Descrição de chapéu Coronavírus

Mesmo com balsa restrita, Ilhabela enfrenta multiplicação de casos de coronavírus

Cidade vive problemas com circulação de pessoas, barcos e helicópteros e impasse com proprietários de casas que não conseguem entrar na ilha

Santos

Ilhabela foi a única cidade do litoral de São Paulo a não apresentar crescimento dos casos do novo coronavírus em abril. Com apenas quatro confirmados, o município, que restringiu a entrada pela balsa ainda em março, se apresentava como referência no combate à Covid-19. Porém, duas semanas depois, o quadro mudou: eram 33 casos até esta sexta-feira (15), oito vezes mais do que antes do feriado de 1º de maio. A doença está em transmissão comunitária confirmada no arquipélago.

Mas como uma ilha que restringiu seu acesso e tinha apenas quatro casos de coronavírus passou a enfrentar a transmissão comunitária, isto é, quando não se sabe mais a origem da doença? Um dos motivos, segundo moradores que conversaram com a reportagem, pode ser a entrada sem fiscalização de pessoas, entregadores, barcos e helicópteros na ilha, que vem se intensificando nos últimos dias, burlando o decreto municipal que limita a entrada.​

Área destinada a embarque para pedestres na balsa para Ilhabela, após bloqueio de entrada de turistas, em março
Área destinada a embarque para pedestres na balsa para Ilhabela, após bloqueio de entrada de turistas, em março - Caio Gomes - 20.mar.2020/Tribuna do Povo

Moradora da ilha há mais de 25 anos, Laís Araújo, 82, percebeu o aumento de circulação na cidade no feriado de 1º de maio, mesmo com a balsa fechada. "Fui no mercado e me arrependi, estava bem cheio. Vi os vizinhos, que não estavam aqui, do outro lado da rua fazendo churrasco, em família, teve até aniversário, uma gritaria, muito barulho. Depois disso que aumentou o coronavírus", reclamou a aposentada.

A informação foi confirmada pelo secretário de saúde, Gustavo Barboni. "Temos muitas [denúncias de embarcações ilegais entrando na ilha], inclusive de pessoas que entram de helicóptero também. Mas a fiscalização do mar é de competência da Marinha do Brasil que atua na fiscalização da segurança da navegação", lamentou o secretário.

Ao mesmo tempo, Ilhabela vive um impasse com os proprietários de casas na cidade, que se organizaram para tentar estabelecer um diálogo com a prefeitura. O Movimento Somos Ilhabela tem cerca de 300 membros, a maioria sem conseguir entrar na cidade desde o início da restrição à balsa, em 18 de março. Priscila Tamer, que faz parte do grupo, disse à Folha que o objetivo não é reabrir a balsa, e sim discutir os critérios para as restrições impostas pela prefeitura.

"Fecharam a entrada aos proprietários de casas, mas tiveram movimento excessivo em abril de gente que faz entrega na ilha e vai embora, que trabalha ou mora em cidades da região. O vírus está em São Sebastião, Caraguatatuba, e as pessoas que fazem entregar em Ilhabela não são testadas e podem ser portadoras do vírus", acrescentou Priscila Tamer.

O Movimento Somos Ilhabela possui dados da Dersa, fornecidos ao presidente da câmara de Ilhabela, de que 8 mil passageiros, 2 mil motos, 2 mil bicicletas e 6 mil veículos entraram no arquipélago em abril, enquanto proprietários de casa são impedidos de ingressar o local.

O acesso à cidade tem que ser solicitado por um sistema, que recebeu 11 mil solicitações desde o início da restrição, em 18 de março, até o fim de abril. No período, foram barradas cerca de 10 mil pessoas que tentaram o cadastro.

Donos do Hotel Itapemar, que existe há 40 anos no arquipélago e possui 80 funcionários, o casal José Ronaldo de Alice e Mônica de Alice vem enfrentando dificuldades para ingressar na ilha e cuidar do negócio. Ele, que também é diretor da Associação Comercial de Ilhabela, precisava entrar para realizar o pagamento de trabalhadores que estavam em férias e até recolher cobranças, mas foi impedido em todas as oito solicitações feitas à prefeitura.

"As coisas precisam ter um cunho legal, não podem ser feitas à revelia, por achismos. Estamos em quarentena e íamos continuar em quarentena, são vidas e somos pessoas responsáveis. É triste acreditarem que estamos entrando na Ilhabela para levar o vírus e sem respeitar a quarentena. Sem nos conhecerem, colocaram rótulos horríveis nas pessoas que geram renda local", reclamou Mônica à reportagem.

Atualmente, Ilhabela tem cerca de 34 mil habitantes, segundo o IBGE, mas um estudo do Instituto Ilhabela Sustentável aponta 17 mil imóveis na cidade, sendo 6.000 casas de veraneio, o que totalizaria, em média, 28 mil visitantes, além da população fixa.

O secretário de saúde do município disse à Folha que a entrada é para quem tem permissão concedida pela prefeitura. "A travessia de balsas continua com restrição. Somente podem atravessar com autorização aquelas pessoas que se encaixam nos critérios do decreto municipal, em relação à excepcionalidade. O justo motivo para a travessia. Isso é para morador, residente, veranista ou morador de segunda residência", relatou Gustavo Barboni.

De acordo com decreto da prefeitura, está excluída a restrição na balsa apenas para ambulâncias, viaturas e transporte de pacientes, veículos privados de assistência médica, travessia de abastecimento, de farmácias, supermercados e hospitais.

Porém, o tetracampeão mundial com a seleção brasileira Gilmar Rinaldi está na cidade, onde é dono de uma casa no norte da Ilha, e reclamou da movimentação intensa no arquipélago, mesmo com o isolamento social decretado.

"Não existe [quarentena], se muitas pessoas saem e retornam todos os dias não é quarentena, pra ser tem que ficar em casa e pronto", apontou o ex-goleiro à Folha. "Algumas pessoas que têm casa aqui estão impedidas de entrar, e quem está aqui se sair não importa o motivo não consegue voltar, e nesse meio tempo muita gente faz o trajeto diária na balsa, ou indo de Ilhabela trabalhar no outro lado ou inverso", continuou Rinaldi.

Até a última quinta (14), a cidade tinha duas pessoas internadas pelo coronavírus. Uma delas, em estado grave, precisou ser entubada e transferida para o Hospital Regional do Litoral Norte em Caraguatatuba, a 30 quilômetros de distância. Ilhabela só tem 10 leitos de UTI no momento, segundo dados da prefeitura.

O secretário de saúde Gustavo Barboni reforçou que, mesmo com o aumento observado em maio, o número de casos ainda é baixo para a região - São Sebastião e Caraguatatuba, cidades mais próximas, tinham até esta sexta-feira 286 e 91 casos de coronavírus, com 2 e 4 óbitos, respectivamente.

"Isso é fruto das restrições da balsa. A consciência das pessoas, ou a falta de, é que fez com que a doença se transformasse em uma pandemia. A melhor maneira de combater é o isolamento social. Mas as pessoas não respeitam, e o vírus se espalha", lamentou.​

A moradora Laís Araújo também reclama que a prefeitura vem concedendo permissões de entrada sem critérios, e que por isso movimentação na ilha continuou no fim de semana seguinte ao feriado, principalmente entre jovens. A reclamação é geral em sua vizinhança. "Eles vêm para o fim de semana, fazem churrasco e vão embora, deixando o corona para gente", reclamou a idosa.

Neta de Laís, Juliana Paixão conta que a família não vê a avó, que mora sozinha, há dois meses. "A gente fica preocupada porque ela tem 82 anos e está lá sozinha. Se ela pega alguma coisa, como a gente vai fazer? Não tem ninguém cuidando dela", disse Juliana, moradora de Santos, a 160 quilômetros de distância. "Mas pelo menos ela disse que está adorando, pois como tem menos gente na rua, também tem muito mais passarinho que o normal", brincou a neta.

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