Precisamos eliminar a desigualdade digital, diz fundador da Gerando Falcões

Segundo Eduardo Lyra, plugar as comunidades é o caminho para elevar o potencial de novos negócios, do e-commerce e dos cidadãos

São Paulo

Entrou no ar, bem no meio da pandemia, um projeto de inovação batizado de Bolsa Digital. Sua proposta é garantir acesso gratuito à internet para integrantes da rede Gerando Falcões, a organização voltada ao desenvolvimento econômico, social e cultural das periferias. Criada pelo empreendedor social Eduardo Lyra, os falcões crescem em número, contando com apoio de investidores de peso como o empresário Jorge Paulo Lemann.

A Bolsa Digital inclui um aplicativo chamado “Gerando Educação”, feito pela Accenture, que passou a disponibilizar reforço escolar de preparo para o Enem, entre outros conteúdos educacionais, com a proposta de conectar os moradores das favelas a uma ampla plataforma de conhecimento.

Para Eduardo Lyra, 32, idealizador e presidente da Gerando Falcões, mais essa iniciativa é a prova de que o setor empresarial tem uma grande contribuição a dar para o combate a desigualdade. Segundo ele, a sociedade brasileira, por muito tempo, terceirizou a mudança do país para as mãos de governos e, agora, consegue entender que empresas têm papel essencial para essa transformação, que precisa acontecer principalmente nas periferias.

Uma pesquisa recente realizada pelo Idis (Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social), por exemplo, aponta que 71% dos brasileiros estão mais propensos a comprar produtos ou serviços de empresas que tenham algum impacto social ou papel filantrópico. Outros 86% dos respondentes disseram, ainda, que as empresas devem apoiar as comunidades em que atuam.

Eduardo Lyra (à esquerda, de camiseta branca) é o fundador da Gerando Falcões; ao seu lado, estão o presidente da Microsoft, Satya Nadella (camisa azul e óculos) e o fundador do 3G Capital e da Fundação Estudar, Jorge Paulo Lemann (camisa azul)
Eduardo Lyra (à esquerda, de camiseta branca) é o fundador da Gerando Falcões; ao seu lado, estão o presidente da Microsoft, Satya Nadella (camisa azul e óculos) e o fundador do 3G Capital e da Fundação Estudar, Jorge Paulo Lemann (camisa azul) - Bruno Santos - 12.fev.2019/Folhapress

Segundo o executivo, o coronavírus “mandou um recado para a humanidade e chacoalhou todo mundo”.

“Mas ainda precisamos de uma mudança de rota para colocar o mesmo apetite de investimentos de risco do mundo dos negócios no terceiro setor”, afirmou Lyra. “O Brasil não pode virar as costas para os seus empreendedores sociais.”

A Gerando Falcões foi lançado na periferia de São Paulo em 2011. De lá para cá, se transformou numa plataforma de impacto social com atuação em mais de 400 favelas do país. Para esse avanço, conta com ferramentas alternativas, como um modelo de metas criado pela Ambev, o uso de demonstrativos contábeis auditados pela KPMG e mais de 20 grandes patrocinadores sociais.

Como a Gerando Falcões se adaptou à crise do coronavírus?
Nós conseguimos nos adaptar muito rápido, até porque boa parte dos nossos programas atuam em plataformas híbridas e continuaram nos canais digitais mesmo no período pandêmico, como é o caso da Falcon University [faculdade informal da rede, voltada para o desenvolvimento de líderes sociais em habilidades técnicas e emocionais para atuação nas favelas].

Também colocamos a campanha “Corona no paredão, fome não” nas plataformas digitais e fizemos uma grande mobilização. Arrecadamos mais de R$ 20 milhões para cestas básicas e alimentamos quase 350 mil das pessoas mais vulneráveis.

Atualmente, as periferias de São Paulo são os locais que mais concentram mortes por Covid-19 de pessoas abaixo de 65 anos. A economia das favelas está conseguindo sobreviver à pandemia?
No Brasil, temos um drama muito grande que é a exclusão digital. Milhões de brasileiros que não têm acesso à conectividade, e a informação para eles é escassa.

Por isso, precisamos fazer uma revolução aí, e isso precisa entrar na cabeça de todo empresário, executivo, político e cidadão. Precisamos eliminar a exclusão digital dessas favelas para elevar o potencial de novos negócios e do e-commerce. Para plugar as pessoas em plataformas e aplicativos, recebendo informações de qualidade e gerando e fazendo parte da economia.

Em que passo está o debate sobre a educação financeira nas favelas?
Educação financeira é uma realidade ainda muito distante da periferia. Mas é preciso diferenciar isso da capacidade de gestão financeira.

Essas pessoas podem não ter R$ 100 para poupar todo mês, mas têm uma gestão financeira sobrenatural. Para conseguir sobreviver com até menos do que um salário mínimo, colocando comida na mesa para a família, comprando papel higiênico e pagando aluguel, o cara tem que ser muito bom.

Atualmente o Brasil tem mais de 40 milhões de desbancarizados. Você acha que isso pode ser um desafio para a chegada mais rápida da educação financeira nas comunidades? O maior desafio é a falta de conhecimento do Brasil sobre o brasileiro. Estamos perdidos com os nossos dados. Temos que construir um plano e entender quem são os desbancarizados, quem não tem acesso à internet, quem não tem RG ou CPF. Precisamos mapear e localizar essa pessoa e oferecer cidadania para elas.

A tecnologia não pode ser somente uma incubadora de geração de riqueza. Tem que ser também uma incubadora para a geração de cidadania. E isso é urgente, porque daqui a pouco nossos netos vão chegar e perguntar onde estávamos e o que fizemos enquanto o mundo evoluía e ainda existiam tantas pessoas anônimas, quase fantasmas para a sociedade. Qual resposta vamos dar?

Você enxerga algum avanço na batalha pela diminuição da desigualdade no país?
Nós temos cada vez mais pessoas trabalhando e fazendo coisas incríveis nesse sentido. O terceiro setor também está se desenvolvendo muito. Então, acho que temos avanços, sim, mas ainda precisamos de mais bala no canhão.

Temos que ser mais ousados, temos que ter o mesmo apetite de investimentos de risco do mundo dos negócios aplicado ao terceiro setor. Precisamos de uma mudança de rota.

O coronavírus mandou um recado para a humanidade e chacoalhou todo mundo. Agora cabe a cada um tomar as melhores decisões diante do que estamos vivendo e do cenário que temos pela frente.

Por isso, também, lançamos um aplicativo chamado “Gerando Educação”, feito pela Accenture, que será voltado para a população mais pobre e vai oferecer reforço escolar de preparo para o Enem e conteúdos de qualidade para as favelas.

O aplicativo também faz parte de um projeto de inovação chamado de Bolsa Digital, que entra no ar nesta quinta-feira [16] e que vai oferecer, entre outras coisas, acesso gratuito à internet para aqueles que fazem parte da rede Gerando Falcões.

Inicialmente, devemos alcançar em torno de 5.000 pessoas, mas queremos chegar em todo mundo.

Na sua avaliação, qual é o atual cenário para as comunidades?
O futuro é incerto. Mas eu aprendi na vida a não ter medo do futuro, mas construí-lo. Vamos cada vez mais edificar um diálogo com a sociedade, produzir conteúdo, filmes, mobilizar publicitários, arquitetos, engenheiros, montar times, entregar ferramentas, falar de transformação social e impulsionar a filantropia no Brasil.

Somos um país grande demais para doar, proporcionalmente ao PIB [Produto Interno Bruto], doamos menos do que a Argentina. Precisamos gerar renda, precisamos de mais empreendedores sociais e precisamos de mais gente colocando o canhão das suas companhias para mirar na miséria e combatê-la com toda a força que temos.

Precisamos também, mudar a forma de pensar sobre as doações para essas plataformas. É necessária uma doação e um voluntariado de longo prazo, feitos por décadas. Ninguém cria um filho em três meses, mas em anos.

E o que é chique também precisa ser ressignificado. A beleza do mundo atual é investir em startups e iniciativas lideradas por pretos, por mulheres. A pessoa conectada não é aquela que só conhece os CEOs [presidentes] da Faria Lima, mas quem também sabe chegar no Capão Redondo [extremo sul de São Paulo].

Precisamos ir menos para Paris e mais para as favelas, porque ser inovador é cocriar uma solução com quem está todo dia na ponta, lidando com os problemas da vida real.

Qual é a história da Gerando Falcões?
Começou muito pequena, no quarto de uma casa sem reboco por dentro e por fora, comigo e mais três amigos que me apoiaram, a Mayara Lyra, a Amanda Boliarini e o Le Maestro.

Eu nasci na favela, morava em um barraco, tive pai preso no sistema penitenciário e vivi as desigualdades na pele. Tudo isso me criou uma casca e me ensinou que se eu quisesse chegar lá, eu precisaria correr muito. Minha experiência de vida que me ajudou a construir a Gerando Falcões e a tirá-la do quarto para chegar ao Brasil inteiro.

Como a organização conseguiu evoluir tanto em menos de dez anos?
No meio do caminho dessa transformação eu descobri que sociedade tinha muitos muros e que nós precisávamos destruir esses muros para construir pontes.

E eu fui o moleque de favela que todo dia ia tentar fabricar pontes no Morumbi, na Faria Lima, na Paulista [bairros mais nobres da cidade de São Paulo]. Até que eu consegui o meu primeiro investimento semente [financiamento de longo prazo com o objetivo de cobrir as despesas iniciais e desenvolvimento de empresas iniciais] com um casal chamado Patrícia e Ricardo Villela Marino, proprietários herdeiros do Itaú. E essa foi a vitamina para os nossos sonhos.

Com esse capital, conseguimos crescer e levar nossos projetos a diversas empresas, como Motorola, Accenture, IBM e tantas outras.

Sempre ampliamos focados em educação, desenvolvimento econômico e cidadania nas periferias e favelas do país. Há três anos, decidimos matar o modelo antigo de uma ONG para nos tornarmos essa plataforma de impacto social que trabalha em uma estrutura de rede, acelerando outras iniciativas para que elas possam ampliar seu impacto nas favelas brasileiras.

Essa proximidade com grandes empresas tem alguma relação com a adoção desse novo modelo de ONG?
Nós construímos essa relação, essa transformação com as empresas. Colocamos uma gestão eficiente, metas, planos de carreira, uma central de inteligência interna com uso de dados e uma agenda muito forte de inovação.

Por muito tempo nós, como sociedade, terceirizamos a mudança do país para a mão do governo. Agora, percebemos que é mais do que isso. As empresas e cidadãos também começaram a perceber seu papel nisso tudo e o valor de investir em uma ONG que tem gestão, eficiência e ferramentas tecnológicas.

Muitas pessoas se dedicam a levar a inovação social para a periferia, tem gente fazendo impressora 3D no Morro do Alemão [complexo de 15 favelas, na zona norte do Rio de Janeiro]. Essas pessoas precisam ser acreditadas. São pessoas que não precisaram ser de fora do país para serem heróis na favela.

A inovação não pode vir só em inglês, de Harvard ou do MIT. Posso ser preto, ter nascido na favela, ter um pai ex-presidiário e mesmo assim fazer tudo isso. O Brasil não pode virar as costas para os seus empreendedores sociais.


Raio-x

Eduardo Lyra, 32, é fundador e presidente da Gerando Falcões. É certificado em Liderança Autêntica pela Harvard Business School.

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