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Mulheres levam mais tempo e ganham menos para dirigir escolas

Levantamento da Folha indica que há menos delas nas faixas mais jovens e mais bem pagas

Amanda Lüder Marina Gama Cubas

Mulheres levam mais tempo na carreira para chegar à direção de escolas públicas brasileiras e, quando o fazem, recebem menos, mostra levantamento da Folha a partir de dados da Prova Brasil 2017. A discrepância chama atenção porque elas são 4 em cada 5 professores da educação básica no Brasil.

A Prova Brasil foi obrigatória para as escolas públicas. No questionário, diretores de todo país declaram seu gênero, idade e faixa salarial.

Segundo os dados, 35% dos homens diretores tinham menos de 40 anos ao responderem o questionário. Entre as mulheres, eram 23%. Só a partir dos 40 anos elas passam a ser majoritárias entre dirigentes de escolas públicas.

Uma hipótese para a desaceleração na carreira das mulheres é o que os economistas chamam de ônus ou penalidade da maternidade —a mulher troca ou adia especializações e promoções para assumir a maior parte das atividades envolvidas em criar filhos.

Na falta de políticas que mitiguem esse ônus, a pena, segundo estudos em centros de pesquisa nos EUA e na Europa, não recai sobre os homens, mas a percepção sobre futuros filhos afeta também a carreira de mulheres que não os têm.

Íres Falcade, 51, do Centro Estadual de Educação Básica para Jovens e Adultos Dr. Mário Faraco, em Curitiba, foi eleita diretora adjunta aos 44. Ela leciona desde os 18. 

"Já tinha pensado em ser diretora, mas, como tinha filhos pequenos, acabei não aceitando. A gente sabe que a direção toma tempo, tem muita coisa fora do horário, e acabei deixando para depois." Ela, que é mãe de quatro, assumiu a direção quando o filho mais novo completou 13 anos. 

Francis Ribeiro, 36, integra há dez anos a diretoria do Colégio Estadual João Gueno, em Colombo, região de Curitiba. Entrou na escola como professor de matemática aos 23, virou diretor adjunto aos 26 e, aos 32, foi eleito diretor pela comunidade escolar. 

"A comunidade vê a figura do professor no cargo de direção como o pai é visto em casa. Situações de chamar atenção e orientar acabam sendo vistas como responsabilidades masculinas", diz Francis, que teve o primeiro filho aos 19.

É nessa faixa etária —de 30 a 39 anos— que está a maior disparidade. Enquanto 31% do total de diretores homens estão nessa faixa, apenas 21% das mulheres diretoras estão. 

Nesse estrato ficam 32% das mulheres que tiveram filhos, segundo dados do DataSUS de 2017 —o segundo mais expressivo, sendo o primeiro aquele de mulheres com até 24 anos. 

A pesquisadora em gestão escolar da PUC-RJ Cynthia Paes de Carvalho diz que professoras jovens com filhos têm a progressão na carreira retardada. "O homem não tem essa questão, o que explica a chegada mais rápida à diretoria."

Programas de incentivo são raros. Nos EUA, a iniciativa Liderança de Mulheres em Escolas, criada em 2015, promove fóruns, orienta aspirantes a líderes e incentiva mulheres em escolas, além de promover troca de experiências.

No Brasil, a Universidade Federal Fluminense lançou neste ano uma iniciativa pioneira. Para equilibrar a concorrência por bolsas de iniciação científica, mulheres com filhos de até dois anos tiveram acréscimo de cinco pontos na nota da prova para compensar o período de afastamento.

 

É difícil, porém, criar uma fórmula transversal. Não há uniformidade nacional para a escolha do diretor; cada rede de ensino estadual ou municipal segue seus critérios. 

Na maioria delas, o professor entra por concurso e vira diretor em processo seletivo, eleição, indicação política ou processo misto. Nesses casos, recebe o salário de professor e um adicional de função gratificada.

Nos diversos recortes feitos pela reportagem, os homens parecem conseguir, proporcionalmente, melhores condições na carreira. Mas, em números absolutos, as mulheres dominam todas faixas, pois são 76,8% dos diretores.

A ascensão mais rápida fica evidente quando se observa o tempo que homens e mulheres passaram como professores até se tornarem diretores.

Dois em cada três diretores homens (67%) passaram menos de 15 anos lecionando. Entre as diretoras, 58% passaram menos de 15 anos em sala.

Além disso, mulheres tenderiam a um maior vínculo afetivo com a docência.

"Elas fazem uma ponte de passar pela coordenação pedagógica ou direção adjunta antes da direção. Homens tendem a ir direto da sala para a diretoria", afirma a pesquisadora em gestão escolar Ana Cristina Prado Oliveira, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Unirio.

Foi o caso de Milena Liz Roccia, 47, diretora no Centro de Educação Infantil Jardim Peri, da rede municipal de São Paulo. Tornou-se diretora há dois anos, após trabalhar como professora e coordenadora. 
"O diretor se distancia da sala, tem que cuidar de contas, de servidores. Como coordenadora estava mais próxima de questões pedagógicas."

Em São Paulo, as redes estadual e municipal promovem concurso público para o cargo. Na estadual, exige-se o mínimo de cinco anos na docência; na municipal, são três, e, no momento em que presta o concurso, o candidato deve estar atuando na rede. 

Nesses casos, o diretor tem salário próprio, e não um adicional ao de professor.

No Rio, Fátima Lima atuou por mais de duas décadas como diretora adjunta e diretora geral na Escola Municipal Aracy Muniz Freire. 

Fez três pós-graduações. "Era sempre de noite ou aos sábados. Além disso, tinha família, meus filhos e as atividades de que eu participava."

DIRETORES

Diretores homens sobressaem na remuneração, segundo os dados da Prova Brasil. 

Entre eles, 42% estão nas três maiores faixas salariais (acima de R$ 4.685). No caso das mulheres, são 35%. A faixa salarial mais alta do questionário (mais de R$ 9.370) contempla 5,6% dos diretores homens e 2,5% das mulheres. 

A maior disparidade é nas redes estaduais. Em Goiás, a faixa mais alta contempla 9,3% dos homens e 0,7% das mulheres. No Mato Grosso do Sul, são 25,6% dos homens e 13,5% das mulheres. No Distrito Federal, 53,8% dos diretores homens e 41,1% das mulheres, segundo a Prova Brasil. 

Na rede estadual de São Paulo, a remuneração de homens e mulheres não tinha discrepâncias significativas em 2017. A exceção está na faixa mais alta, que abrange 6,1% dos homens e 3,7% das mulheres.

Os salários variam de acordo com o tempo de atuação na rede de ensino e com as especializações, como cursos, pós-graduação e mestrado. 

Não há critério nacional. Fátima, da rede municipal do Rio, não teve acréscimo salarial com suas três pós-graduações. Para Francis, da rede estadual do Paraná, a pós em gestão escolar subiu o salário.

"Isso abre precedentes complicados. Às vezes, falta exigir experiência do diretor na escola", diz Ana Cristina, da Unirio. "Fica para cada estado definir sua forma de escolher o diretor, e essa política é determinante no perfil de diretor que se vai ter."

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