Descrição de chapéu Solidariedade

Catador constrói casas e mantém pré-escola em Olinda

Mesmo com queda de doações durante a pandemia, pernambucano continua o trabalho

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Jorge Cosme
Recife

Com o pouco dinheiro que consegue do trabalho com o lixo, o catador de recicláveis Sebastião Duque,66, mantém uma escola para crianças carentes do bairro de Rio Doce, em Olinda (PE). O nome Nova Esperança não poderia ser mais apropriado. Em uma área de famílias de baixa renda, muitas delas vivendo em barracos de madeira e em ruas de terra, a escola Nova Esperança atende 40 crianças de dois a seis anos de idade.

A estrutura é simples, com duas turmas e duas professoras. Para evitar a transmissão da Covid-19, foi preciso diminuir a quantidade de alunos na instituição, que já chegou a cem matriculados divididos em quatro turmas. Antes da pandemia, também havia aulas de capoeira e judô.

Chamada de ajuda de custo, a mensalidade é de R$ 40, paga diretamente às professoras. “Eu não tiro um centavo das crianças. Essa taxa é das professoras. E tudo da escola é comigo. Lanche, copo descartável, caderno, massa de modelar, água, luz. Tudo sou eu que pago”, afirma Duque.

Para a professora Jacqueline Cavalcanti, que dá aula no local há 10 anos, a escola tem papel fundamental na comunidade. “A prefeitura só começa a receber crianças a partir de seis anos, e aqui a gente já aceita com dois. Elas vão tendo essa convivência, aprendendo o que é uma escola, como se comportar, começam a reconhecer as letras nas ruas.”

Natural de Água Branca (PB), o catador conta que estudou pouco. Aos quatro anos, já era órfão de pai e mãe e, desde cedo, começou a trabalhar na roça. A decisão de ajudar o próximo veio em 1988, quando já vivia em Recife. Duque havia sido esfaqueado e estava internado. Naquela época, vivia de bicos, mas era mais conhecido por se fantasiar de palhaço e vender raspadinha na praia. “Eu fiz uma promessa que se minha vida tivesse continuidade iria ajudar as pessoas”, lembra.

Em 2014, quando uma idosa perdeu o barraco de madeira levado pela chuva, Duque também passou a construir casas para a comunidade. Ele bateu de porta em porta pedindo tijolo e materiais de construção para ajudá-la. Deu certo, e o projeto continuou. Hoje, ele calcula ter ajudado a levantar mais de 30 casas, seja realizando toda a construção ou doando parte dos materiais.

Duque ainda faz muletas, conserta cadeiras de rodas, entrega comida, roupas e brinquedos quando recebe doações. Ele não aceita ser pago por nenhuma dessas ações. Também se recusa a receber doações em dinheiro. Quando insistem, pede que o valor seja entregue em materiais de construção.

“As pessoas pensam que eu faço alguma coisa, mas eu não faço. Quem faz somos nós. Todo mundo compartilhando, chegando junto, dando uma mão, a gente se torna maior”, afirma, ressaltando a colaboração do grupo de voluntários que o ajuda.

Com a pandemia, Duque diz que o número de doações diminuiu, mas isso não impediu que ele continuasse seu trabalho. A próxima casa que está levantando deve ficar pronta em dezembro. “Até o final da vida, o que eu quero é mais um amigo perto de mim. Enquanto eu puder, e o povo me ajudar, todo ano vou entregar uma moradia para quem precisa”, afirma. Interessados em fazer doações devem telefonar para (81) 98776-1023 e falar com o próprio Sebastião Duque.

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