Descrição de chapéu New York Times

Mulheres com dificuldade de engravidar recorrem a apps de fertilidade

Opções incluem pulseira que deve ser usada à noite e identifica os dias férteis de uma mulher

Janet Morrisey
Nova York

Quando Nicole e Christopher Roberts, de North Stonington, Connecticut, decidiram começar uma família, em 2016, Nicole não demorou a engravidar, mas perdeu o bebê três meses depois.

Nicole Roberts com a filha Amelia, de cinco meses; ela é uma das mulheres que cada vez mais recorrem a apps de fertilidade
Nicole Roberts com a filha Amelia, de cinco meses; ela é uma das mulheres que cada vez mais recorrem a apps de fertilidade - NYT

E engravidar pela segunda vez se provou muito mais difícil do que o casal imaginava. Roberts, 32, começou a tomar vitaminas para gestantes, a acompanhar seu ciclo menstrual atentamente, a fazer testes de ovulação adquiridos em farmácia, e chegou até a seguir algumas sugestões excêntricas que encontrou na internet, como a de ficar com as pernas esticadas para o alto, ou se manter imóvel por meia hora, depois de fazer sexo.

"Não funcionou", ela disse. "Os meses foram passando, e surgiu um sentimento de desespero, porque queríamos muito um bebê".

Foi então que ela viu um anúncio do Ava, um aparelho parecido com a pulseira Fitbit, para uso no pulso a cada noite. Os sensores do aparelho identificam os cinco dias férteis no ciclo mensal de uma mulher, para aumentar a probabilidade de concepção. "Parecia bom demais para ser verdade", disse Roberts. Ela começou a usar o aparelho em março de 2017, engravidou em junho e teve o bebê, Amelia, em 19 de março deste ano.

 

Roberts é parte de um grupo crescente de mulheres que estão recorrendo apps de fertilidade e a aparelhos vestíveis como o Ava para ajudá-las a aumentar suas famílias.

"Hoje vivemos em uma sociedade na qual existe a influência cultural de que basta tomar cinco copos de tequila para engravidar. É isso que Hollywood mostra o tempo todo", disse Lea von Bidder, cofundadora e presidente da Ava. "Mas a realidade é muito diferente".

As vidas ocupadas dos casais modernos dificultam o acompanhamento de ciclos menstruais, os testes de ovulação, a medição diária de temperatura e o importante instante de conexão física no momento exato do ciclo para gerar um bebê.

Além disso, muitas mulheres, especialmente as da geração milênio, preferem concentrar suas atenções no trabalho e postergar a ideia de filhos, o que gera novos desafios, porque quanto mais a mulher envelhece, mais baixa a probabilidade de concepção.

"Para uma mulher de 28 anos de idade, cerca de 10 dos 12 óvulos que ela produz ao ano são viáveis", disse Von Bidder. "Mas para uma mulher de 38 anos, talvez apenas dois dos 12 óvulos sejam viáveis". Assim, identificar os dias férteis se torna ainda mais crucial.

O índice de natalidade entre as mulheres com menos de 30 anos vem caindo firmemente desde 2010, mas está subindo entre as mulheres próximas dos 40 e na casa dos 40 e 50 anos, de acordo com estatísticas do Centro Nacional de Saúde dos Estados Unidos.

O sistema da Ava ajuda as mulheres a identificar com precisão seus cinco dias mais férteis a cada mês.

"Na minha cabeça, bastava fazer sexo [sem proteção] para engravidar, e pronto", disse Kate Campbell, 32, de Nashville, que passou meses tirando sua temperatura e fazendo testes de ovulação duas vezes por dia, em um esforço — infrutífero—para engravidar. "Não consegui resultado positivo algum. Fiquei chocada. Como é que as pessoas engravidam por acidente?"

Depois de comprar uma pulseira Ava, em abril de 2017, ela descobriu que estava calculando sua janela de fertilidade com uma semana de erro, porque seus ciclos são mais longos que os normais e os aparelhos convencionais que rastreiam períodos menstruais não captavam a diferença. Ela engravidou em agosto, e seu filho, Canaan James, nasceu em 27 de abril de 2018.

A internet está repleta de mulheres em busca de conselhos sobre fertilidade, em fóruns, no Facebook e em vídeos. Elas dizem que o problema não é bem compreendido, e que costuma ser profundamente subestimado.

"Quando alguém, especialmente alguém da família, pergunta se estamos fazendo a coisa direito, ou se sabemos o que estamos fazendo... sei que é brincadeira, mas não tem graça para mim. É rude, e só", disse uma mulher que se identifica como Jolene Grizzle em um vídeo disponível no YouTube no qual ela descreve sua luta pela fertilidade, que incluiu recorrer à Ava (no caso dela, sem sucesso).

A pulseira Ava recolhe dados sobre nove parâmetros, entre os quais temperatura da pele, pulsação (em repouso), respiração, movimento durante o sono e nível de estresse, enquanto a mulher dorme. Quando a pulseira é sincronizada ao celular da usuária pela manhã, o algoritmo do sistema Ava registra 89% de precisão na detecção dos 5,3 dias férteis a cada ciclo, de acordo com a companhia.

Foto do dispositivo Ava, que deve ser usado no pulso e tem sensores para identificar os dias férteis das mulheres
Foto do dispositivo Ava, que deve ser usado no pulso e tem sensores para identificar os dias férteis das mulheres - NYT

Ao medir a temperatura e outras variáveis, a Ava consegue acompanhar as variações no nível de progesterona e estrodial, disse Von Bidder.

"Não precisei ficar me preocupando com fazer xixi em um tubo, viver aquele estresse", disse Krystal Noon, 30, de Branchville, Nova Jersey, que batalhou por meses para engravidar antes de começar a usar a Ava. "Eu colocava a pulseira a cada noite, e ela cuidava de tudo", disse Noon, que engravidou dois meses depois de começar a usar o aparelho.

Desde o lançamento da Ava, em 2016, disse Von Bidder, mais de 10 mil usuárias da pulseira engravidaram, e pelo menos mil delas tiveram filhos. Ela acrescentou que as vendas do produto estão a caminho de triplicar este ano.

Mas o sistema não é para todos. Seu uso se limita a mulheres com ciclos de entre 24 e 35 dias, e não pode ser usada por portadores da síndrome de ovário policístico, porque elas sofrem de desequilíbrios hormonais e ciclos altamente irregulares.

E a Ava tem alguns concorrentes. Alguns são apps gratuitos, como Glow, Clue, Period Tracker Lite e Flo, que acompanham períodos menstruais com base em dados inseridos pela usuária, e estimam os dias férteis pelo método da tabelinha.

Também há monitores de fertilidade como o Kindara/Wink e o Daysy, que vêm com um app e termômetro. E alguns aparelhos vestíveis, como o Leaf, da Bellabeat, em forma de pingente; o sensor da Duo Fertility, usado sob o braço; o sensor da Yono, usado na orelha; e o Tempdrop, usado na axila.

Um aparelho, o OvuSense, é usado como se fosse um absorvente higiênico e mede temperatura e outros fatores. Suas leituras são consideradas como mais precisas do que as obtidas por aparelhos externos, e ele é capaz de medir os dias de ovulação de mulheres com síndrome de ovário policístico. 

"Eu hesitaria mais quanto a ele, porque parece um tanto mais invasivo", disse Tara Perez, 34, de Cartersville, Geórgia, que usou a Ava para ajudá-la a engravidar.

Uma das grandes vantagens da Ava são os grupos de Facebook muito populares nos quais 25 mil usuários registradas da Ava fazem perguntas, trocam experiências e se encorajam. "Aquela comunidade de mulheres é diferente de qualquer coisa que você já tenha visto", disse Perez, que elogia os grupos pelo apoio que lhe deram durante seus problemas de fertilidade.

Perez conta que pessoas de sua família lhe disseram que ela talvez não pudesse ter filhos, por sofrer de diabetes tipo 1. Mas a comunidade da Ava a ajudou e encorajou quando ela sofreu um aborto espontâneo na 34ª semana de gestação, e em outro episódio no qual ela sofreu um aborto no início da gravidez, na quinta semana, um caso de "gravidez química". Por fim, em 30 de maio, ela deu à luz uma bebê saudável, Selene.

Mas há quem encare a Ava com ceticismo. Houve questionamentos no Reddit sobre sua eficácia, porque o produto só foi testado em 41 mulheres, para sua certificação original.

O preço de US$ 249 é outro motivo de crítica. "Embora o produto seja caro, é bem menos caro do que tentar inseminação artificial ou remédios que provoquem ovulação", disse Perez.

Alguns críticos apontam que nenhum dos apps e aparelhos de fertilidade oferece dados comprovados que demonstrem que eles reduziram consideravelmente o tempo médio de demora para que uma mulher engravide. "Nenhum deles passou por estudos sobre a demora para engravidar", disse Victoria Jennings, diretora do Instituto de Saúde Reprodutiva da Universidade de Georgetown. "Mas isso não convencerá as mulheres a abandonar seu uso, ou seus desenvolvedores a deixar de promovê-los".

A Ava arrecadou US$ 42,3 milhões em capital.

E Pascal Koenig, presidente-executivo e cofundador da companhia, disse que há três estudos em curso, um dos quais com mais de 430 participantes, para expandir o uso da Ava, com novas funções como detecção de infecções durante a gravidez, ajuda a mulheres com ciclos altamente irregulares, e ajuda a mulheres em transição para a menopausa.

Zev Williams, diretor da divisão de endocrinologia reprodutiva e infertilidade no Centro Médico da Universidade Columbia, vê valor nos apps e aparelhos de fertilidade. Um app básico pode ajudar uma mulher a determinar se seus ciclos são altamente irregulares e se ela necessita de atenção médica, ele disse.

"Parece bem sofisticado", disse Williams, que está conversando com a empresa sobre um possível estudo conjunto mais longo sobre o aparelho. "Temos um objetivo maior de tentar facilitar os tratamentos de fertilidade para as mulheres e os casais que passam por eles, e se isso funcionar teríamos o potencial de atingi-lo".

Tradução de Paulo Migliacci 

The New York Times
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