Thereza foi mais bem vestida do Brasil, entrou para família real e morreu aos 91

Viúva de João Maria de Orléans e Bragança, morreu com problema no coração

Rio de Janeiro

“A mulher mais bem vestida do Brasil”. Esse era o título da reportagem da revista norte-americana Life em abril de 1954, sobre a socialite Thereza de Souza Campos, que décadas mais tarde se tornaria a uma Orléans e Bragança, família dos descendentes do imperador d. Pedro 2º. Ela morreu há seis semanas no Rio de Janeiro. A causa foi problema no coração, segundo João Henrique de Orléans e Bragança, de quem Thereza foi madastra.

Voltando aos anos 1950, a Life era uma das revistas mais importantes do mundo, e Thereza ocupou duas páginas e meia daquela edição em inglês, posando com cinco modelitos variados. Ela era, então, provavelmente a face mais importante do high-society carioca, um grupo de milionários brasileiros acostumado a receber estrelas de Hollywood e a figuras da realeza para jantares nos palácios da cidade, que ainda era a capital federal.

Um desses milionários era Carlos Eduardo de Souza Campos, herdeiro de uma fortuna, alto funcionário do Banco do Brasil, jogador de polo, bom garfo, grande dançarino e carinhosamente apelidado de Didu. Ele transformou a mineira Thereza, filha de um comerciante de Ubá, em madame Souza Campos em 1946. Ela tinha apenas 17 anos, e já trabalhava com moda no Rio de Janeiro.

Thereza de Orleans e Bragança morreu em julho de 2020 - Revista Manchete/Reproducao

Um filho, que ficou conhecido como Diduzinho, nasceu logo em seguida, enquanto os jovens pais se tornavam o supra-sumo da elegância nacional. No livro “A Noite de Meu Bem”, no qual Ruy Castro descreve a noite chique carioca entre os anos 1940 e 1960, pode-se ler o seguinte:

“(...) Entre essas mulheres, havia uma para quem as próprias mulheres olhavam com uma admiração quase religiosa: Thereza de Souza Campos. Todas a observavam para copiar seus penteados, vestidos, joias, sapatos, gestos, gostos, postura, tom de voz. Ela já nascera elegante –era a única explicação.”

A Life concordava. A matéria começava com Thereza em uma foto de página inteira, envergando, nos jardins de sua mansão de quatro andares e 20 cômodos, um lindo vestido de algodão riscado que ela mesma desenhara. Na página seguinte, ela está com um conjunto claro comprado em Capri. E com um tailleur de Paris, envolvido com sobretudo de Roma, ao lado de seu marido Didu, que posa de bigodinho fino, camisa polo e brilhantina atrás do volante de seu Jaguar.

Na quarta imagem, Thereza permite que o fotógrafo a flagre com uma camisa de botões, com colarinho alto, mas “velha”, pois comprada em Florença “há seis meses” —e provavelmente um tanto já fora de moda.

Na última página, vemos Thereza deslumbrante com luvas brancas de cetim acima do cotovelo e um longo preto da Dior (que valia 900 dólares em 1954, equivalentes hoje a US$ 8.600 ou R$ 47 mil). Sete voltas de pérolas no pescoço completavam o impressionante look.

O texto diz que o ator Bing Crosby a convidara para participar de um filme hollywoodiano, mas ela havia recusado. Elegantemente, é claro. Não teve, porém, como se furtar ao samba “Café-Society”, gravado no ano seguinte e no qual é citada intimamente apenas pelo primeiro nome. “Therezas e Dolores falam bem de mim/ Papai de black-tie jantando com Didu”, cantava Jorge Veiga.

Naquele mesmo casarão onde posara para as fotos –que ficava no alto da Mascarenhas de Moraes, em Copacabana—, o casal costumava hospedar o príncipe paquistanês Ali Khan, playboy internacional e pai de uma filha com Rita Hayworth. Em sua homenagem, Thereza promovia jantares para até 70 convidados. RSVP, é claro.

O casamento durou cerca de 25 anos, mas não resistiu a problemas de dinheiro e ao início das vendas dos bens do casal nos anos 1970. Em 1982, o filho Diduzinho saiu de uma longa noitada e arrebentou seu Passat numa curva da Lagoa. Perdeu 100% da visão direita e 90% da esquerda. A ele, coube adaptar a vida de playboy à de classe média.

Thereza se casou pela segunda vez em 1990, desta vez com João Maria de Orléans e Bragança, bisneto de dom Pedro 1º. Assim, aos 61 anos (ele tinha 73), ela se tornou a "princesa" Thereza de Orléans e Bragança.

“Mas papai e Thereza já viviam juntos antes, desde 1985”, conta o filho de dom João Maria, João Henrique de Orléans e Bragança. Após o casamento, Thereza e João viveram alternadamente no Rio de Janeiro e em Paraty, na casa que hoje pertence a João Henrique –é lá que ele recebe todos os anos os autores convidados da Flip para um almoço de confraternização.

“Minha madrasta era muito engraçada e simpática”, recorda-se ele, que tinha 36 anos quando aconteceu o casamento. “Ela tinha um senso de humor diferente, por vezes ácido.” O casal ficou junto por 20 anos, até a morte de João Maria, em 2005. Após isso, Thereza não voltaria mais a Paraty.

Nos últimos anos, Thereza de Orléans e Bragança se tornou cada vez mais reclusa, saindo cada vez menos para almoçar com as amigas da época do high society, como Lourdes Catão, outro símbolo daquela era e de quem Thereza era inseparável nos anos 1950.

Em agosto do ano passado, Diduzinho morreu e Thereza parou de atender mesmo a telefonemas, se fechando por completo. Há quatro meses, coincidentemente, foi a vez de a alta sociedade se despedir de Lourdes Catão, morta aos 93 anos, após pegar Covid-19.

Em 26 de junho, Thereza de Orléans e Bragança se sentiu mal e foi levada ao hospital por uma sobrinha. Lá morreu, horas depois. Tinha 91 anos.​

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