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Merula Steagall

A Covid-19 nos tirou da zona de conforto

Merula Steagall

O coronavírus tem sido pauta mundial desde dezembro de 2019, quando os primeiros casos na China começaram a aparecer.

Desde então, muito está mudando todos os dias. O novo vírus, que parecia tão distante de nós, chegou ao Brasil e já impactou a vida de todos –infectados ou não.

O sistema de saúde tem sofrido grandes mudanças, em especial o sistema público (SUS). Afinal, houve inversão nas prioridades dos atendimentos e muitas das demandas diárias deste momento não estavam planejadas.

Com o isolamento social, importante iniciativa do Ministério da Saúde e governadores do país, estamos sentindo o impacto econômico em todos os setores.

Apesar da disposição da população de acatar as diretrizes e da avaliação de que estamos nos preparando para o pior, ainda por vir, conflitos políticos prevaleceram, prejudicando o foco nas medidas necessárias para o combate à pandemia.

Frente à Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale) tivemos de agir rapidamente, adaptar todos os nossos atendimentos para forma digital e ampliar o nosso esforço para alcançarmos o maior número possível de pacientes em tratamento contra o câncer, população muito vulnerável ao novo vírus.

São milhares de pacientes que atendemos de forma gratuita e que agora nos contatam repletos de temores e dúvidas: se vão conseguir dar continuidade ao tratamento e exames, como devem se proteger para não contrair a Covid-19, se podem procurar os hospitais caso sintam os sintomas, se devem tomar a vacina contra a gripe, como ficará o abastecimento dos medicamentos controlados, se podem adiar procedimentos como radioterapia e quimioterapia dentre diversas outras questões.

São igualmente numerosos os casos que oferecemos assistência para segunda opinião médica, apoio psicológico, ajuda para conseguir diagnóstico de câncer (já com sintomas e aspecto clínico que demonstra claramente a alta chance de terem a doença), auxílio para questões que necessitam de orientação jurídica para acesso a direitos. Todos os atendimentos foram adaptados com os critérios e precauções que o momento exige.

Em meio a toda essa pandemia, sofremos um impacto financeiro importante. Temos, no momento, recursos para nos manter até meados de maio.

Minha única certeza é que precisamos continuar o nosso trabalho em prol desta rede que construímos nestes quase 18 anos de atuação. O compromisso com o nosso propósito transcende as limitações e dificuldades que estão se apresentando.

Percebo este momento como uma maneira de sairmos da zona de conforto. Entretanto, é preciso manter o profissionalismo, revisar rapidamente nossa estratégia e buscar em nossas conexões oportunidades de colaboração e caminhos para escalar este impacto.

As organizações sociais, como a Abrale, representam a mobilização social na defesa dos direitos e das necessidades coletivas, sejam elas educativas, ambientais ou de saúde.

Atuamos onde existe vulnerabilidade e desigualdade, porque o governo e a iniciativa privada, sozinhos, não dão conta de resolver as demandas existentes. Como cidadãos, não podemos ficar de braços cruzados e precisamos, juntos, entender como eu, você, nós, podemos ajudar os que mais precisam.

Como muitos, nossa equipe está trabalhando de forma remota. São mais de 70 colaboradores e quase 200 voluntários implementando projetos que, de alguma forma, trazem um impacto positivo na vida dos que representamos.

Entre as iniciativas dos últimos dias estão a criação de conteúdos para esclarecer dúvidas dos pacientes e familiares, consulta com médicos voluntários por teleconferência, atendimento psicológico online, acompanhamento com os gestores de estados e do Ministério da Saúde para impulsionar medidas necessárias na Oncologia, colaboração com outras organizações sociais e hospitais (membros do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer), doação de álcool gel para hospitais mais carentes, campanha de doação de sangue, parceria para transporte de pacientes aos hospitais para continuidade dos tratamentos, entre outras ações. Todas, claro, de alcance nacional.

Entendemos que neste momento o foco é o planejamento e combate à pandemia, mas a prevenção e controle do câncer devem continuar sendo pauta e, nós, os interlocutores atentos das principais necessidades do paciente.

Criamos a página SOS Coronavírus, que trará todas as informações referentes à Covid-19 e o tratamento do câncer.

Contamos com o importantíssimo apoio dos principais especialistas do país, que fazem parte do Comitê Médico e Multiprofissional da Abrale. Basta entrar em contato pelo abrale@abrale.org.br ou www.abrale.org.br. Nosso telefone é o (11) 31495190.

Todos podem se engajar de alguma forma. A campanha “Só Saia de Casa para Fazer o Bem”, por exemplo, incentiva a doação de sangue. Famosos como Carol Castro, Felipe Andreoli, Regiane Alves e Sabrina Sato nos ajudaram a disseminar esta causa no país.

Além disso, você pode colaborar com doação de recursos, para custear nossas iniciativas. Não podemos e não pretendemos parar. Muitas vidas dependem do nosso trabalho.

Estamos promovendo um leilão de experiências, com doações recebidas por famosos que conhecem e reconhecem a importância de nosso trabalho. Pelé, Danilo Gentili, Adriane Galisteu, Marco Biaggi, Sidney Magal são alguns dos nomes.

Existe também a oportunidade de se tornar um mantenedor da Abrale e a de doar pontualmente por meio de uma plataforma de vaquinha virtual.

Sabemos que em breve tudo passará e toda esta experiência nos trará muitas mudanças e aprendizados individuais e coletivos. Que possamos aproveitar a oportunidade da dor para impulsionarmos o progresso de nosso planeta.

Que possamos encontrar mais motivos para praticar o amor ao próximo diariamente, cuidar de nosso meio ambiente, melhorar nossa qualidade de vida e conhecimentos.

Que possamos testemunhar a verdadeira democracia, como idealizada pelos meus ancestrais gregos, em que a soberania é exercida pelo povo.

Vamos continuar construindo pontes entre quem precisa e quem pode ajudar. Poder ajudar é um privilégio.

Merula Steagall

Paciente de talassemia em tratamento há 50 anos, é presidente da Abrale (Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia) e idealizadora do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer.

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