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Sem albergue, moradores de rua em Carapicuíba são expulsos do centro

Moradores foram acolhidos na favela Porto de Areia e dizem que guarda municipal agiu de forma violenta

Ana Beatriz Felicio
Carapicuíba (SP) | Agência Mural

Na madrugada do dia 31 de maio, um domingo, Wilder Pereira Santana, 45, a esposa Cris dos Santos Nascimento, 37, e o colega Lourenço Vittorelo, 57, dormiam na região central de Carapicuíba, na Grande São Paulo, quando foram abordados por agentes da Guarda Civil Metropolitana.

Segundo os três, eles foram expulsos do local a pontapés e perderam todos os objetos pessoais. “Usaram spray de pimenta e tomaram nossas coisas. Tivemos que sair de lá só com documentos e a roupa do corpo”, relembra Santana.

Questionada, a Prefeitura de Carapicuíba afirmou que até o contato da reportagem não havia recebido nenhuma denúncia sobre o caso e que a Secretaria de Segurança irá apurar os fatos. “Qualquer tipo de violência é abominada na cidade”, afirmou a administração.

Wilder Pereira Santana e Cris dos Santos Nascimento, moradores de rua que tiveram pertences levados pela GCM
Wilder Pereira Santana e Cris dos Santos Nascimento, moradores de rua que tiveram pertences levados pela GCM - Ana Beatriz Felicio/Agência Mural

Com receio de continuar nas ruas, o grupo pediu ajuda à associação de moradores da favela Porto de Areia, localizada nas proximidades. “Um outro morador de rua disse para eles que nós poderíamos ajudar. Então nos juntamos e conseguimos colchões, roupas e alimentação", disse a líder comunitária Cleide Faria dos Santos, 50.

Os três foram acolhidos provisoriamente em um espaço chamado pelos moradores da Porto de “escolinha”, uma pequena construção feita na comunidade por uma ONG na qual as crianças estudam.

Localizada na região central da cidade e perto de um antigo lixão e da lagoa de Carapicuíba, na Porto de Areia vivem cerca de mil famílias, de acordo com a liderança comunitária. Os barracos são feitos de madeira e não há asfalto nas ruas. Mesmo em época de isolamento social por causa da pandemia do novo coronavírus, há muitas pessoas fora de casa, conversando e trabalhando.

O trio se sente grato pelo acolhimento dos moradores. “Eles não estão cobrando nada para nos ajudar. A turma se uniu, já apareceu telha, já apareceu madeira”, conta Amadeu, pedreiro e também sem-teto, enquanto mostra o terreno que limpou e pretende começar a erguer a casa.

Sem albergue, moradores de rua relatam agressão de GCM em Carapicuíba e se refugiam em favela
Sem albergue, moradores de rua relatam agressão de GCM em Carapicuíba e se refugiam em favela - Ana Beatriz Felicio/Agência Mural

De acordo com a Secretaria de Assistência Social de Carapicuíba, atualmente há 293 pessoas em situação de rua cadastradas na cidade. Apesar disso, o município não conta com albergues para pernoite, apenas um Centro Pop (Centro de Referência Especializado a Pessoa em Situação de Rua), que funciona durante o dia.

Wilder, nascido na vizinha Osasco, vive nas ruas de Carapicuíba há dois anos e oito meses. Foi onde conheceu Cris. Ele relata que esta não foi a primeira vez que foram tratados com violência.

“Já passei muito sofrimento, sem contar que já tive três tentativas de incêndio contra mim”, afirma. “Nos últimos tempos não estamos mais podendo ficar nas ruas do centro que a guarda municipal vem com o jato de água nos acordar. Quando levantamos é bicuda ou spray de pimenta, já até chutaram minha boca."

Para ele, esses episódios ferem não apenas a parte física mas a saúde psicológica. “Levaram nossa melhor roupa, nosso melhor calçado, tudo que tínhamos de doação”, diz. “Somos seres humanos, só queremos uma oportunidade. Nos reintegrar a sociedade, somos trabalhadores, somos gente de bem."

O sentimento é compartilhado com o pedreiro Lourenço Vittorelo, que está nas ruas há cerca de um ano, desde que os pais morreram e ele descobriu que a casa onde vivia estava hipotecada.

“Antes da pandemia, a gente já tinha opressão. Morador de rua para eles [prefeitura] é igual lixo, mas não somos. Temos um coração, igual todo mundo. Por que não fazem um albergue para gente, onde possamos dormir fora da rua?”, questiona. “Sou um pedreiro, não gosto de coisa errada."

Ele diz que utiliza o Centro Pop da cidade frequentemente, mas que um local para dormir de noite faz falta. “Podemos tomar café da manhã, banho, almoçar e jantar. Mas, às 17h eles fecham, cada um vai para o seu cantinho e fica escondido onde possa se defender. É que a gente não tem um albergue, se tivesse nós estaríamos lá."

A gestão municipal afirmou estar em andamento projeto para criar um alojamento provisório emergencial para acolher a população em situação de rua da cidade, mas não deu previsão de entrega.

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