Descrição de chapéu Coronavírus

Projeto 'Inumeráveis' cria memorial de vítimas da Covid-19 no Brasil

Plataforma quer mostrar que mortos pela doença vão além da estatística

Camila Appel
São Paulo

“Não há quem goste de ser número
Gente merece existir em prosa”

Com esse verso, o artista Edson Pavoni define a plataforma digital “Inumeráveis”, um memorial das vítimas da Covid-19 no Brasil criada junto com o empreendedor social Rodrigo Oliveira e lançada na última quinta-feira (30).

“Todo dia você acorda e quer saber o número do dia. O número de mortos daquele dia. Tem uma estatística, uma ciência que é importante, mas são pessoas que morreram. Tinham uma história e eram amadas”, diz Pavoni.

A ideia surgiu de uma reflexão sobre o tema principal de sua arte. São instalações interativas que propõe reflexões sobre a conexão e o toque. As duas grandes instalações previstas para esse ano, em Lisboa e Tóquio, foram canceladas. “Aí eu me vi refletindo sobre como me conectar com o que está acontecendo. Surgiu a ideia de que essa conexão seria justamente contar essas histórias."

Ele se uniu à jornalista Alana Rizzo para iniciar entrevistas com familiares das vítimas e logo os dois perceberam que as conversas seguiam para algo positivo e profundo, uma celebração da vida em vez de dor e luto.

Os escritos não se preocupam com uma biografia propriamente dita, mas descrevem uma memória que tornava aquela pessoa única e especial. “Dessa forma é possível nos conectarmos com a ausência dessa pessoa, significar essa ausência”, diz Pavoni.

O memorial de Manoel Chaves de Nascimento, por exemplo, traz uma imagem inspirada em seu apelido e na forma como se colocava no mundo. “Belo, porque lá na Bahia, dizem, era o mais bonito da sua vila” (...) “Simpático, sempre cheiroso e com os sapatos engraxados”. (...) “Todos os dias, enquanto o seu bairro Santo Amaro estava acordando, ele já tinha ido até a editora e voltado trazendo as notícias em papel”.

A plataforma permite duas possibilidades de colaboração: uma para jornalistas, estudantes de jornalismo e outros profissionais que desejarem se voluntariar para reportar uma história, e outra para familiares e amigos prestarem uma homenagem à vítima.

A repercussão do lançamento foi surpreendente. Foram 600 emails em três dias, com ofertas de voluntários querendo contribuir para o projeto.

Pavoni tem a expectativa de trazer um rosto a todas as histórias por trás dos números das vítimas do coronavirus no Brasil e, com isso, gerar impacto positivo. “O que eu espero que aconteça é uma onda de pessoas contando essas histórias e não deixando que virem apenas um número. Pode ser um processo de cura da sociedade. E um processo de conexão real do que está acontecendo."

No futuro, planejam transformar esse memorial virtual em algo físico, que possa ser visitado. “O coronavírus ataca nosso poder de respirar, então quero visualizar um local amplo para se respirar e honrar essa memória”.

Por fim, ele justifica a importância de um toque mais profundo desse físico que estamos privados de fazer. “O que eu aprendi é que as histórias penetram no coração num lugar onde os números não conseguem”.

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