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Como o Brasil pode se tornar uma potência global empreendedora da economia verde?

Potencial brasileiro de ser um dos protagonistas dessa mobilização permanece inexplorado

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Daniel Contrucci

Fundador da Climate Ventures, plataforma de inovação multissetorial que atua com o propósito de acelerar uma economia regenerativa e de baixo carbono

Lívia Hollerbach

Cofundadora da Pipe.Labo, think tank especializado em pesquisas de mercado e tendências de impacto socioambiental, e da Pipe.Social, maior plataforma de negócios de impacto no Brasil

A relação do Brasil com o meio ambiente esteve, desde o descobrimento, ancorada na lógica de exploração dos recursos naturais pela coroa portuguesa. De 1800 a 1979, a concepção vigente foi a do “meio ambiente a serviço da economia”. Hoje, vivemos um momento de mudança da relação das empresas e do capital privado com a natureza.

Uma nova ótica de impacto ambiental emerge e caminha para a estratégia central do negócio. Na prática, a externalidade ambiental negativa –que, antes, era mitigada– passa a abrir espaço para a geração de impacto ambiental positivo como cerne do negócio.

O futuro integra, de maneira sistêmica e estratégica, a economia e o meio ambiente. Dentro dessa nova perspectiva, o estudo "A Onda Verde: Oportunidades para Empreender e Investir com Impacto Ambiental Positivo no Brasil" defende que o país tem plenas condições para se tornar uma potência ambiental global.

Há um movimento mundial, liderado sobretudo pela China e União Europeia, de transição consistente para uma economia verde pautada por compromissos ousados em direção à descarbonização.

No Fórum Econômico Mundial, em janeiro de 2021, líderes de diferentes nações defenderam que um dos temas emergentes é o compromisso de direcionar a economia global para um futuro mais justo, mais sustentável e mais resiliente –conduta próxima à criação de um novo contrato social para a humanidade.

Entre os debates e reflexões, Klaus Schwab, fundador e presidente-executivo do Fórum, defendeu uma transição energética para uma economia de baixo carbono. Até março de 2021, mais de 21% das grandes empresas e corporações já aderiram ao "Race to Zero", assumindo o compromisso de tornar-se "net zero".

Nesse cenário, o potencial brasileiro de ser um dos protagonistas dessa mobilização permanece, em grande parte, inexplorado.

Para ampliar a compreensão da temática e produzir evidências que qualificam o debate nacional, a Climate Ventures, em associação com a Pipe.Labo, parceria estratégica da Aliança pelos Investimentos e dos Negócios de Impacto e apoio do Instituto de Cidadania Empresarial (ICE), Instituto Clima e Sociedade (iCS), Instituto Humanize e Cargill, desenvolveu um estudo que qualifica o debate e oferece repertório para empreendedores e investidores interessados em surfar essa onda verde.

O estudo nos convida a ir além do paradigma de que o meio ambiente é um obstáculo para o desenvolvimento do país. Na verdade, ele é um aliado!

Os mercados globais estão se reinventando e o Brasil possui um diferencial competitivo único: é o país com maior biodiversidade, com uma das maiores áreas cultiváveis e uma das sociedades mais empreendedoras do mundo.

Temos todos os ingredientes para construir um futuro próspero e sustentável para gerar empregos e desenvolvimento a dezenas de milhões de famílias. Para isso, é hora de deixarmos de ver o meio ambiente e os povos tradicionais como inimigos ou barreiras para o desenvolvimento.

Com novos olhares e espírito empreendedor, temos a chance de redescobrir o país, encontrando novas formas de gerar valor e riqueza a partir da nossa natureza e cultura vivas.

O estudo "A Onda Verde" representa um convite para que mais empresas, institutos, fundações e o governo brasileiro reconheçam a complexidade das cadeias que geram energia, alimento, água, ar puro e qualidade de vida à população.

Ao entendermos o papel de cada um nesse elo, estaremos mais perto de articular iniciativas sólidas para enfrentar os desafios ambientais mapeados nesse estudo e alavancar oportunidades inovadoras dentro dessa economia.

O estudo destaca alguns setores-chave nos quais residem as oportunidades, sobretudo para negócios de impacto socioambiental.

A agropecuária, pois contempla de produtores de grãos a outros cultivos e criações individuais e de empresas, passando por fornecedores de insumos e traders agrícolas. A gestão de resíduos, que abarca empresas que realizam tratamento de resíduos sólidos e que conduzem gestão, coleta, separação, reaproveitamento e reciclagem.

O setor de água e saneamento, com empresas responsáveis pela construção ou gestão de infraestruturas para abastecimento de água, drenagem urbana, coleta e tratamento de efluentes líquidos. Empresas de energia e biocombustíveis, que são geradoras, transmissoras e distribuidoras de energia elétrica, além de produtores de biocombustíveis; em especial, etanol e biodiesel, que dependem de componentes agrícolas e industriais para a produção.

Destaca a logística e a mobilidade, que compreende a movimentação de cargas e passageiros, incluindo diversos modais de transportes; a indústria, caracterizada por converter matéria-prima em produtos comercializáveis; um setor dividido em subsetores.

E, por último, florestas e uso do solo, que inclui produtos madeireiros e não madeireiros, além de atividades de reflorestamento e manutenção de floresta nativa para fim de conservação.

Como exemplo das oportunidades voltadas ao setor florestal, o estudo mostra a importância de viabilizar práticas de gestão que promovam a conservação e, ao mesmo tempo, revelem-se atrativas do ponto de vista financeiro.

Essas oportunidades, na prática, compreendem soluções tecnológicas e as voltadas à inovação na gestão dos negócios –apontando tanto para a necessidade de fortalecimento da produção florestal quanto para a integração com mercados e cadeias de valor mais estruturadas.

Um dos cases dessa oportunidade é o Café Agroindustrial de Apuí, fundado pelo Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável do Amazonas (Idesam), em 2015. Instalado em Manaus, ele concilia o desenvolvimento social e econômico local a partir da recuperação de áreas degradadas e conservação de florestas.

Um dos exemplos de negócio de impacto social no setor agropecuário é a Agrotools, empresa de tecnologia e ferramentas digitais voltadas ao agronegócio, que conta com soluções de análise de lavouras, clima e território.

Criada há dez anos por Sérgio Rocha, em 2020, a Agrotools anunciou uma nova divisão voltada a operações de estruturas de crédito na qual o objetivo é financiar produtores rurais com recursos de investidores institucionais.

Na indústria, destaque para a Eco Panplas. Instalada na cidade de Hortolândia, São Paulo, essa indústria inovadora atua com a reciclagem de embalagens plásticas contaminadas. Ela realiza o processo sem usar água ou produzir resíduos, e com alta redução de emissões de gás carbônico, resultando em uma matéria-prima reciclada de excelente qualidade e que possibilita fabricar novas embalagens sem usar material virgem e com redução de custo.

As oportunidades em logística e mobilidade possuem uma característica particular: residem na interseção entre a atuação do setor privado e público, porque estão relacionadas à oferta e à qualidade dos sistemas de transporte.

A logística reversa, também, está presente como grande eixo de oportunidades de negócios, à luz da Política Nacional de Resíduos Sólidos, possuindo interação tanto com o setor de resíduos quanto com o industrial.

Uma rede ciclologística endereça essa oportunidade. A Pedivela, fundada por Rafael Darrouy, contempla microhubs urbanos –rede de ciclistas autônomos– para transporte com bicicletas cargueiras especiais e roteirização dinâmica com inteligência artificial.

E como o Brasil pode se tornar uma potência global da economia verde? O primeiro passo é trocar o “ou” pelo “e”, ou seja, a nação deve abraçar o convite à conciliação. Em essência, os desafios socioambientais que o país e o mundo enfrentam no século XXI são complexos e requerem mudança nos modelos mentais de cidadãos e organizações.

A demanda é por uma ação coletiva unindo governos, setor privado e sociedade civil na construção dessa economia emergente que é sistêmica e inclusiva. O “e” deve contemplar, sobretudo, o desenvolvimento econômico, a justiça social e conservação ambiental em equilíbrio em uma mesma equação.

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