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Aulas de programação e robótica entram para o currículo de escolas em São Paulo

De olho no mercado de trabalho, colégios transformam letramento digital em disciplinas

Dante Ferrasoli
São Paulo

Há quem aposte que, num futuro nem tão distante, o mercado de trabalho será transformado pela tecnologia e as melhores oportunidades serão daqueles que souberem como programar máquinas e robôs.

Pensando nisso, escolas de São Paulo começaram a ensinar programação aos seus alunos desde cedo. 
O Stance Dual, escola bilíngue na Bela Vista (centro), ministra a disciplina a partir do quarto ano do ensino fundamental, quando os estudantes têm entre 8 e 9 anos.

"Queremos um aluno mais autônomo, alguém que crie coisas e não apenas as reproduza. Que seja produtor de tecnologia, e não só usuário dela", afirma Juliana Caetano, coordenadora de tecnologia da instituição.

Menina sentada em mesa mexe em notebook
Gabriela Schonenberg, 14, aluna do nono ano no Stance Dual, em São Paulo, trabalha no seu projeto de farol de trânsito - Bruno Santos/Folhapress

Na escola, que implementou aulas de programação em 2015, os estudantes são obrigados a cursar a matéria. É algo curricular, não eletivo. As aulas acontecem uma vez por semana, durante 40 minutos.

Gabriela Schonenberg, 14, está no nono ano do Stance e tem programação no currículo escolar desde o sexto, quando tinha 11 anos. 

"Eu acho que essa aula me possibilita muitas oportunidades. Quero fazer medicina, área em que já há várias coisas feitas por robôs, que são mais precisos que os humanos", diz ela. 

Atualmente, o projeto na disciplina, que é feito de forma individual pelos alunos, é a programação de um protótipo de farol de trânsito, conta Gabriela.

No colégio Móbile, na Vila Uberabinha (zona sul), as crianças que estudam em período integral têm contato com a programação desde os 11 anos, dentro de uma disciplina chamada letramento digital —que também envolve outros temas, como ética e cidadania online, e é obrigatória.

"O mercado de trabalho do século 21 exige um aluno digitalmente letrado", diz Julio Ribeiro, coordenador de tecnologia educacional da escola.

Ele enfatiza, entretanto, que o objetivo não é apenas formar alguém que saiba lidar com códigos e números.

"A gente não quer programadores. O currículo passa por programação, mas nosso objetivo é maior. É formar um aluno criativo, questionador e com o pensamento critico", afirma Ribeiro.

O Móbile tem letramento digital no currículo há um ano e meio e as aulas são interdisciplinares —ou seja, são usados elementos da matéria em outras disciplinas, como ciências e matemática, e portanto não há uma carga horária semanal fixa.

Lara di Pietro, 11, aluna do sexto ano da escola, gosta de direito e de literatura, mas ainda não sabe o que vai fazer na faculdade. Mesmo assim, acha que, independentemente da profissão escolhida, a programação pode auxiliar. 

"A gente mexe com plataformas, aplicativos e jogos. É uma coisa divertida de fazer e que pode ajudar no futuro, porque há vários empregos que usam isso", diz.

No colégio Ítaca, no Morumbi (zona oeste), a proposta é semelhante à do Mobile Integral: a programação está inserida numa matéria mais ampla, que também aborda o conceito de cidadania online, chamada caminhos digitais.

O projeto, que começou neste semestre, é para alunos a partir do quarto ano. 

"Os estudantes são inseridos cada vez mais precocemente na tecnologia, e sem muita orientação. O Ítaca aderiu à ideia de começar a dar fundamentação a eles desde cedo, aos nove anos, que é quando começam a usar o celular", diz Edu Mancebo, professor de caminhos digitais da escola. 

Sobre a parte de programação em si da disciplina, Mancebo conta que os alunos aprendem o funcionamento dos programas e aplicativos que usam no dia a dia.

"Lidar com os aparelhos para eles já é ok, o mais legal é fazer que eles entendam os princípios e as lógicas que há por trás do que eles veem", diz. 

No Ítaca, a disciplina é ministrada uma vez por semana, em aula de 45 minutos.

Já no Lourenço Castanho, na Vila Nova Conceição (zona sul), o conteúdo não é obrigatório, mas existe em duas matérias eletivas, uma de programação em si e outra que usa os temas em aulas de robótica, disponíveis a partir do sexto ano. Ambas são semanais e duram uma hora e quarenta minutos.

"A escola tem o princípio de criar alunos produtores em vez de consumidores, que pensem 'por que comprar se posso fazer o meu?'", afirma Rodrigo Lemonica, professor de tecnologia educacional no Lourenço. Há programação nas eletivas da escola desde 2012. 

Nas aulas, os estudantes começam desenvolvendo jogos simples e, quando ficam mais velhos, fazem artefatos eletrônicos.

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