Abuso policial em Parelheiros não tem comparação com caso Floyd, diz PM

Postura de policial paulista é 'totalmente reprovável', afirma porta-voz da corporação

São Paulo

A cena de um policial militar pisando sobre o pescoço de uma mulher em Parelheiros, na periferia de São Paulo, causou indignação e ensejou comparações com o episódio da morte do americano George Floyd, nos EUA, asfixiado durante uma abordagem policial. Para a Polícia Militar de São Paulo, no entanto, os casos não têm comparação.

"A abordagem do agente paulista não consta em nenhum protocolo e é 'totalmente reprovável'", afirma o porta-voz da corporação, o capitão Osmário Ferreira.

Ferreira argumenta que no episódio nos EUA tratava-se de um procedimento previsto em abordagens policiais do país para colocação da algema. E que o que houve foi abuso e descontrole nessa medida.“O procedimento do policial nos EUA é um procedimento previsto. Ali houve um erro de procedimento, porque houve um excesso por parte dele", diz.

No caso de Parelheiros, o porta-voz da PM diz que o procedimento utilizado pelo policial não é previsto e está em desacordo com o que é recomendados aos agentes.

"O policial estava de pé no pescoço. É uma postura totalmente reprovável. Não há nenhum procedimento que dita aquela postura do policial, aquilo não está previsto em manuais. Ali, houve violação de regras. A postura do policial é totalmente contrária ao que a PM deseja”, completa.

O caso foi revelado pelo Fantástico, da TV Globo. Vídeos gravados por moradores da região do Jardim Iporã mostram um policial militar pisando sobre o pescoço de uma mulher negra de 51 anos ao atenderem a uma ocorrência de reclamação por barulho no local.

Em 30 de maio, a dona do bar foi agredida por um dos policiais ao tentar defender um amigo, que foi dominado por um agente e estava imobilizado no chão. Ela diz ter sido atingida com três socos e derrubada com uma rasteira. Na queda, teria fraturado a tíbia, um osso da perna.

Os agentes disseram que ela tentou impedir a prisão do rapaz e agrediu o policial com uma barra de ferro e com um cabo de madeira. O vídeo não mostra essa parte da cena. No trecho divulgado é possível ver a mulher deitada de bruços no chão, sendo imobilizada pelo policial que pisa em seu pescoço. Ela é algemada e arrastada até a calçada.

Policial pisa no pescoço de mulher negra e arrasta a vítima
Policial pisa no pescoço de mulher negra e arrasta a vítima - Reprodução

O boletim de ocorrência diz que a dona do bar e dois clientes cometeram crimes de desacato, desobediência, resistência e lesão corporal qualificada contra os dois policiais, o que a defesa nega. Era a sexta vez que a PM havia sido acionada para ir no bar desde 2016, sempre por reclamações de vizinhos que se queixavam do barulho.

Ainda de acordo com o PM, os agentes envolvidos na ocorrência foram afastados do serviço logo após o caso.

"O objetivo da PM é não causar lesão em ninguém”, diz o porta-voz da coorporação. "Nossos procedimentos são revistos o tempo inteiro", completa.

Nos últimos meses, porém, pipocaram registros de violência e abusos de policiais em São Paulo (veja a lista abaixo).

Casos de violência policial

  • Barueri

    12.jun - Homem que estava sentado na calçada mexendo no celular recebe uma gravata de policiais militares; vizinhos tentam proteger a vítima, mas também apanham de cassetetes

  • Jaçanã (zona norte de SP)

    13.jun - Vídeos flagram policiais agredindo jovem rendido e registram ocorrência como desacato e resistência

  • Vila Clara (zona sul de SP)

    15.jun - Vizinhos flagram policiais agredindo em diferentes momentos pessoas que protestavam contra a morte de um adolescente

  • Carapicuíba

    22.jun - Jovem desmaia após ser estrangulado duas vezes durante abordagem da PM

A dona do bar diz que resolveu trazer o caso a público para impedir que outras pessoas passem pela mesma situação, que lhe tem causado sofrimento psicológico e financeiro, afirma.

“Espero que tomem todas as providências cabíveis, para que isso não venha a acontecer com outras famílias. Porque eu sofro e minha família também sofre. Além de sofrer psicologicamente, financeiramente. Algumas pessoas até me criticaram porque eu dei depoimento. Mas eu precisava colocar isso adiante, para poder minha cabeça ficar melhor", afirma a mulher, que pede para não ser identificada, em mensagem de voz encaminhada à reportagem por seu advogado, Felipe Pires Morandini.

À Folha, Morandini diz que ela está abalada psicologicamente e fisicamente, pela fratura que teve na perna, que precisou de cirurgia.

"Ela tem medo de retaliação e pede para não ter a identidade revelada ao menos até que saia alguma medida cautelar que lhe dê segurança. Ela está com muito medo", afirma.

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