha de uma família religiosa. "A família está imobilizada, estamos acabados. Ele era um menino muito bom, era estudante de um colégio particular. A mãe dele é professora, família da igreja", contou.

Uma amiga relatou que parentes foram impedidos por policiais de embarcar no helicóptero. "Obrigaram a socorrê-lo até um campo de futebol, onde o helicóptero fez o resgate, mas impediram que os familiares embarcassem junto com ele", disse Érika de Souza.

O jovem foi enterrado na tarde desta terça no cemitério São Miguel, em São Gonçalo. Na cerimônia, o pai Neilton Matos disse ao RJTV, da Globo, que estava trabalhando próximo ao local e ouviu o helicóptero "dando rasante". Quando chegou, policiais federais e civis estavam na casa.

"Estavam com os cinco adolescentes sentados, como bandidos, mas não são bandidos, são apenas adolescentes, não traficantes. Estavam ali, na quarentena, juntos jogando, só que percebi que faltava um adolescente, meu filho, João Pedro", declarou.

Durante uma entrevista coletiva sobre o coronavírus, o governador Wilson Witzel (PSC) lamentou a morte do menino e disse que "gostaria de esclarecer que se trata de uma ação da PF, que pediu o apoio da Polícia Civil". No Twitter, ele escreveu que a operação precisa ser apurada.

A irmã da vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018, também publicou em suas redes sociais: "Meu coração sangra pela família do menino João Pedro! Todo dia a favela chora de alguma forma! Todo dia o povo preto sofre de alguma forma! Todo dia nos matam um pouco de alguma forma! Chega de genocídio!", postou Anielle Franco.

Na última sexta (15), uma outra operação das polícias Militar e Civil deixou 13 mortos no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio, entre eles dois apontados como chefes do tráfico, Leonardo Serpa de Jesus e Leandro Nascimento Furtado. As circustâncias das mortes estão sendo investigadas.

Polícias dizem que menino foi atingido em confronto

A superintendência da Polícia Federal no Rio divulgou uma nota na manhã desta terça confirmando que um adolescente foi ferido durante uma operação no Complexo do Salgueiro com apoio da Core (Coordenadoria de Recursos Especiais) da Polícia Civil.

Segundo o órgão, a ação tinha como objetivo cumprir dois mandados de busca e apreensão contra lideranças de uma facção criminosa da região. Diferentemente do primo de João Pedro, a corporação afirma que quem jogou as granadas foram bandidos que pularam o muro da casa.

"Durante a ação, seguranças dos traficantes tentaram fugir pulando o muro de uma casa. Eles dispararam contra os policiais e arremessaram granadas na direção dos agentes", diz o comunicado. No local foram apreendidas granadas e uma pistola.

Tanto a PF quanto a Polícia Civil informaram que o jovem ferido foi socorrido de helicóptero e que médicos do Corpo de Bombeiros prestaram atendimento, mas que ele não resistiu aos ferimentos. O corpo então foi encaminhado ao IML de São Gonçalo.

A delegacia de homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí instaurou um inquérito para apurar a morte do adolescente, e a Polícia Federal disse que "acompanhará e prestará todas as informações e apoio necessário à elucidação dos fatos".

"Foi realizada uma perícia no local e duas testemunhas prestaram depoimento na delegacia. Os policiais foram ouvidos e as armas apreendidas para confronto balístico. Outras diligências estão sendo realizadas para esclarecer as circunstâncias do fato", declarou a Polícia Civil.

Já a Polícia Militar afirmou que o Batalhão Aeromóvel (GAM) atuou em apoio aéreo à operação, mas que o grupamento não foi solicitado para socorrer pessoas feridas durante a ação.

Comunidade foi alvo de nova operação nesta terça

Nesta terça, na manhã seguinte à morte de João Pedro, a Polícia Federal e a Polícia Militar voltaram ao Complexo do Salgueiro para novas operações, e moradores relataram mais confrontos e dois helicópteros sobrevoando o local.

A PF diz que a ação tinha como objetivo apurar denúncias de que traficantes estariam utilizando uma casa no alto da mata da comunidade como apoio. "Os policiais localizaram esse ponto estratégico que permitia aos suspeitos visão privilegiada da região, inclusive com monitoramento de ações policiais e rota de fuga para os suspeitos", afirma em nota.

Segundo a corporação, foram apreendidas armas, drogas, munições, carregadores, roupas camufladas, entre outros materiais, que foram levados à superintendência e serão objeto de investigações futuras.​

Já a PM informou apenas que "policiais militares do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) atuam na Comunidade do Salgueiro" e que, até o início da tarde, não havia informações de prisões ou apreensões.

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