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Ricardo Lauricella

Faz falta um líder como Roberto Kikawa em meio à pandemia

Fundador do Cies Global, o médico e empreendedor social assassinado em novembro de 2018 faria 50 anos nesta quinta-feira (16)

Ricardo Lauricella

Nesta quinta-feira (16), o empreendedor social e médico Roberto Kikawa, criador das carretas da saúde, completaria 50 anos. Ele foi assassinado em 10 de novembro de 2018, durante uma tentativa de assalto no bairro do Ipiranga, São Paulo.

A data de seu aniversário me levou a pensar no que ele estaria fazendo, caso ainda estivesse vivo, em relação ao coronavírus.

Durante os dez anos em que trabalhei ao seu lado, na Associação Beneficente Ebenézer, nos desafiamos o tempo todo para sermos disruptivos na criação de um modelo de negócio de impacto na área da saúde.

O médico gastroenterologista Roberto Kikawa e vencedor do 6º Prêmio Empreendedor Social, parceria entre Folha de S.Paulo e Fundação Schwab - Renato Stockler/Folhapress

O modelo passou por muitas transformações e, o obstinado Kikawa chegou a ser premiado pela Folha e pela Fundação Schwab, por sua iniciativa de levar atendimento médico especializado em unidades móveis como carretas, vans e contêineres para mais de 2 milhões de pessoas.

Um médico sem partido político, o visionário Roberto transitou muito bem na esfera pública e privada. Com forte atuação na saúde suplementar e nas áreas de responsabilidade social das empresas, Kikawa entendeu que, no Brasil, seu apoio deveria estar fortemente vinculado ao Sistema Único de Saúde (SUS), responsável pelo atendimento de 80% da população brasileira.

Esse entendimento o levou a estudar profundamente o sistema público de saúde, tanto questões como as proporções de leitos por habitantes nas diferentes regiões do Brasil quanto as regras e normas administrativas da gestão pública.

Por muito tempo o exemplo de atendimento médico em unidades móveis foi fortemente questionado. Havia quem dissesse que não era uma solução para as grandes filas de espera e que deveria ser apenas uma solução para momentos de guerra ou pandemias.

Pois bem, é inegável o fato de a iniciativa ter diminuído a demanda reprimida por consultas, exames e cirurgias e, mesmo assim, no atual momento, o modelo proposto pelo médico se mostra uma solução rápida, eficiente e de baixo custo.

Foram mais de 160 unidades móveis e fixas de saúde especializadas atuando em diferentes regiões de diversos estados brasileiros e até mesmo em Atlanta (EUA). Unidades equipadas com a mais alta tecnologia, frutos de parcerias intersetoriais e, sobretudo, de uma equipe treinada no que chamávamos de “DNA do Amor”.

O DNA do Amor era mais do que uma proposta de marketing. Era o cerne da atuação de cada profissional que trabalhava em condições adversas, sem o conforto de uma grande estrutura de alvenaria. Era este mesmo DNA que Roberto introjetava, de forma serena e equilibrada, em todos os seus parceiros e colaboradores. Ele incentivou inúmeros profissionais a darem mais de si por um objetivo em comum: saúde para todos.

Neste momento de pandemia, Roberto já teria na palma de sua mão um belo e eficiente projeto de hospitais de campanha modulares, com unidades de atendimento satélite, tudo num prazo de 20 dias, incluindo telemedicina, prontuário eletrônico e até mesmo a associação do que chamou de Programa Médico Preventivo.

Se ainda estivesse vivo, teria criado há semanas inovações aplicáveis velozmente e de baixo custo, voltadas a todos que quisessem e precisassem nas esferas pública e privada, além de gratuito para os pacientes do SUS.

Roberto Kikawa fez muito e, por isso, faz muita falta.

Ricardo Lauricella

É gestor executivo no terceiro setor há mais de 15 anos.

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