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Caetano Scannavino

Amazônia: esse debate tá errado, certo?

Caetano Scannavino

Alimentar o embate entre desenvolvimento vs meio ambiente é estar na vanguarda do atraso. Esse debate tá errado. Ninguém é contra energia, transportes, internet, muito menos a favor do fim das florestas, mesmo quem planta —salvo o lado ogro do agro. Sem elas não tem água, sem água não tem agricultura.

Se é pra falar sério, que debatamos sobre qual modelo de desenvolvimento está em jogo, se para muitos ou para poucos, se só para as gerações de agora ou também para as próximas, se para frente ou para trás.

Por exemplo, devastamos uma área igual a duas Alemanhas de florestas, para que 63% dela fosse ocupada por pastagens de baixíssima produtividade, com menos de um animal por hectare, e outros 23% fossem abandonados —dados do Inpe e da Embrapa. 

Desmata-se a Amazônia para ficarmos ainda mais pobres. É sobre essa falta de sentido que precisamos falar.

Não bastasse isso, o governo eleito quer mostrar a que veio receitando mais do mesmo, inclusive liberar o agronegócio dentro das áreas indígenas. Se quisesse de fato fazer a diferença, estaria blindando as florestas e focando no aumento da produtividade nas zonas agrícolas já consolidadas do bioma, incentivando técnicas modernas, mais amigáveis ao meio ambiente, para se fazer mais com menos terra, menos desmatamento, menor pressão sobre as Unidades de Conservação e Territórios Indígenas.

Se é para crescer, que seja para cima, até porque para o lado é caso de polícia diante do lucro fácil de especuladores e grileiros de terras. Rumar nesse sentido já seria um passo para o manejo racional da agricultura de grande escala na região, como estratégia de redução de danos.

Além do que se perde, é preciso falar também do que deixamos de ganhar. É insano que o país com a maior biodiversidade do planeta não tenha até agora uma política robusta de bioeconomia, voltada para o processamento de produtos da floresta como o açaí, cacau, cupuaçu, castanha, andiroba e tantos outros.

Beneficiados na forma de manteigas, polpas, óleos, essências, extratos, agregam valor com alta demanda de mercado junto as indústrias de fármacos, alimentos e cosméticos. Mobilizam não só os grandes, como também as associações e cooperativas comunitárias. Os conhecimentos tradicionais são valorizados, e a floresta é conservada ao se demonstrar que em pé tem mais valor do que caída.

Como bem lembra o cientista Carlos Nobre: “os sistemas agroflorestais com açaí podem render anualmente 200, até 1500 dólares por hectare, enquanto o gado fica em torno de cem dólares por hectare. O grande potencial do Brasil é o potencial da biodiversidade, aí nos precisamos de uma indústria da biodiversidade, e de uma ciência e tecnologia que desenvolva esse potencial”.

Soluções existem, muitas construídas a partir da academia, dos povos indígenas, agroextrativistas, empreendedores locais e projetos demonstrativos do terceiro setor. O que não dá mais é perder tempo debatendo paranoias sobre soberania e nacionalismo, alimentadas por fake news generalizadas de ONGs que botam fogo na floresta —aliás, atirando assim acabou fortalecendo-as, surtindo efeito contrário, o tal "bumerONG".

Esbraveja-se sobre a internacionalização da Amazônia, mas nada do Brasil ratificar o Protocolo de Nagoya, que reconhece os direitos de soberania das nações detentoras sobre sua biodiversidade. 

Quanto ao Acordo de Paris, o debate não pode se acomodar em apenas continuarmos nele. É preciso cobrar do Governo que aponte caminhos de como será cumprido, por exemplo, a meta de redução do desmatamento anual na Amazônia para algo em torno de 3,8 mil km² até 2020, quando tudo indica que superaremos os 10 mil km².

O fato é que até agora o Brasil não tem um projeto efetivo para a Amazônia, em pé, pactuado entre os diversos setores, a começar pelos amazônidas. Sim, seria pedir muito, ainda mais nestes tempos. 

Mas há luz. Justamente por estes tempos, que geraram toda essa mobilização nacional pela Amazônia, com a sociedade brasileira sinalizando que não quer ver mais queimadas nem sangue indígena derramado. Nem ela nem quem compra da gente lá fora. 

Quem sabe esse despertar, pautando ao invés de se deixar pautar, possa ser a semente por um debate mais civilizado. E civilizatório, sem medo de novos paradigmas, sem medo do futuro, a partir da nossa Amazônia de todos.

Sem ilusões, mas na batalha para que o combate ao fogo não seja fogo de palha.

Táoquei?

Caetano Scannavino

Coordenador da ONG Projeto Saúde & Alegria, com atuação na Amazônia e integrante da Rede Folha de Empreendedores Socioambientais; trabalho vencedor do Prêmio Empreendedor Social de 2005

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