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'Na Amazônia, os pequenos projetos precisam se desdobrar para viver', diz empreendedora do Pará

Tainah Fagundes lidera Da Tribu e se espelha em certeza de DJ Bola para impactar comunidade na ilha de Cotijuba com verba do Fundo Emergencial Volta por Cima, vencedor na categoria Legado no Prêmio Empreendedor Social

São Paulo

Marcelo Rocha, o DJ Bola, carrega consigo uma certeza: “Quando se investe em um projeto da periferia ou um empreendedor de regiões de alta vulnerabilidade, você enxerga micro revoluções”.

Ele é um exemplo disso. À frente da produtora cultural A Banca e da Anip (Articuladora de Negócios de Impacto da Periferia), o DJ, direto do Jardim Ângela, na zona sul de São Paulo, conseguiu nesta pandemia impactar periferias por todo o país.

Da mesma forma em que criou e moldou A Banca por 22 anos, que hoje realiza oficinas culturais, mantém estúdio fonográfico e administra braço de educação e empreendedorismo, Bola encampou diferentes frentes de ação.

Duas delas são vencedoras do Prêmio Empreendedor Social em 2019. Uma é o Matchfunding Enfrente, em que se juntou com Mariana Almeida e Guiné Silva (Fundação Tide Setubal), Tadeu Kaçula (Nova Frente Negra Brasileira) e Tatiana Leite (Benfeitoria) num fundo colaborativo que financiou projetos em 84 cidades espalhadas pelo Brasil.

Outra é o Fundo Emergencial Volta por Cima, que criou com os amigos e empreendedores sociais Maure Pessanha, da Artemisia, Edgard Barki, do FGVcenn, e Alessandra França, do Banco Pérola.
Esta última iniciativa justifica o nome por atuar em emergências —projetos sociais, em sua maioria, ficaram sem renda— e por ser inovador ao conceder empréstimos de R$ 15 mil a juro zero, com carência de seis meses para iniciar o pagamento e mais 12 para quitar o financiamento.

“Esses empreendedores selecionados fazem micro revoluções num bairro, num grupo de pessoas ou num segmento. É um dinheiro que permite pagar contas e manter o negócio. É dinheiro que chega aonde o poder público não chega”, diz DJ Bola, 39.

Um dos 55 projetos beneficiados pelo Fundo Emergencial Volta Por Cima foi o Da Tribu, da comunicadora paraense Tainah Fagundes, que, como diz Bola, tem promovido pequenas revoluções em comunidade ribeirinha no Pará.

“A Amazônia tem muitos projetos, mas os olhares e o dinheiro são voltados sempre a grandes iniciativas. Então nós, que trabalhamos a cultura, o pertencimento e a certeza de que a floresta de pé é mais rentável do que derrubada, temos muito trabalho para conseguir algo como o Fundo Volta por Cima, que parece olhar tanto para o negócio social como para o empreendedor social”, diz Tainah.

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Eu nasci no Pará e tenho muita ligação com as questões ribeirinhas e indígenas. Meu nome é Tainah, que, na cultura indígena, significa primeiros raios de sol. Minha irmã se chama Moahra (liberdade) e meu irmão Kauê (guerreiro).

Desde cedo aprendi, com minha mãe, Kátia Fagundes, principalmente, o trabalho com as “manualidades”. Isso porque minha mãe se desdobrou para cuidar de nós três. Ela trabalhava com confecção e venda de roupas, mas em 2009 ela sofreu um desfalque e isso modificou nossa vida.

Tainah e Kátia Fagundes, filha e mãe, que lideram o negócio social Da Tribu, que trabalha com moda sustentável e ajuda a gerar renda para comunidade extrativista no Pará
Tainah e Kátia Fagundes, filha e mãe, que lideram o negócio social Da Tribu, que trabalha com moda sustentável e ajuda a gerar renda para comunidade extrativista no Pará - Débora Flor

Ela passou então a trabalhar na informalidade, com bordado, recuperação de móveis, produção de pão, confecção de peças, tudo para vender e ter uma renda. Ela sempre nos mostrou como criar, inovar e não desistir.

Todo esse esforço, somado a meus conhecimentos e à nossa ligação com a natureza, nos levou a criar a Da Tribu.

Ela é um negócio social de moda sustentável que produz materiais sustentáveis com fios de borracha. Ao mesmo tempo em que ajudamos a garantir renda para a comunidade da Pedra Branca, na ilha de Cotijuba, no Pará, onde vive uma terceira geração de seringueiros, nosso trabalho ajuda a manter a floresta de pé.

Comunidade da Pedra Branca, na ilha de Cotijuba, no Pará, região beneficiada pelo negócio social Da Tribu
Comunidade da Pedra Branca, na ilha de Cotijuba, no Pará, região beneficiada pelo negócio social Da Tribu - Luiza Chedieck

Digo isso porque aqui na Amazônia há grandes projetos, e esse recebem investimentos. Mas pequenos projetos não e têm que se desdobrar para seguir atuando. Trabalhamos numa área de preservação ambiental, mas as políticas públicas não acompanham esse movimento para garantir qualidade de vida e renda às pessoas que vivem nessas regiões, que têm árvores centenárias.

Nós fizemos cinco anos de pesquisa até lançar o fio de látex, da borracha amazônica, em nossas produções, em parceria com a Universidade de Brasília. A gente estava pronto para lançar tudo neste ano, e veio a pandemia.

Isso foi um baque. Passamos março e abril sem vender nada. Só imagina: o nosso projeto mantém 5 famílias dessa comunidade, impactando diretamente 30 pessoas, e também cooperativas de costureiras contratadas e os artesãos diretos. Então são mais de 100 pessoas que poderiam ficar, do dia para a noite, sem renda.

Produtos com fio de látex, a borracha amazônica usada pela Da Tribu para confeccionar seus produtos
Produtos com fio de látex, a borracha amazônica usada pela Da Tribu para confeccionar seus produtos - Luiza Chedieck

Então reforçamos os trabalhos em três frentes: 1) levar informação a todos e manter uma rede de proteção contra Covid-19; 2) buscar algum financiamento para manter a renda das famílias e a produção; e 3) buscar editais em que pudesse colocar nossa produção e nosso trabalho.

A gente atua com zonas rurais, que antes eram muito masculinizadas e agora são lideradas por mulheres.

Eu vi, num primeiro momento, minha mãe novamente viver o que sentiu quando não a pagaram em 2009. Eu me pressionei demais, porque sou responsável por novos clientes, por mover toda essa operação, por pensar inovações e ganhos para todos.

Foi desesperador. Após o sucesso de impedir que a doença chegasse a nós e às comunidades, eu ouvi falar do Fundo Emergencial Volta por Cima.

Foi uma santa ajuda, com juros zero, com condições que eu poderia honrar.

Então com a verba que recebemos eu consegui alavancar a operação digital, criar um e-commerce, e lançamos nele a Coleção Nortear, que faz uma reflexão do Norte.

Modelos com peças de coleção do negócio social Da Tribu
Modelos com peças de coleção do negócio social Da Tribu - Estúdio Thiago Drummont

Eu sempre decidi tudo com minha mãe. E a gente tem claro que, a qualquer sinal de dívida, a gente para, repensa e depois recomeça. A pandemia foi muito dura com isso.

Na Amazônia, a gente tem um ditado: “Ou chove todo dia, ou chove toda hora”. E nossa produção também respeita o tempo da natureza, porque a Amazônia já foi muito roubada e enganada.

O Volta por Cima permitiu a gente manter as operações e, principalmente, o nosso impacto. Na comunidade em que atuamos as mudanças são visíveis, com as pessoas conseguindo pagar suas contas, consertando motor de barco, adquirindo meio de transporte, comendo melhor, com mais autoestima. Seu Manuel Magno, de quem compramos o látex, diz que o fio de borracha que desenvolvemos é o “fio da esperança”.

O seringueiro Manuel Magno, um dos beneficiários do negócio social Da Tribu
O seringueiro Manuel Magno, um dos beneficiários do negócio social Da Tribu - Kleyton Silva

Isso nos enche de certeza de que estamos no caminho certo, pensando também na economia circular, em como fazer nossos produtos voltarem para nós para serem reaproveitados ao final de seu ciclo.

Por isso sou muito grata ao Volta Por Cima. Além do dinheiro, eu destaco a forma como me acolheram, porque eu ganhei até um acompanhamento, que posso dizer que foi terapêutico, com eles.

Tive contato com outros empreendedores sociais que estavam com problemas parecidos com os meus. Então pude me perdoar, ver que não estávamos naquele ponto da Da Tribu por minha culpa apenas. Pude ver dicas dos empreendedores, como o Bola, e ter contato com toda uma rede.

Isso tudo me ajudou a reconectar com a essência do nosso negócio, com as pessoas. Hoje temos 33 produtos em nosso portfólio, de joias, colares, pulseiras e anéis até bolsas e cachepôs, e a expectativa de beneficiar 30 famílias (cerca de 320 pessoas). Além de ter a certeza de que a Da Tribu vai passar por esse momento difícil e, por que não?, dar muito a volta por cima e ainda a ajudar a outros projetos.

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FUNDO EMERGENCIAL VOLTA POR CIMA

  • 500 empreendedores diretamente impactados
  • R$ 1,2 milhão em recursos mobilizados
  • 55 negócios de impacto social provenientes de periferias em 10 estados receberam aportes do fundo
  • 60% dos empreendedores se autodeclararam do gênero feminino, 40% pretos(as) e 21,8% pardos(as)

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