Drinques populares entre jovens da periferia aquecem comércios locais na pandemia

Venda de bebidas como Chevette tem sido aposta de adegas; consumo em excesso traz riscos à saúde

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Lucas Veloso
São Paulo | Agência Mural

Elio Santa Cruz, 34, abriu uma adega há cerca de nove meses em Itaquera, na zona leste de São Paulo. Na porta do espaço, um cartaz indica que ele serve uma bebida que se tornou sensação na região e em várias periferias de São Paulo: o Chevette.

Quem compra o drinque sai com um coquetel alcoólico de limão, refresco em pó sabor baunilha e gelo de água de coco em um copo plástico de 700 ml.

Para Santa Cruz, as bebidas consumidas pelos jovens têm garantido a saúde financeira nesses tempos de pandemia. Segundo ele, são cerca de 160 bebidas a cada fim de semana, sendo que há dias com mais de 100 drinques vendidos.

“Se não fossem essas bebidas famosas dos jovens, não estaria aqui mais. O Chevette mesmo custa R$ 10 e bomba.”

Assim como ele, vários outros comerciantes de bares e adegas encontraram nessas bebidas a solução para a renda durante a pandemia de Covid-19.

Na zona sul, jovens compram bebidas populares em adegas
Na zona sul, os dançarinos Lucas Martins (à esq) e Guilherme Mendes de Oliveira compram bebidas populares em adegas - Léu Britto/Agência Mural

Proprietário de um comércio de bebidas na favela de Paraisópolis, na zona sul, Rodrigo Leal dos Santos 32, também tem garantido o sustento com essas bebidas adocicadas.

Ele acrescenta o aumento do consumo de outras, como caipirinha com sorvete, bebidas, vodca com gelo e suco, além de uísque com energético, que nas últimas semanas tem sido o mais vendido por lá.

“O motivo de serem populares é que são baratas. Por outro lado, o energético não é tão barato, mas depende da qualidade que você quer tomar. A caipirinha, por exemplo, fica em torno de R$ 10 a R$ 25”, cita.

Apesar da quantidade de bebidas vendidas, Santos diz que não faturou mais dinheiro nos últimos meses porque fechou o comércio por algumas semanas devido à quarentena. "Respeitei de fato, agora os comércios que ficaram abertos tiveram um faturamento maior, sim.”

Segundo Santos, nas primeiras semanas da pandemia no ano passado, os jovens se concentravam em algumas casas para consumir as bebidas, mas no decorrer dos meses, os cuidados ficaram menores.

Ruas e praças voltaram a lotar, sobretudo nos fins de semana, dias em que ocorrem festas e aglomerações, apesar da necessidade de distanciamento social.

No Capão Redondo, zona sul, comerciantes da região vendem 'Chevette' e 'Brasília' nas festas
No Capão Redondo, zona sul, comerciantes da região vendem 'Chevette' e 'Brasília' nas festas - Léu Britto/Agência Mural

Entre os clientes, o preço e o sabor são os fatores mais mencionados para explicar o sucesso dos drinques. Moradores da Cohab Adventista, no Capão Redondo, os dançarinos Guilherme Mendes de Oliveira, 21, e Lucas Martins, 22, gostam do Chevette e da Brasília (receita parecida, mas com o sabor maracujá).

Os nomes das bebidas remetem aos carros fabricados nos anos 1970 e que já foram populares nas periferias.

“A gente é da quebrada da sul e sempre vimos a galera no centro da cidade postando algumas coisas. E demorou pra chegar aqui, mas quando chegou viciei porque é barato, né”, conta Lucas. “R$ 7 num copo de 700 ml está da hora.”

Para o amigo Guilherme, o preço baixo é o que incentiva o uso. O dançarino conheceu as bebidas em bailes como o de Paraisópolis. Comenta que o valor permite comprar cerca de três ou quatro copos por noite.

Guilherme Mendes de Oliveira diz que gosta das bebidas porque são baratas
Guilherme Mendes de Oliveira diz que gosta das bebidas porque são baratas - Léu Britto/Agência Mural

Em Guaianases, na zona leste, a assistente administrativa Daiane Almeida, 25, diz que prefere bebidas com sabores doces e com preços populares. “Aposto nas caipirinhas porque são doces, né? Chevette e Brasília não podem faltar também.”

Moradora do Grajaú, zona sul da capital, a jornalista e professora Fernanda Souza, 26, diz que o Chevette ganhou força por ser refrescante, gostoso e acessível –é possível comprar nas adegas o kit, que custa de R$ 6 a R$ 10, inclusive com o copo.

A professora diz que, nas periferias, há um paradoxo. Do ponto de vista do comércio local, o consumo das bebidas ajuda a economia dos bairros.

Já o excesso de álcool pode causar problemas de saúde pública. “A bebida é uma forma de escape, pode ser uma arma potente. Temos casos de abusos contra mulheres, por exemplo, de homens que bebem e se tornam agressivos.”

Lucas Martins vive no Capão Redondo e é dançarino
Lucas Martins vive no Capão Redondo e é dançarino - Léu Britto/Agência Mural

A cardiologista infantil e médica do exercício e esporte Silvana Vertematti diz que o consumo de bebidas alcoólicas, principalmente em excesso, pode acarretar repercussões em diferentes partes do organismo.

“Em relação aos jovens, há uma maior dificuldade em respeitar os limites toleráveis de ingestão e, com isso, aumentam as chances de consequências, por exemplo, no sistema nervoso central e no sistema gastrointestinal”, observa.

A especialista lembra que o álcool tem relação com doenças psiquiátricas e que o próprio alcoolismo é uma delas.

Ela comenta que é difícil dizer que há bebidas alcoólicas mais prejudiciais do que outras, mas existem situações de consumo mais grave, como a associação de álcool com energéticos, que podem resultar em arritmias. No verão, a maior ingestão de álcool também traz riscos de desidratação.

Integrante da Associação Brasileira de Psiquiatria, a especialista em psicologia clínica Aline Machado Oliveira lembra que o excesso pode causar o comprometimento de funções cerebrais, como a memória ou a fala, ou ainda o desenvolvimento da demência alcoólica, além dos riscos à fertilidade masculina e feminina.

“O alcoolismo pode complicar quadros de depressão, ansiedade, insônia, esquizofrenia, transtorno do humor bipolar e transtornos de personalidade.”

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