Professora mais antiga dá aulas de educação física há 41 anos na rede estadual de SP

Angela Vasconcelos acompanha gerações de alunos em colégio da capital; há dez anos, introduziu aulas de rúgbi

Angela Pinho
São Paulo

João Paulo 2º foi escolhido papa, e João Baptista Figueiredo, o último presidente da ditadura militar. Na cultura, a canção "Cálice" fazia sucesso na voz de Chico Buarque e Milton Nascimento, e o mundo assistia ao jovem ator John Travolta no musical "Grease". Nesse mesmo ano de 1978, no interior de São Paulo, Angela Machado de Vasconcelos começava sua carreira em um colégio da rede estadual paulista.

Desde então o mundo mudou, o Brasil também, e a sala de aula definitivamente não é a mesma. Angela, contudo, segue na profissão. Aos 71 anos, 41 de carreira, é a professora mais antiga em atividade na rede estadual paulista. E de uma matéria que exige disposição: educação física.

Angela Machado de Vasconcelos, a professora há mais tempo em atuação na rede estadual paulista
Angela Machado de Vasconcelos, a professora há mais tempo em atuação na rede estadual paulista - Bruno Santos/Folhapress

Angela poderia ter se aposentado há mais de duas décadas, mas preferiu continuar na Escola Estadual Daniel Paulo Verano Pontes, no Rio Pequeno (zona oeste de São Paulo), onde atua há 33 anos.

Por quê? Difícil explicar. Antes do magistério, chegou a fazer um curso de medicina, mas desistiu depois de dois anos. “Eu gostava, mas não me preenchia. Sempre quis dar aula”, diz.

Por isso também nunca quis ser diretora ou coordenadora de escola. “A gente aprende muito no convívio com as crianças”, afirma.

Entre as suas crianças, está a atual professora de inglês da escola. A de português é mãe de dois ex-alunos.

As histórias de muitas das crianças que dividiram o espaço da escola com ela ainda estão frescas na sua memória.

“Sempre procurei levar os alunos para competições, é importante para mostrar outras realidades”, diz. “Uma vez, fui com um menino para a final estadual de atletismo. Ele tinha 15 anos e não conhecia o metrô”, lembra. 

Teve outro, bom aluno, que conseguiu uma bolsa em uma escola particular. “Cheguei cedo para dar aula e ele estava me esperando, porque não tinha dinheiro para a passagem de ônibus”. Ela comprou o bilhete.

Os que mais gostavam da aula costumavam ficar até fora do período com ela para treinar.

O esforço, avalia, valeu a pena. “O esporte dá uma visão para os estudantes de que é importante correr atrás. Muitos viraram professores de educação física, ou seguiram outras carreiras, fizeram faculdade. Isso é muito gratificante, porque sei que tem um dedinho meu.”

Há dez anos, Angela foi viajar e viu uma bola de rúgbi: comprou e incluiu nas aulas. Trabalhar com outras modalidades sempre foi uma meta sua. Futebol, hoje, ela dá porque está no currículo. “O futebol exclui as pessoas. Nos outros, todo mundo está em pé de igualdade, ninguém é o bonzão.”

Apesar das boas lembranças, Angela reconhece que muita coisa mudou —no caso da indisciplina, para pior.

“Já vi aluno ganhar todo um kit para estudar e jogar na rua. Eu sou do tempo em que falavam: ‘Cuidado com esse lápis, tem que durar, se mastigar a ponta vai ficar sem’”, diz.

A relação com as famílias também é outra. “Se a gente falasse que ia chamar os pais, as crianças morriam de medo. Hoje [a criança] balança o ombro ou até mesmo fala: ‘Minha mãe vai vir aqui e você vai ver’.”

Angela ressalta que, evidentemente, nem todos são assim, e que ainda há muitos estudantes interessados.

Ela acha também que a carreira deveria ser mais valorizada. “Tenho um colega jovem no qual me vejo muito. Ele é dinâmico, gosta do que faz e tem o dom. Tem que ser incentivado a ficar.”

A preocupação com o futuro tem razão de ser. Este deve ser o último ano de Angela na rede estadual paulista, porque sua escola adotará o tempo integral. Ela é a favor da ampliação da jornada, mas, para ficar, teria que deixar seu outro emprego, de instrutora de musculação de idosos no Ginásio do Ibirapuera.

Parar de trabalhar, no entanto, é algo em que ela nem pensa. “Diminuir tudo bem, mas ficar sem dar aula não consigo. É algo que te puxa.”


DADOS DA REDE ESTADUAL PAULISTA

190 mil é o número de professores da rede estadual de SP

72% são mulheres

45 anos é a idade média delas; 46 a dos professores do sexo masculino

23 anos é a idade do professor mais jovem

954 professores da rede estadual atuam em unidades da Fundação Casa

1.102 lecionam em unidades educacionais em presídios

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