Descrição de chapéu Coronavírus

Tem gente querendo que flexibilize; há um descolamento total da realidade, diz prefeito de BH

Com 25 mortes confirmadas, capital mineira tem o menor número de mortes por Covid-19 registradas entre as capitais do Sudeste

Belo Horizonte

O ano de 2020 era histórico para Belo Horizonte antes de chegar a março. Começou com a notícia de uma doença misteriosa e logo foi descoberta uma contaminação nas cervejas da Backer. Em seguida, o maior volume de chuvas registrado em mais de cem anos deixou mortos e destruiu bairros da cidade.

A cidade ainda recuperava o fôlego quando confirmou o primeiro caso do novo coronavírus, no dia 16 de março —o Brasil tinha então 234 registros. No dia seguinte, eram 5 casos confirmados; no dia 18, 10.

O prefeito Alexandre Kalil (PSD) ouviu de especialistas que não teria coragem para fazer o que era necessário: fechar tudo.

Depois de um descompasso com o governador Romeu Zema (Novo), que ele acusou nas redes sociais de ter voltado atrás em um acordo feito por telefone, Kalil determinou que só o comércio essencial abriria.

Um grupo formado por médicos e secretários deve avaliar em conversa com comerciantes se as atividades podem retornar a partir do dia 25 de maio. Mas nada é certo.

Com 25 mortes até sexta-feira, a capital mineira tem o número mais baixo entre as capitais do Sudeste. O prefeito, que irá concorrer a reeleição este ano, conversou com a Folha por telefone, de casa, na quarta-feira (6), sobre como a capital mineira enfrenta a pandemia.


Uma das suas manifestações nas redes sociais, defendendo o "fique em casa", foi logo após o pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro no fim de março. Como o senhor avalia a postura dele durante a pandemia?
Eu, todos os governadores, todos os prefeitos, precisávamos de uma liderança nisso. Eu senti, honestamente, muita falta de liderança, tanto estadual como federal. Eu tenho uma posição muito clara e não tenho uma posição política sobre isso. Se todo mundo tivesse abraçado a mesma causa, a causa da ciência, nós íamos sair com muito mais velocidade disso aí.

A capital tem 834 casos confirmados e 23 mortes registradas até esta quarta-feira (6). Chegou ao pico da pandemia?
Ninguém sabe isso ainda. É hora a hora, dia a dia. O que estamos fazendo? É não ter pico, fazer a onda ser longa. Esses cientistas acompanharam tudo o que aconteceu no mundo. BH está copiando. Que mundo é esse que o prefeito de São Paulo [Bruno Covas, PSDB], que eu reconheço o esforço que ele fez, está comprando saco plástico reforçado [para por corpos]? O mundo vai sair melhor dessa pandemia? Tem gente buzinando, querendo que flexibilize. Há um descolamento total da realidade, do sofrimento humano.

Minas tem poucos casos, comparado a outros estados, mas tem um número baixo de testes. Qual a sua posição sobre testes?
A prefeitura vai começar testagem massiva [testes enviados pelo governo federal]. Segundo o Jackson Pinto [secretário de Saúde], a projeção é testar duas vezes mais do que a Coreia. Vamos testar 30 mil a cada 1 milhão de habitantes. Será por amostragem, para compilar dados.

Há uma preocupação que a rede de BH sobrecarregue com atendimentos de outras cidades?
Claro que tem, estamos falando de uma pandemia. Tem gente que vem tratar câncer, fazer hemodiálise, porque a capital tem que ter a ciência que a pandemia é nela. Nós nos preparamos, sabemos que ninguém ia nos socorrer. A história de Milão nos ensinou. Milão fechou, quando manteve os casos baixos, achou que estava sob controle e abriu. O famoso “Milão não pode parar”. E aconteceu a tragédia.

Deu tempo de estruturar a rede aqui?
O que nós temos são hospitais que estão prontos, na rede particular, tudo contratado. Não posso, juridicamente, contratar serviço particular, não tem como justificar isso ao Tribunal de Contas, sem que minha rede esteja saturada. Mas estamos preparados. Belo Horizonte está como está porque parece que a taxa de isolamento é boa e fechar antes foi uma boa atitude.

Em BH, estão autorizados a funcionar apenas serviços essenciais e aulas seguem suspensas. A prefeitura trabalha com alguma previsão para flexibilização?
Estamos nos reunindo com lojistas, com comércio, colocamos Planejamento e Fazenda junto [com o grupo de especialistas e da Saúde] para começar a estudar, se abrimos gradativamente dia 25 de maio. Essa é uma data que desejamos, vai depender dos próximos dias. Antes do dia 25, não há chance.

O senhor está trabalhando de casa?
Eu vou duas vezes por semana à prefeitura, mas faço trabalho remoto. Eu quero preservar minha vida também. Sou um cara comum, o vírus não escolhe.

O senhor disse, no início da quarentena, que o governador Romeu Zema (Novo) teria voltado atrás em uma conversa entre vocês, sobre medidas mais rígidas. Como o senhor avalia a atuação do governador?
Eu não quero criticar. Você lança um programa [de flexibilização] e o prefeito faz o que quer? O problema é o seguinte... Estou entregando cestas básicas, máscaras, estou distribuindo a passagem porque tem que levar o paciente ao centro de saúde, os enfermeiros. Eu gasto R$ 60 milhões por mês.

E a relação dele com prefeitos?
Os 24 que foram na coletiva que eu dei sentem falta e precisam do governo. Tem que entender que o governo não tem dinheiro para pagar o funcionalismo. Eu tive que brigar para repassarem para BH a parcela da dívida [do estado com os municípios]. Reconheço a dificuldade do governo mas, por outro lado, quando foi candidato já sabia.

O senhor foi alvo de protestos pedindo a reabertura do comércio, com manifestações em frente à sua casa. O fato de ser ano eleitoral, pode influenciar prefeitos a ceder à pressão?
Fazer política em cima de cadáver é um negócio muito difícil, apesar de ter gente que já fez. Quanto a mim, sem problema, [protestar] é um direito democrático. Ficou todo mundo dentro do carro, cada um com sua Mercedes, caminhonete cabine dupla, vidro fechado, máscara e ar-condicionado. Quem tem medo de buzina é cachorro distraído atravessando a rua. Pode buzinar à vontade que não me assusta, eu sigo a ciência.

Mas ser ano eleitoral e a decisão final ficar com prefeitos, não pode ser um fator?
Estamos batendo recorde em cima de recorde. Tenho um filho (médico ortopedista) que não pode ficar em casa, tendo uma filhinha de um ano e meio e a mulher dele grávida. Eu fico em casa por ele. A única coisa que não quero carregar na minha vida é ter feito um ato político que custou uma vida.

O senhor, que foi presidente do Atlético-MG, se posicionou contra a volta do futebol. Vê possibilidade de retorno este ano?
O futebol vai ser aberto a hora que a prefeitura quiser. Se quiserem fazer campeonato, façam no interior. Quando os cientistas falarem que pode, aí vamos conversar. Por enquanto, no Mineirão e no Independência, não tem jogo de futebol.

Qual a maior preocupação do prefeito de BH hoje?
Saturar leitos. Estamos com taxa de ocupação de leitos do coronavírus por volta de 47%, segundo relato que recebi no final do dia.

Raio-X

Alexandre Kalil, 61, prefeito, cursou até o 4º ano de engenharia civil na Faculdade Kennedy e trabalhou mais de 40 anos na construtora da família. Foi presidente do Atlético-MG entre 2008 e 2014.

Erramos: o texto foi alterado

O estádio a que se referiu Alexandre Kalil chama-se Independência e não Independente. O texto foi corrigido.

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