Sertanejos aprendem a cultivar no quintal alimentos sem agrotóxico

Instituto Novo Sertão desenvolve Quintais Produtivos Agroecológicos em Betânia do Piauí para a produção de frutas, verduras e legumes

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São Paulo

Sob o sol escaldante do sertão, grupos de mercadores costumavam refugiar-se à sombra das árvores da caatinga. Em dias de feira, o movimento de gente e mercadoria era tão intenso no local que acabou fazendo brotar um povoado. Em pouco tempo, o frenesi comercial daria origem a Betânia do Piauí. Era fim da década de 1940.

A união de vendedores que hoje se vê na pequena cidade é um alento para os moradores, que agora desfrutam de alimentos de outros tons, texturas, sabores e cores. Tudo produzido sem agrotóxico.

Chamada de Quitanda dos Quintais, essa reunião de quem vende e quem compra vem mostrando que é possível desenhar novos caminhos para a agricultura familiar e que o solo pedregoso do tão padecido sertão nordestino pode, sim, produzir muita coisa.

homem e mulher estão encostados em parede de tijolinhos que reluz sob a luz do sol
José Carlos Brito, 35, é fundador do Instituto Novo Sertão e atua em parceria com Karla Fernanda, 34 - Folhapress

Maços de alface, rúcula, couve e coentro, baciada de acerola, mamão, tomate e pencas de banana colorem uma área que, a depender da estação do ano, tem o ar impregnado do perfume do maracujá. Estamos no salão do Instituto Novo Sertão, no coração de Betânia do Piauí, onde se reúnem às terças-feiras, às 10h, vendedores e compradores.

Os produtos, vindos de quintais de moradores da cidade e arredores, no entanto, têm história. Há não muito tempo, a maior parte desses produtores mal sabia ler e escrever ou mesmo tocar uma roça. Era comum atearem fogo no lixo jogado nos quintais --e a palavra "orgânico" não queria dizer nada por ali.

Em 2012, o paulistano José Carlos Brito Filho, hoje com 34 anos, aportou por aquelas terras secas como missionário evangélico, levando galões de água para as famílias e hot dogs para as crianças.

Três anos depois, tomou uma decisão. Não dava para perder tempo entre idas e vindas de Teresina até o interior. O jeito foi fincar morada ali e começar um trabalho que, além de questões relacionadas à falta de água, precisava encarar os desafios sociais na área de educação e renda.

Com uma população de pouco mais de 6.000 habitantes, segundo o IBGE, Betânia do Piauí é uma cidade pobre, castigada pelas longas estiagens que assolam o semiárido nordestino. Localizada no sudeste piauiense, quase na divisa com Pernambuco, tem o terceiro mais baixo IDH do estado.

Em 2019, o salário médio mensal era inferior a dois mínimos. A proporção de pessoas ocupadas em relação à população total era de 6%. Somente 0,1% dos domicílios de Betânia tem esgotamento sanitário adequado.

"Quando entrei na casa de um morador aqui do sertão, foi como se eu estivesse dentro daqueles documentários que retratam a miséria da África", lembra Brito Filho, ou melhor, Zé da Água, como passou a ficar conhecido entre os nativos. "Tudo aqui era de uma pobreza que eu não imaginava que existia. De cara, o sertão me impactou bastante."

Depois do processo de alfabetização básica e conscientização sobre como manter limpos e sem queimadas os quintais, foi o momento de iniciar o curso promovido pela Escola Beta sobre agroecologia.

Aí, veio a pandemia, que agravou a situação de renda das famílias e mexeu diretamente com a questão de segurança alimentar da população.

As aulas tiveram que ser transmitidas online. Nem todo o mundo tinha acesso à rede wi-fi. Inicialmente, três famílias embarcaram de cara no projeto. Hoje, são 35 espalhadas por quatro comunidades.

Para transformar aqueles quintais em áreas mais diversas de trabalho --antes, a produção local se restringia a milho, feijão e macaxeira, somente durante o período chuvoso--, foi necessário também realizar uma ação in loco com os moradores.

"Ninguém plantava nada", conta Zé da Água. "Você comia um tomate, que tinha viajado quase 200 km para chegar até Betânia. Antes dos Quintais Produtivos, fiquei anos sem saber o que era uma alface."

A pedagoga Karla Fernanda da Silva Torres, 33, é vice-presidente do Instituto Novo Sertão. Há quatro anos, ela trocou a vida ao lado dos pais em Campo Grande (MS) pela labuta coletiva no Nordeste. Diz ela: "O sertanejo é muito forte, empreendedor, resiliente, mas o histórico de vida de tantos amigos e familiares trazia à tona uma certa carga de incredibilidade ao projeto."

Diante de um solo muito compactado, repleto de pedras, uma alternativa foi trabalhar com a compostagem de capim, folhas, esterco e água, produzida em 30 dias.

Outro ponto central foi a criação dos canteiros econômicos, que proporcionam uma economia de água entre 35% e 50%, em comparação aos convencionais. Neles, a plantação é regada de baixo para cima, deixando, assim, a terra mais úmida --a cobertura do solo, vale dizer, é feita com palha.

Manter a soberania alimentar dessas famílias é a grande conquista do projeto

Karla Torres

Quintais Produtivos Agroecológicos

Há ainda um fator determinante na implantação dos quintais produtivos: o círculo de bananeira. Explica-se: canos, instalados em pias, por exemplo, levam água de reúso para um buraco de um metro cúbico. Ao redor dele, são plantados pés de frutas como manga, acerola, abacate e, é claro, banana, cujas raízes procuram a água que está armazenada nesse círculo.

"Manter a soberania alimentar dessas famílias é a grande conquista do projeto. Elas estão produzindo comida, saudável e sem agrotóxico, tanto para consumo próprio quanto para gerarem renda", explica Torres.

Agora, ela se dedica para ampliar os Quintais Produtivos, com o objetivo de agregar valores aos alimentos. Doces, polpas de fruta e temperos compõem os novos itens.

Formado em administração de empresas voltada para a gestão pública, Zé da Água explica que o projeto de agricultura familiar também está sendo ampliado para outros dois municípios vizinhos: São Francisco de Assis do Piauí, o mais baixo IDH do estado, e Capitão Gervásio Oliveira.

Há uma demanda de agricultores locais que ainda sonham em transformar seus quintais em áreas produtivas, mas não possuem nenhuma fonte hídrica para isso (açude por perto, cisterna ou poço).

Para eles, o instituto está selecionando as propostas mais promissoras e irá financiar, com recursos próprios e de parceiros, a construção de cisternas, dando, assim, continuidade à economia circular.

Em breve, com a chegada das chuvas, período que vai de outubro a março, intensificando-se em dezembro, o sertão irá florescer. Dessa florada, virão frutas, legumes e verduras, cultivados pelas famílias sem o uso de veneno, que vão abastecer não uma, mas, sim, duas Quitandas dos Quintais.

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