Descrição de chapéu
Tati Bernardi

O verdadeiro Carnaval

Comecei a me perguntar que cazzo estava fazendo ali e fui embora

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Tati Bernardi
Tati Bernardi

Escritora e roteirista de cinema e televisão, é autora de “Depois a Louca Sou Eu”. Na seção É Coisa Fina, escreve sobre livros de até 200 páginas.

Quando eu tinha uns 10 anos, meu pai me levou para pular Carnaval no clube do Corinthians. Minha mãe me arrumou de um jeito que eu não sabia se era um marinheiro gay, uma melindrosa depois de um assalto ou um palhaço mendigo e me deu um saco de confetes e serpentinas.

Meu pai ficou sentado me olhando e falou: “Pode ir”. E eu perguntei “onde, pelo amor de Deus?”. “Ué, minha filha, pular Carnaval.” “Sozinha?” “Eu odeio Carnaval, sua mãe que mandou eu te trazer.” E saí pulando feito uma sonsa.

Vi uma turminha desconhecida se tacando confetes e serpentinas e pensei “ah, isso deve ser Carnaval”, então fui lá tacar confetes e serpentinas neles também, que devem ter pensado “quem é essa mongoloide que fica jogando coisa na gente?”. Aí eu pedi pra ir embora.

Quando eu tinha uns 14 anos, minha amiga Daniela me convidou para passar o Carnaval na praia de Riviera, e eu beijei tanto, mas tanto (e tinha uma moda, na época, de os meninos ficarem meio mordiscando nossos lábios), que minha boca inchou e eu pensei “nossa, eu gosto demais de Carnaval, nossa, como eu amo Carnaval!”.

Mas o que mais me marcou naquela viagem é que a Daniela, que era muito metida e muito rica, vivia com freada de cocô na calcinha. Eu notava porque nós duas tomávamos banho juntas, íamos sempre ao banheiro juntas, éramos grudadas. Depois contei isso pra minha mãe e jamais vou esquecer quando ela disse que gente muito rica não ensina o filho a limpar a própria bunda.

Com uns 16 anos, fui pular Carnaval com a minha amiga Marina, que era sócia do clube Banespa. Junto com a gente, foram as vizinhas ciumentas dela, que inventaram que eu era uma baita de uma falsa, sem noção, e estava apenas “usando” a Marina. Porque se eu fosse mesmo parceirona teria ficado com ela durante toda aquela tarde carnavalesca, e não me atracado com o moço mais bonito do baile.

Marina ficou uns anos sem falar comigo. O que ela e as suas amigas do prédio não sabiam é que eu beijei o cara por dez segundos e passei o resto do tempo fugindo do desgraçado, desesperada. Ele fedia demais. Devia ter uma espécie de animal em decomposição no lugar da axila. E ainda tinha bafo. O sujeito emanava um misto de azedo e podre. Olha, mais de 25 anos depois, eu ainda lembro da fedentina desse rapaz.

Aos 22 anos, um casinho amoroso me largou pouco antes do Carnaval. E aos 23 anos também. E de novo aos 24. Aos 25, idem. Então, fui garrando ódio mortal de Carnaval. Dos 26 aos 31, tive síndrome do pânico e passava mal só de ver aquela multidão pela televisão: “Como eles fazem pra pular bêbados, nesse calor, e não terem uma síncope vasovagal?”.

Aos 32 anos, passei o Carnaval com a minha amiga Priscila. Que saudade, amiga. Sonho com você toda semana, sempre linda e feliz, daquele jeito tímida e gente fina demais. Priscila me deu coragem pra tantas viagens e festas e tumultos. Eu passava mal, e ela ficava impaciente.

Às vezes lembro disso meio chateada, querendo que ela estivesse viva pra gente conversar. Mas se ela não ficasse me chamando de fresca talvez eu não tivesse feito metade das coisas que fiz dos 18 aos 33 anos.

Aos 34, deixei de viajar com um namorado pra pular Carnaval em São Paulo —de tanto a esquerda festiva me perturbar que ia ser inesquecível e eu guardaria aquela experiência pra sempre no coração— e dez minutos depois de chegar lá (toda montada e com purpurina até no ânus) passei mal de pressão baixa e hipoglicemia e claustrofobia e dor na lombar e comecei a me perguntar que cazzo estava fazendo ali e fui embora.

Liguei para o meu namorado, mas ele não atendeu. E não me atendeu por muitos dias. Depois, quando apareceu, a gente ficou numa boa, e hoje até somos casados e temos uma filha. Ano retrasado ele foi pro Rio, pra fazer uma tal de reunião que nunca me passou direito pela goela, e ficou “um dia a mais” pra ver os amigos e, talvez, assim, só por ser “interessante ao olhar de um diretor de cinema” ver de perto o Carnaval.

Eu não gosto de Carnaval. Nunca gostei. (Quer dizer, quando tinha quinze anos e passei o rodo até ficar com a boca inchada acho que gostei.) Não gosto de aglomerações, nem de ficar em pé por muito tempo, nem de calor, e eu não bebo e não me drogo (apenas com coisas piores, que são vendidas em farmácias).

Aff, que bom poder finalmente ser velha, dizer que não gosto e fim de papo. Sei lá, quer transar, vamos ligar o ar-condicionado numa casa vazia com bons travesseiros, né? Mas, quando for possível, minha amiga Maria de Médicis (que acorda às cinco da manhã pra se arrumar para os bloquinhos) disse que vai me apresentar “o verdadeiro Carnaval”.

Ai, Maria, prefiro aprovar aquele nosso seriado pra TV.

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