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'Ratos fizeram ninhada debaixo da cama das crianças', diz moradora de favela sem saneamento em SP

Sem tratamento de água e esgoto, periferia da capital paulista fica exposta a riscos além da Covid

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Ariane Costa Gomes Lucas Veloso Jessica Bernardo
São Paulo e Osasco (SP) | Agência Mural

Desempregada, Fernanda Cristina, 37, vive ao lado de um esgoto a céu aberto. Por ali, o mau cheiro e a presença de insetos é inevitável, tanto pela sujeira gerada pelos moradores como pelo mato alto e pela ausência de limpeza pública.

“Aqui tem muito inseto. Uma vez entraram ratos aqui e fizeram ninhada debaixo da cama das crianças”, relata.

Fernanda Cristina na frente de sua casa, ao lado do esgoto a céu aberto na favela do Pullman, em São Paulo
Fernanda Cristina na frente de sua casa, ao lado do esgoto a céu aberto na favela do Pullman, em São Paulo - Léu Britto/Agência Mural

Ela e sua família moram na favela do Pullman, na região do Campo Limpo, na zona sul de São Paulo. Foram para o local no ano passado, após ficarem sem condições de pagar o aluguel depois que o marido perdeu o emprego.

O barraco onde moram foi comprado por eles. A falta de alternativa os mantém ali, apesar da exposição diária a doenças devido à ausência de saneamento básico. É um risco extra em meio à pandemia de Covid-19.

Afetados pela falta de renda, famílias formaram novas favelas na cidade, o que ocasionou novas áreas sem atendimento. Reivindicar melhorias, como acesso à água e esgoto, é mais complicado para uma população que tem tido dificuldades inclusive para conseguir comida em meio à alta de preços.

A ausência da coleta de esgoto torna o ambiente propício para a proliferação de doenças, como a transmitida por ratos (leptospirose) ou por caramujo (esquistossomose), e outras relacionadas a insetos como o mosquito Aedes Aegypti, causador da dengue, zika e chikungunya e também da febre amarela —que podem ser fatais.

Garçom e líder da Associação Comunidade do Pullman, Cristiano Vicente Silva, 40, confirma o problema. “Tivemos dois casos, muito graves, provenientes da má qualidade da água e do esgoto a céu aberto.”

Por ali, meninos e meninas de barrigas inchadas e com feridas pelo corpo são comuns. Segundo Cristiano, uma criança passou cerca de 47 dias internada porque ingeriu água não tratada e vivia perto de um esgoto.

O líder comunitário diz que as crianças são as mais afetadas, porque dependem de cuidados, e também as mais suscetíveis a entrar na água suja.

Segundo o microbiologista Sidcley Lyra, quando se fala de saneamento básico, muitas pessoas pensam apenas em esgoto, mas coleta e tratamento do lixo e dos resíduos sólidos também faz parte do pacote.

“As áreas que não possuem um sistema de coleta de lixo regular ou regiões próximas a lixões estão sujeitas a maiores incidência de casos de arboviroses”, diz.

Aqui tem muito inseto. Uma vez entraram ratos aqui e fizeram ninhada debaixo da cama das crianças

Fernanda Cristina

moradora da favela do Pullman

Segundo o Painel Saneamento Brasil, plataforma do Instituto Trata Brasil que apresenta os principais indicadores socioeconômicos e ambientais do país, quase 35 milhões de brasileiros vivem sem acesso ao atendimento de água, enquanto 47,6% da população não tem acesso à coleta de esgoto, o que representa quase 100 milhões de pessoas.

Em relação ao tratamento, apenas 45% de todo o volume de esgoto é tratado. Além disso, cerca de 5.600 piscinas olímpicas de esgoto são jogadas diariamente na natureza.

Entre as principais consequências do despejo irregular estão os riscos de contágio às doenças por veiculação hídrica, que atingem direta e indiretamente a população, indica a plataforma.

Para o coordenador de comunicação do Instituto Trata Brasil, Rubens Filho, é necessário analisar cada caso de local onde o saneamento não chega. Mas diz também que, em lugares de proteção ambiental, há decisões do Judiciário que proíbem as famílias de terem serviços públicos.

É o caso do distrito de Marsilac, no extremo sul da cidade, onde menos de 1% da população tem rede de esgoto. Por ali, no bairro do Jardim Emburá, os moradores utilizam poços e uma mina como fonte de abastecimento de água –além de conviverem com esgoto a céu aberto e terem fossas instaladas nas casas.

Em 2017, a Agência Mural mostrou que o bairro registrou um surto de diarreia. Análises feitas pela Secretaria Municipal de Saúde à época apontaram que a água coletada pelos moradores da região era imprópria para o consumo e tinha altos índices da bactéria Escherichia coli —sua presença, segundo especialistas, é um forte indicador de contaminação por esgoto.

A falta de água encanada se torna um problema ainda maior nos meses de outono e inverno.

O comerciante Alex Souza Amaral, 37, que mora no Jardim Emburá, conta que precisa racionar o uso de água para evitar o desabastecimento completo. “Principalmente neste período de estiagem, fica todo mundo sem água. É difícil acreditar que a gente ainda tá na capital, em uma cidade rica como São Paulo”.

De acordo com os números oficiais do SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento), de 2014 a 2019, não houve aumento da população atendida com coleta de esgoto na capital paulista. Em 2014, 96,1% da população era atendida. Em 2019, subiu para 96,3%.

Áreas irregulares não entram nessas estatísticas.

Em 2019, o SUS (Sistema Único de Saúde) registrou mais de 270 mil internações por doenças de veiculação hídrica no país, sendo 3.900 na cidade de São Paulo. No mesmo período, 75 mortes foram registradas na capital por doenças provenientes da falta de acesso ao saneamento básico.

O especialista Rubens Filho diz que é necessário prioridade na expansão dos serviços e que isso não pode ser apenas uma prática da empresa operadora dos serviços, a Sabesp, no município de São Paulo.

Sancionado em julho passado, o novo marco legal do saneamento prevê expandir os serviços de saneamento básico no Brasil até 2033. O plano promete que 99% da população brasileira seja atendida com rede de água e 90% com coleta e tratamento dos esgotos. Especialistas dizem que a meta não será cumprida.

Para o Instituto Trata Brasil, a iniciativa é uma tentativa de acelerar a expansão dos serviços justamente onde não existem, como as periferias.

Para Rubens Filho, “sendo público ou privado, o novo marco legal do saneamento exige mais eficiência do setor, impõe novas regras, constitui metas e obriga os municípios a planejarem com mais incisão.”

No entanto, críticos do marco apontam riscos de tarifação desse tipo de serviço em áreas onde as famílias já sofrem com a falta de renda, tendo em vista os interesses das empresas que farão esse tipo de atendimento.

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