'Tem dias em que acordo alegre, em outros, sem esperança', diz refugiada congolesa sobre crise

Prudence Kalambay diz que passa por momento mais difícil desde chegada ao país

São Paulo e São Paulo

Na casa de Prudence Kalambay, 39, a rotina imposta pela pandemia de Covid-19 se divide entre os cuidados com as crianças e o ouvido atento ao telefone. Uma ligação pode significar uma oportunidade de trabalho que a ajude a pagar as contas.

Autônoma, ela sustenta a família com a participação em eventos nos quais apresenta a cultura e a política de seu país natal, a República Democrática do Congo, na África Central.

O distanciamento social fez com que os convites rareassem. “Fico esperando a sorte acontecer”, diz ela.

Prudence é um dos 33 imigrantes congoleses que vivem na região metropolitana de São Paulo sob condição de refúgio, de acordo com o Observatório das Migrações em São Paulo. Ela está há 12 anos no Brasil, após deixar a sua terra por sofrer perseguição política.

Obstáculos não são novidade desde que ela chegou aqui, mas para Prudence este tem sido o momento mais difícil.

Ela, os cinco filhos (de 18, 12, 9, 7 e 5 anos) e a neta de 10 meses dividem um apartamento em um prédio no bairro de Itaquera, zona leste de São Paulo.

As crianças estão tendo aulas e atividades online e demandam ajuda da mãe, que está mais sobrecarregada que antes da pandemia.

Ela também enfrenta os desafios das aulas a distância no programa de EJA (Educação de Jovens e Adultos) com o qual pretende concluir o ensino médio para depois tentar uma vaga em um curso de relações internacionais. “Se com diploma já é difícil, imagina sem.”

Há quatro meses, pouco antes do início da quarentena, a família se mudou para o apartamento. Prudence se lembra de que ficou feliz à época pela oportunidade de os filhos terem espaço para brincar na área comum do prédio. Um benefício do qual ainda não conseguiram desfrutar.

Ela sai de casa apenas para ir ao supermercado, e a filha mais velha frequenta um curso de culinária. Os outros ficam todo o tempo dentro do apartamento.

Prudence​ já tem notado mudanças no comportamento das crianças, principalmente do mais novo, de cinco anos. “Percebo muita teimosia e resistência nas atitudes dele”, diz.

Sem os eventos e sem a pensão de R$ 750 do ex-marido, que não lhe paga há quatro meses, a autônoma conta com o auxílio emergencial do governo e a ajuda de amigos para quitar as contas, incluindo o aluguel de R$ 1.000 mensais.

Sobre a vida no pós-pandemia, ela se diz otimista, mas com cautela. Espera que a onda de manifestações antirracistas, que tomaram as ruas em junho com o movimento Vidas Negras Importam, abra oportunidades para negros e imigrantes residentes na capital paulista. Mas está certa de que essa não é uma mudança rápida.

“Tem dias em que acordo alegre; em outros, sem esperança. Tiro a força dos meus filhos”, diz. E também da neta. “Quando ela acorda e olha pra mim sorrindo, não tem como não sorrir.”

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