Com 'DNA do Amor', carretas dão suporte a médico, paciente e SUS

Unidades Móveis de Enfrentamento à Covid-19, iniciativa da Fleximedical, leva atendimento a locais vulneráveis, democratizando acesso durante a pandemia

Iseli Reis, da Fleximedical, finalista do Empreendedor Social 2020 na categoria Mitigação da Covid-19 Renato Stockler

Lígia Mesquita
São Paulo

Unidades Móveis de Enfrentamento à Covid-19

  • Organização Fleximedical
  • Empreendedora Iseli Yoshimoto Reis
  • Site https://fleximedical.net

Em um dos últimos encontros com o primo-irmão Roberto Kikawa, há dois anos, a executiva Iseli Yoshimoto Reis teve aquele papo clichê em que a pessoa responsável por viabilizar um negócio precisa fazer o sócio sonhador se ater às planilhas.

Ela queria que a Fleximedical Soluções em Saúde, empresa de inovação tecnológica criada por ele em 2005 e comandada por ela desde 2011, adotasse uma gestão pautada em indicadores.

O médico vencedor do Empreendedor Social de 2010 concordou, mas sublinhou o principal compromisso deles: “Acima de tudo, precisamos ter propósito, algo que toque os corações das pessoas e transforme vidas. Precisamos levar o DNA do amor”.

Pouco tempo depois, o criador da Carreta da Saúde, iniciativa que leva atendimento médico especializado por meio de unidades móveis a pacientes de baixa renda do SUS (Sistema Único de Saúde), foi assassinado a tiros, aos 48 anos, em uma tentativa de assalto em São Paulo.

Mas o “DNA do amor” estava lá e levou a Fleximedical a atuar de maneira rápida no combate à Covid-19 no Brasil no início da pandemia, segundo Iseli.

“Não podíamos ficar parados assistindo às pessoas morrerem, sem lutar pela democratização ao acesso à saúde, pelo direito de conseguir um simples diagnóstico”, diz a arquiteta hospitalar.

Iseli lembra que arquitetura no Brasil é um serviço para as classes altas. “Arquitetar para gerar impacto social é empolgante e motivador.”

O exemplo do primo volta com uma frase que a norteia. “Não sou um homem de propostas, mas de propósitos.”

“O que nos move são dois legados, o que Kikawa nos ensinou e o que queremos deixar neste mundo, o de ser agente de transformação.”

Com mais de 60 unidades móveis de atendimento em comunidades de alta vulnerabilidade social no país, a Fleximedical acelerou suas atividades quando os casos de Covid começaram a se multiplicar.

Num prazo de 10 a 45 dias, a empresa customizou as unidades, capacitou a mão de obra para tratar o novo vírus e deslocou carretas, vans e contêineres para as regiões com maior índice de infectados.

Em 15 de abril, era inaugurada em Pirituba, na zona norte de São Paulo, a primeira dessas dez unidades, que, além da capital, também chegaram ao interior e ao litoral paulista e a Brasília.

Os locais foram escolhidos com base em informações do DataSUS, levando em consideração o número de aumento de casos, a disponibilidade de espaços adequados para atendimento e a necessidade de separar pacientes de alto risco.

E, segundo Iseli, nem precisava tanto para saber. “Foi triste, ao parar nossa carreta perto do hospital público, onde havia quarenta leitos de Covid, ver a fila de carros funerários retirando corpos de vítimas da doença”, diz.

Dividida em três modelos —triagem e testagem de pacientes com suspeita de Covid fora do ambiente hospitalar, realização de tomografia e testes de eficácia de medicamentos contra o coronavírus—, a iniciativa atendeu a mais de 37 mil pessoas até novembro. Promoveu ainda acesso aos exames, acompanhou evolução da doença e fomentou a pesquisa.

O trabalho incluiu o desenvolvimento de Unidades Pocket (de bolso), do tamanho de um guarda-roupa, que prometem ser solução inovadora, acessível e segura para a futura vacinação.

Para viabilizar a iniciativa, foi captado R$ 1,8 milhão com a Mercedes-Benz e feita parceria com o SUS.

As inovações da Fleximedical encantaram gestores, como Virgínia Castro, diretora do hospital municipal Dr. Benedicto Montenegro, no Jardim Iva, na zona leste de SP, que abriga leitos de Covid em região de alta vulnerabilidade. Mesmo de férias, ela voltou ao local de trabalho para ver a unidade móvel. “Filha, isso, sim, fará diferença aqui, junto ao SUS”, disse ela para Iseli.

Ajudar quem busca acesso à saúde e também a quem trabalha na área motivam ainda mais a empreendedora social e sua equipe, que deslocavam as unidades para outras regiões quando hospitais já não conseguiam atender à demanda na pandemia.

Com isso, diz Iseli, além de proporcionar a agilidade que o momento de emergência pedia, evitou-se o mau uso de dinheiro público sem a necessidade de construir estruturas que não seriam mantidas. Para ela, o sucesso da ação deve-se a uma “equipe vencedora” —e ao fato de ela mesma ter se colocado na linha de frente.

“As pessoas que trabalham conosco sabem que não é uma empreendedora maluca que se expõe, mas um time que trabalha arduamente para diminuir e minimizar os impactos negativos da Covid”, afirma. “E, principalmente, ajudamos a democratizar o acesso à saúde sem que, para isso, seja necessário nos submeter a qualquer tipo de ilegalidade.”

Para ela, a maior inspiração é fazer o bem, como lhe ensinaram Kikawa e sua filha adolescente que tem epilepsia. “Hoje, ela está melhor e já se encanta com o setor. Tem orgulho de falar no colégio e para as amigas que a mãe é uma empreendedora social.” E aproveita para explicar o que é isso para essa futura geração, tendo dois ótimos exemplos na família.

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Unidades Móveis de Enfrentamento à Covid-19

  • 37 mil pessoas impactadas
  • R$ 3,7 milhões em recursos mobilizados
  • 45 dias foi o tempo que a Fleximedical precisou para customizar unidades e capacitar equipes
  • 60 unidades móveis de atendimento (carretas, vans e contêineres) deslocadas para apoiar o SUS em regiões de alta vulnerabilidade
  • 18 unidades exclusivas para Covid-19, com luzes UVC de acionamento automático para desinfecção do ambiente e revestimentos antimicrobianos
  • 88 profissionais de saúde contratados
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