Interior de SP já raciona água após estiagem e alta de consumo

Há represas com níveis críticos em Sorocaba, Bauru e Votuporanga

Felipe Pereira
Campinas

Sem chuvas forte há quase cinco meses em algumas regiões e com temperaturas que chegam aos 40ºC, municípios do interior de São Paulo voltam a enfrentar problemas de abastecimento de água e até anunciaram racionamento.

Vivem racionamento cidades da região central do estado, como Bauru, do noroeste paulista, como São José do Rio Preto, Uchoa e Tabapuã, e da região de Campinas, como Santo Antônio da Posse.

Há cortes de água em Barretos e Araras, causados por problemas pontuais na captação ou distribuição.

Outras vivem o rodízio, como em Sorocaba, onde alguns bairros ficam sem fornecimento. Ourinhos também implantou rodízio, mas por prevenção pela falta de chuvas.

Represa do Ferraz, no bairro do Éden, em Sorocaba, com baixo nível de água - Foto: Bruno Santos/ Folhapress


Algumas represas estão com níveis críticos, como a de Votuporanga, que está 2,4 metros abaixo do nível normal, e a do Ferraz, em Sorocaba, com quase 1,2 metros a menos que a média.

O rodízio em Sorocaba começou no mês passado. Regiões do Cajuru, Éden, Aparecidinha e o Distrito Industrial ficam 12 horas às secas. O motivo é a baixa nas represas que atendem aquela região.

A represa do Ferraz está com 18% da capacidade. Se o nível cair abaixo de 10%, a captação é totalmente interrompida. Na régua, a altura da água chega só a 80 cm, quando o recomendado é ter dois metros. Bancos de areia já podem ser vistos à distância.

Em Bauru, os bairros abastecidos pelo rio Batalha ficam sem água desde o dia 16 de setembro. O manancial está com nível 10% menor que o mínimo recomendado. A estiagem, o calor e o alto consumo motivaram a decisão de implantar o racionamento. O fornecimento é interrompido por um dia completo, dividindo a região central das dos demais bairros.

Represa do Ferraz, no bairro do Éden, em Sorocaba, que já sofre com a estiagem - Bruno Santos/Folhapress


Em Rio Preto, o Semae (Serviço Municipal Autônomo de Água e Esgoto) estuda ampliar o racionamento (hoje, das 13h às 20h) para 180 mil moradores. "Estamos sem chuva significativa há três meses e o consumo atingindo picos de 400 litros de água por pessoa por dia", afirma Nicanor Junior, superintendente da companhia. A cidade não registrava situação parecida desde 2014.

O racionamento começou esta semana em Santo Antônio de Posse, região de Campinas. O corte acontece das 9h às 16h. O reservatório chegou a 30% da capacidade, segundo Rui Mergulhão, diretor do DAE (Departamento de Água e Esgoto). "Nos bairros elevados a água pode vir com a cor alterada, por causa do acúmulo de ferro nos canos".

Estacadas de madeira já aparecem devido ao baixo nível de água na Represa do Ferraz, no bairro do Éden em Sorocaba - Bruno Santos/Folhapress

Em Santa Lúcia, o rodízio acontece das 14h às 16h e das 22h30 à meia-noite. O consumo elevado esgota a capacidade de captação, por isso a medida.

Em Bebedouro (das 12h às 18h, e das 23h às 5 da manhã), Uchoa e Tabapuã (das 13h às 16h), a medida foi adotada pela baixa dos poços artesianos que abastecem os municípios.

Segundo o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), temperaturas acima de 40ºC foram registradas em várias cidades do Estado. Em Presidente Prudente (40,7ºC), Catanduva (40,5ºC) e São Simão (40,4ºC), nunca fez tanto calor desde 1961, quando as medições começaram.

O aumento no consumo é consequência. Em Mirassol (a 451km da capital), o índice chegou, em setembro, a 27,5 milhões de litros –cerca de 11 piscinas olímpicas cheias. A represa do rio São José dos Dourados está com menos de 30% da capacidade total.

Já a zona leste de Araras tem problemas pontuais de falta d’água. Segundo o Serviço de Água e Esgoto (Saema), a região fica distante do ponto de captação. A obra de uma rede direta, que promete resolver o problema, deve ser concluída até o final do ano.

Alguns bairros de Barretos também registram a situação, mas a prefeitura nega racionamento.

O Córrego do Onofre, que fornece água para uma das ETAs de Atibaia, secou. O Saae fez uma manobra emergencial para garantir o abastecimento aos moradores de seis bairros.

O Consórcio PCJ, responsável pelo gerenciamento das bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí, na região de Campinas, alertou no começo do ano que o Estado poderia enfrentar a mesma situação que em 2014, quando uma estiagem secou até o Sistema Cantareira.

“A diferença, este ano, é que os sistemas de São Lourenço e Igaratá mantém vazão adequada para os municípios filiados ao PCJ”, disse Francisco Lahóz, secretário executivo.

Em Votuporanga, não chove há quase quatro meses. A Represa Municipal está 2,4m abaixo do nível normal, pior nível registrado desde 1974.

As torneiras secas e a água com coloração marrom são notadas especialmente nas regiões central e norte —os demais bairros são abastecidos por poços profundos.

A empresária Jéssica Pelicioni Ferreira Galego, 29, dona de um estúdio fotográfico, faz malabarismo para conseguir higienizar e limpar o espaço após o uso.

"Aproveitamos cada manhã para higienizar nosso espaço. A água falta por volta das 13h, e volta às 20h. Nesse período sem abastecimento aproveitamos o reservatório da caixa d’água", conta.

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