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Como tecnologias educacionais ficaram pelo caminho antes da pandemia

Inovações eram vistas como representantes de um capitalismo desinteressado na aprendizagem e desconectado da escola pública

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Guilherme Lichand

Sócio fundador e presidente do conselho da Movva, destaque no Prêmio Empreendedor Social em 2020. PhD em economia política e governo pela Universidade Harvard e professor na Universidade de Zurique.

Pesquisas recentes do Datafolha indicam que aproximadamente 40% dos estudantes de anos finais do ensino fundamental e médio não devem voltar à escola, mesmo com a retomada das aulas presenciais que, finalmente, vai ganhando corpo. Esses números são corroborados por pesquisas que analisam dados de alunos sem notas de matemática e de português no boletim ao longo de 2020.

Quatro de cada dez estudantes fora da escola seria uma tragédia geracional. Tornar o ensino básico quase universal no Brasil foi esforço de décadas e, caso esse prognóstico sombrio se confirme, teremos retrocedido 25 anos no esforço de manter nossos jovens pelo menos até o ensino médio.

Sem aulas presenciais, escolas se viram obrigadas a utilizar tecnologias educacionais para tentar mitigar perdas de aprendizagem e o risco de abandono escolar.

De salas de aula virtuais a plataformas com conectividade carimbada para que alunos pudessem estudar online e entregar tarefas mesmo sem crédito no celular, de repente, professores e alunos da rede pública se viram imersos em uma jornada tecnológica de ensino sem precedentes.

Por mais que essas tecnologias tenham ajudado, estudo recente mostrou que elas foram em grande parte insuficientes para impedir os impactos de escolas fechadas.

Em São Paulo, um dos Estados mais ativos nos esforços de oferecer atividades remotas, estudantes aprenderam somente 27,5% do equivalente com aulas presenciais, e o risco de abandono foi multiplicado por quatro ao longo de 2020.

A Movva, startup que envia nudgebots para alunos e seus familiares –mensagens semanais diretamente no seu celular para mantê-los motivados a continuar na escola e engajados nas atividades remotas– ganhou escala na pandemia, alcançando mais de dois milhões de alunos da rede pública em 13 Estados durante o ensino remoto.

Estudo mostrou que os nudges foram capazes de aumentar o tempo de navegação nas plataformas online em 20% e de reduzir o risco de abandono em mais de 25%. Esses impactos foram concentrados nos alunos mais vulneráveis, com maior risco de abandono.

Diante de números como esses, por que os impactos educacionais da pandemia não foram menores?

Porque a escala de ações como essa é muito pequena. O Brasil tinha cerca de 40 milhões de alunos matriculados em escolas públicas antes da pandemia. No ápice da necessidade, a Movva –uma das edtechs brasileiras com maior número de usuários ativos— chegou a apenas 5% deles.

Antes da pandemia, a ideia de utilizar tecnologias educacionais para apoiar a aprendizagem ou para engajar alunos e suas famílias na educação e, assim, reduzir faltas, repetência e abandono, era vista com desconfiança pela maioria das redes públicas.

Tecnologias educacionais eram vistas como representantes de um capitalismo desinteressado na aprendizagem e desconectados da realidade da escola pública.

Claro que isso não era universal. Mas os números não mentem. Segundo a TIC Educação, até 2017, nenhum Estado tinha ao menos 10% das escolas preparadas para atender pelo menos 40 alunos simultaneamente com computadores conectados à internet.

Em nenhum Estado brasileiro mais de 3% das escolas tinha conexão acima de 50 Mbps. Como essa conexão é dividida entre todos os computadores da escola, incluindo aqueles utilizados para fins administrativos, a conexão efetiva em cada computador é muito mais baixa. Nos Estados Unidos, escolas com menos de 100 Mbps nem são consideradas conectadas.

Por fim, mesmo no Estado brasileiro com a melhor situação no que diz respeito à proporção de professores com treinamento para utilizar ferramentas online de ensino, 64% deles não tinha recebido nenhum treinamento para tanto.

Isso fez diferença na pandemia. Estudos recentes mostraram que as escolas que já realizavam atividades online em 2019, segundo dados do Censo Escolar, conseguiram seguir construindo sobre bases já estruturadas.

Elas não apenas tiveram menores perdas de aprendizagem e menor aumento do risco de abandono, como também se beneficiaram mais de outras ações para tentar mitigar os impactos da pandemia na aprendizagem.

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