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'Racionei comida para as crianças até que a cesta digital chegou', diz mãe de quatro crianças

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São Paulo

É quando se deita para dormir, ao lado dos quatro filhos, que a paulistana Suellen Aparecida da Silva, 36, consegue colocar a cabeça para pensar.

Ela mora em um cômodo de madeira que serve de quarto, sala e cozinha. O quintal onde fica a casa é dividido por 29 pessoas, todas da mesma família, em uma favela de Ferraz de Vasconcelos.​

Quando a equipe da Gerando Falcões chegou com os cartões da cesta digital, ficou comovida com o que viu. Encontraram mulheres fracas, há dois dias sem comer, para poder deixar o alimento para as crianças. Suellen conta à Folha como sobreviveu à fome e ao vírus.

*

“Eu tenho o Tayan, de 10 anos; a Rayane, de 5; a Sophia, 4; e o Pietro, de 2 anos. Meu dia a dia é cuidar dos quatro, de domingo a domingo. Eu cuido sozinha mesmo. Já fui casada, mas agora, graças a Deus, sou separada.

Quando chega a noite, é que ponho minha cabeça para pensar. Eu durmo pouco, mas fico pensando em arrumar um serviço, em ter minha própria casa, em um espaço maior. Aqui é apertado com quatro crianças.

Mulher negra à esquerda, vestida de camiseta branca, posa ao lado do filho, negro, de blusa amarela, sorridente
A paulistana Suellen Aparecida da Silva, 36, racionou comida para alimentar quatro crianças na pandemia - Arquivo pessoal

Eu moro no quintal da casa da minha mãe, perto do rio, bem próximo daqui da sede da Gerando Falcões. Deixa eu contar. São 70 metros divididos por 29 pessoas no quintal, sendo 23 crianças. Todas elas almoçavam na escola antes da epidemia, mas, quando veio esse vírus, essa coisa inesperada, a vida de todo mundo parou.

Sem a merenda e sem renda, o jeito foi racionar o pouco que a gente tinha para alimentar as crianças pelo menos uma vez ao dia. Precisei pedir pão na porta da padaria. Quando Tayan pedia comida, eu substituía por outra coisa. Um danone, uma bolacha.

Sabe como é difícil quando uma criança te pede comida e você não tem? As mães daqui do quintal comiam bem pouquinho para deixar para as crianças. Cheguei a passar fome, foi difícil.

Quando chegou o cartão digital da Gerando Falcões, carregado com R$ 100, conseguimos ir ao mercado comprar alimentos para a família toda. Arroz, feijão e mistura estavam garantidos durante três meses. Eles também chegaram com álcool em gel e cesta básica. Veio a calhar, sabe, não deixou a situação ficar mais feia.

A gente não sabe qual família o vírus vai atacar, mas foi assim que a gente sobreviveu até agora. As crianças são pequenas, não entendem, acham que está tudo bem. Tayan, o mais velho, diz que está com saudades da escola, dos estudos, das aulas de boxe na Gerando Falcões.

Mas eu não sei o que ele quer ser quando crescer, nunca perguntei para ele. Assim que eu arrumar um serviço, vou poder dar um caminho melhor para meus filhos.

Desde 2016 que eu estou desempregada. Antes, era todo dia na avenida Paulista, trabalhava de auxiliar de serviços gerais em uma empresa. Passava muitas horas na condução e ficava pensando nas crianças, que deixava com minha irmã.

A gente não costuma sair para passear, é um gasto, né? E os pais pegam só de vez em quando.

Na epidemia, vivemos com o Bolsa-Família de R$ 253 e com o auxílio emergencial do governo, de R$ 600 por mês, até 31 de dezembro. Mas a Gerando Falcões chegou bem antes. Chegou com ajuda 45 dias antes, graças a Deus. Daqui pra frente, quero encontrar um emprego para melhorar de vida. Pode ser de serviços gerais ou coisa melhor.

Agora quando me deito para dormir, além de sonhar com uma casa em um lugar diferente, sonho também com o dia em que tudo isso vai passar. Se eu pudesse pedir alguma coisa hoje aos governantes? A vacina, é claro. Para a vida voltar ao normal. Só isso mesmo."

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