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'Cozinhei durante quatro meses para meus vizinhos', diz moradora da Pavuna, sobre projeto Cozinhas Solidárias na pandemia

Natália Silva fez parte de iniciativa da Gastromotiva, com apoio do Instituto Coca-Cola, um dos destaques do Empreendedor Social do Ano em Resposta à Covid-19 na categoria Ajuda Humanitária

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São Paulo

Batatas descascadas, frango temperado, feijão de molho. A panela emprestada fumegando no fogão de quatro bocas. No período crítico da pandemia, 300 quentinhas saíam por semana da casa de Natália Rosa da Silva. O destino era certo: moradores da comunidade do Chapadão, na Pavuna, Rio de Janeiro.

Natália, 31, foi uma das Cozinhas Solidárias criadas pela ONG Gastromotiva que, com apoio do Fundo Estamos Nessa Juntos, do Instituto Coca-Cola, foi uma das 30 iniciativas de destaque no enfrentamento da Covid-19.

Ela conta à Folha como foi passar quatro meses cozinhando para seus vizinhos.

*

“Ao meio-dia as pessoas vinham bater na porta de casa. Mas o trabalho começava bem antes.

No dia anterior, depois de limpar a cozinha, minha cunhada e minha vizinha sentavam comigo no quintal para descascar os legumes. Colocava o feijão para cozinhar, temperava a proteína, adiantava tudo o que podia.

Minha cozinha é pequena e meu fogão tem só quatro bocas, então minha mãe cozinhava alguns alimentos em sua casa. Uma vizinha emprestou uma panela grande, afinal eram cem quentinhas por dia.

Vinham idosos, adolescentes grávidas e crianças buscar as refeições. Vinha muita gente dizendo que o gás tinha acabado naquele dia, que o auxílio não tinha caído, que tinha perdido o emprego. Foi difícil ouvir as histórias.

Quando comecei, não conseguia esvaziar as emoções, pensei em desistir. Eram tantas dores e tantos sorrisos que eu não sabia distinguir o que estava sentindo.

E tudo se misturava ao medo da pandemia, com meus quatro filhos pequenos em casa e o marido desempregado.

Só que ser uma Cozinha Solidária ocupou a minha mente, me deixou forte para entender que somos capazes e que podemos fazer alguma coisa.

Antes de março, eu trabalhava na operação da Gastromotiva, fazia os serviços gerais, deixando tudo limpo e organizado. Veio o vírus, tudo fechou e fizeram a proposta de contribuir com a minha comunidade.

Eu abracei a causa, pois gosto de cozinhar e ainda receberia um pagamento por isso. Então, com alguma timidez, fui à casa de vizinhos oferecer as refeições. As pessoas queriam saber a procedência do alimento, queriam saber se seria aquele famoso sopão.

Como o projeto traz os valores da Gastromotiva, era tudo balanceado, sempre tinha uma verdura, tudo saudável e nutritivo. Da minha cozinha saíam arroz com feijão, farofa e frango, ensopado de legumes, frango com batata, salada de grão de bico com pepino, omelete de espinafre...

A cada dia aparecia mais gente na porta de casa. Chegou uma hora que eu não tinha mais estrutura, meu fogão afundou com as panelas grandes, eu me queimava e tinha um monte de louça para lavar ao final do dia. Não tinha mais ajuda porque as pessoas precisavam retornar ao trabalho.

Foram quatro meses e dez dias até que senti que tinha cumprido minha função. Foi difícil me despedir, mas em agosto retornei à Gastromotiva.

Ser uma Cozinha Solidária abriu portas e hoje faço parte da equipe de impacto da organização. Cuido da logística dos alimentos, da lista de compras, das notas fiscais, entre outras funções. Mas não largo meu paninho com álcool, viu?

Hoje tenho uma história para contar. As pessoas na Pavuna respeitam mais o alimento e sabem que podem receber doações de qualidade. Valeu a pena em todos os sentidos.”​

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