Descrição de chapéu Coronavírus

Pandemia causa apagão de dados sobre qualidade das praias no país

Estados como São Paulo, Rio, Santa Catarina e Rio Grande do Norte interromperam medição em março e retomaram de forma gradual

Ribeirão Preto e Salvador

O isolamento social e a necessidade de resguardo dos servidores públicos que fazem parte de grupos de risco em razão da pandemia do novo coronavírus resultou num apagão nos dados sobre a qualidade das praias brasileiras em 2020.

Dos 17 estados do litoral brasileiro, apenas Paraíba e Sergipe mantiveram durante todo o ano a coleta e análise da balneabilidade da água das praias. Na Paraíba, foi registrada uma melhora na qualidade da maioria das praias no período de 12 meses entre 1º de novembro de 2019 e 31 de outubro de 2020. Sergipe não enviou os dados à Folha.

Na maioria dos demais estados, a coleta e análise da qualidade das águas foi interrompida em março. Em alguns casos, foi retomada total ou parcialmente a partir do mês de setembro.

Estes dados são monitorados pela Folha há cinco anos, seguindo as normas federais sobre balneabilidade. Um trecho é considerado próprio para banho se não tiver registrado mais de 1.000 coliformes fecais para cada 100 ml de água na semana de análise e nas quatro anteriores.

Para a avaliação anual, é adotado o método da Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo), que classifica as praias, a partir dos testes semanais, em boas, regulares, ruins ou péssimas. Nadar em áreas impróprias pode causar problemas de saúde, sobretudo doenças gastrointestinais ou de pele.

No estado de São Paulo, o monitoramento das praias deixou de ocorrer em 15 de março, devido às restrições impostas pela Covid-19.

Desde então, os pontos voltaram gradualmente a ser monitorados desde julho, chegando a 100% das praias monitoradas antes do início da pandemia apenas no fim de novembro deste ano, segundo a Cetesb.

O primeiro boletim completo da agência ambiental, com os 177 pontos de medição analisados, será divulgado no fim de dezembro. Isso significa mais de nove meses de interrupção dos dados completos.

Praia de Pitangueiras, no Guarujá (litoral sul de SP), que teve a aferição de qualidade da água, feita pela Cetesb, interrompida de meados de março até julho deste ano - Eduardo Anizelli/Folhapress

Claudia Lamparelli, gerente do setor de águas litorâneas da Cetesb, afirma que as medições foram suspensas temporariamente por dois motivos.

O primeiro foi a limitação das atividades presenciais dos próprios funcionários da Cetesb, sobretudo dos que fazem parte dos grupos de risco em caso de contaminação pela Covid-19, com o início da quarentena em março.

Além disso, o objetivo principal da medição da balneabilidade, que é garantir informação sobre quais praias estão próprias para banho, perdeu o sentido.

“Com a pandemia, as praias estavam fechadas e avaliamos a qualidade da água para uso dos banhistas. Se as pessoas não estão indo tomar banho, o objetivo principal, não que seja só esse, não existia”, afirma Lamparelli.

Ela afirma que esta foi a primeira vez, desde o início das medições de balneabilidade na década de 1970, que a qualidade das praias deixou de ser aferida no estado de São Paulo.

“Mesmo quando caía alguma barreira no litoral norte, o funcionário fazia a coleta, nem que fosse no dia seguinte. Quatro meses parado totalmente nunca aconteceu”, afirma.

O estado monitora 157 praias, com 177 pontos, incluindo sete no parque estadual da Ilha Anchieta, em Ubatuba.

O programa foi retomado parcialmente no fim de julho com 55 praias porque alguns municípios, principalmente da Baixada Santista, começaram a liberar atividades nas praias –ainda que sem o uso de cadeiras e guarda-sóis.

“A Baixada é onde há a maior frequência de pessoas, mais de 80% da população está lá, e mesmo em termos de população flutuante o fluxo é maior lá do que no litoral norte”, diz Lamparelli.

O total de praias subiu para 61 em setembro e 72 em outubro, até chegar a todas no fim de novembro. A suspensão das atividades ocorreu no período do inverno, quando chove menos e, historicamente, tem menos pessoas nas praias, o que significa melhor qualidade da água.

No estado do Rio de Janeiro, a medição voltou em agosto nas praias das zonas oeste e sul da capital e de Niterói. Nas demais cidades litorâneas do estado, o serviço será retomado de forma gradativa, conforme o governo.

Com isso, o serviço foi retomado em praias como as da Barra da Tijuca, Recreio, Grumari e Prainha.

Com o maior litoral dentre os estados brasileiros, a Bahia suspendeu a análise de balneabilidade das praias em março. As medições voltaram a partir de junho, apenas em Salvador e algumas praias do litoral norte.

Neste mês, voltaram a ser divulgadas a análise de balneabilidade de praias do Baixo-Sul, onde ficam as praias de Morro de São Paulo, e do sul da Bahia, incluindo Ilhéus e Itacaré.

As praias do extremo-sul do estado, onde ficam cidades como Porto Seguro, Santa Cruz Cabrália e Prado, ainda não foram retomadas. O retorno será gradativo, sempre respeitando as cinco semanas seguidas de análise que antecedem a divulgação.

Eduardo Topázio, diretor do Recursos Hídricos e Monitoramento Ambiental do Inema, órgão ambiental da Bahia, afirma que as medições foram suspensas por causa da situação de emergência de saúde pública.

Na Bahia, as análises de balneabilidade são feitas pelo Ceped (Centro de Pesquisas e Desenvolvimento), órgão ligado à Secretaria de Ciência e Tecnologia, que passou a priorizar as demandas de testes de Covid-19.

Mesmo sem dados de balneabilidade entre março e julho, há indicativos de uma possível melhora na qualidade das praias em Salvador na quarentena. Um deles foi que, pela primeira vez em 20 anos, tartarugas marinhas desovaram na praia do Farol da Barra, uma das mais movimentadas da cidade.

A desova aconteceu em julho deste ano —mês em que as medições já haviam sido retomadas na capital e a qualidade da água na região foi classificada como excelente.

No Rio Grande do Norte, o Idema (Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do Rio Grande do Norte) retomou a medição há três semanas, depois de um hiato de nove meses.

Mas, além da pandemia, o estado estava sem o serviço devido ao fim do contrato com a fundação responsável pelo monitoramento.

O último boletim completo foi o de 23 de março. As coletas já foram iniciadas, mas o boletim com a primeira classificação (feita a partir da análise de cinco semanas) deve ser publicado na sexta-feira (25).

O Idema firmou contrato com a Funcern (Fundação de Apoio à Educação e ao Desenvolvimento Tecnológico do RN), em parceria com o IFRN (instituto federal) para fazer a análise microbiológica dos sedimentos nas praias.

O grupo coleta amostras em 33 pontos na Grande Natal durante todo o ano, entre Nísia Floresta e Extremoz. Em outras praias, a coleta ocorrerá de dezembro a fevereiro. O contrato, assinado em novembro, é válido por 12 meses, com possibilidade de prorrogação, e custará R$ 385 mil ao estado.

Outros estados do Nordeste, como Maranhão, Ceará e Alagoas, também pararam as medições em março e ainda não retomaram.

Dentre os estados do Sul do país, Santa Catarina suspendeu o serviço em março, mas as coletas semanais foram retomadas em setembro, de acordo com a Gelma (Gerência de Laboratório e Medições Ambientais), do governo estadual.

Colaboraram Júlia Barbon, do Rio, Paula Sperb, de Porto Alegre, e João Valadares, do Recife

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