Famílias em extrema pobreza e impactos na saúde mental são mapeados por ONG no Complexo da Maré

Campanha Maré Diz Não ao Coronavírus concorre na Escolha do Leitor em que público pode, além de votar em suas preferidas, doar para ações de enfrentamento à Covid-19

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

São Paulo

Liderança legitimada na favela da Maré, Eliana Sousa tem intimidade com as dores dos moradores do maior conjunto de favelas do Rio de Janeiro desde os anos 1970. Mas em 2020, na urgência para proteger a população do coronavírus, ela pôde conhecer a parcela mais vulnerável da Maré. “Há uma população fragilizada que não acessávamos”, diz.

A campanha Maré Diz Não ao Coronavírus, criada pela Redes da Maré, ajudou a diminuir os impactos da pandemia nas frentes de segurança alimentar, saúde, conectividade e comunicação.

Em outras palavras, a associação fundada por Eliana Sousa distribuiu cestas básicas doadas, rastreou e cuidou de quem se contaminava, desinfectou ruas, emprestou aparelhos para crianças estudarem a distância e levou ao ar boletins e podcasts para informar a comunidade sobre a evolução da doença.

Foram 18 mil famílias atendidas, das quais 6.000 vivem abaixo da linha da pobreza. “Estamos fazendo visitas domiciliares e um diagnóstico social para chegar ao número famílias em condições de negligência das políticas públicas”, diz Sousa.

Os dados mapeados pela Redes fazem parte da metodologia criada por Eliana Sousa, que é doutora em serviço social e professora aposentada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A sistematização colocou a Maré no mapa da cidade, com projeto que cartografou todo o complexo, entre becos e travessas, e levou a Prefeitura do Rio de Janeiro a reconhecer, em 2016, mais de 500 logradouros.

Também identificou, recentemente, 2.000 crianças fora da escola e a defasagem na oferta de vagas para estudantes do ensino médio em escolas da região. “Nós fazemos pesquisa e criamos incidência em política pública. Temos a missão de fazer os direitos acontecerem”, diz Sousa.

A paraibana atua há 30 anos na favela. Foi a seca do Cariri, na Paraíba, que trouxe Eliana, aos 7, os pais e cinco irmãos para uma casa de 25 m² na Nova Holanda, na Maré.

mulher vestida de blusa amarela em frente a parede azul com rede e samambaia ao lado
Eliana Silva, fundadora da Associação Redes da Maré - Renato Stockler

Ela destaca o histórico de luta dos moradores à margem da Baía de Guanabara. Seus pais participavam de reuniões para ter energia e água em casa –reivindicações nem sempre atendidas. “Na pandemia, fizemos nosso papel como sociedade civil, mas não tivemos resposta robusta dos governos”, afirma.

Os impactos da violência na saúde mental dos moradores vinham sendo estudados pela associação antes da crise sanitária, uma vez que segurança pública é um eixo da Redes. “Quando veio a pandemia, amplificamos o trabalho para entender como a Covid influencia a saúde mental”, diz Sousa.

Nos atendimentos sociais, relatos de depressão, ansiedade, síndrome do pânico e sofrimento psíquico foram identificados. Os equipamentos de saúde que atendem crianças e adolescentes sinalizaram aumento dos casos de ansiedade, insônia e impulsos autodestrutivos.

Em um de seus boletins, publicado em agosto de 2020, a associação dá conta da falta de investimento do poder público nos equipamentos de saúde básica e de saúde mental no complexo.

O documento aponta que “a maior parte das unidades de saúde da Maré não conta com profissionais da psicologia e, quando há, estes dividem a carga horária entre mais de uma unidade, o que resulta em pouco tempo para atender a população de forma qualificada e dar apoio continuado.”

Com esse diagnóstico, a Redes da Maré avança em incluir saúde como eixo estruturante de seu trabalho de incidência em políticas públicas. “Assim como a segurança pública não é direito das pessoas aqui e é fundamental para melhorar a vida, a saúde também é estratégica”, afirma Eliana Sousa.

A campanha Maré Diz Não ao Coronavírus foi finalista no Prêmio Empreendedor Social do Ano em resposta à Covid-19 e vai à votação popular na categoria Legado Pós-Pandemia, concorrendo com outras nove iniciativas na Escolha do Leitor.

O público poderá eleger seu finalista favorito em cada uma das categorias em formato inovador no qual a enquete, no site da Folha, torna-se também plataforma de doação. Os vencedores, tanto os recordistas de votos quanto os líderes na captação de doações, serão anunciados ao longo de 2021.

COMO VOTAR NA ESCOLHA DO LEITOR

Passo 1 Acesse folha.com/escolhadoleitor2021 e escolha a iniciativa que mais fez seus olhos brilharem

Passo 2 Clique no botão "Quero votar" e aguarde a confirmação

Passo 3 Faça uma doação para uma delas clicando em "Doar agora"

Passo 4 Preencha seus dados, valor da doação e clique em "Enviar"

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.