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Doação de córneas cresce no interior de SP com parceria e treinamento

Enfermeiros e médicos de UPAs são treinados para abordar familiares após morte de paciente

Simone Machado
São José do Rio Preto (SP)

A ideia parece simples, mas o resultado impressiona: mais funcionários em mais locais abordando os familiares de pessoas com morte cerebral fez aumentar as doações de córneas em São José do Rio Preto (a cerca de 400 km de São Paulo). 

Entre 2014 e 2016, foram dez doações de pares de córneas. Desde então, e até o fim do ano passado, foram 90, somando 180 córneas.

Foto mostra somente os olhos de Maria Aparecida Codinholo Lopes
A auxiliar de cozinha Maria Aparecida Codinhoto Lopes, de 59 anos, que recebeu dois transplantes de córnea - Ferdinando Ramos/Folhapress

O resultado positivo ocorreu depois de uma parceria entre o Hospital de Base e cinco UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) do município. 

Enfermeiros e médicos municipais passaram a ser treinados mensalmente sobre a melhor maneira de abordar um familiar, após o óbito do paciente. Se antes eram cinco funcionários na função atuando apenas no Hospital de Base, agora são 61 pessoas envolvidas em seis unidades. 

O índice de recusa das famílias nas UPAs é um dos mais baixos do estado, 5%, enquanto a média estadual é de 36%, segundo a Secretaria de Estado da Saúde.

Os pacientes das UPAs que se qualificaram para ser doadores têm perfil diferente do dos dos pacientes que estão no Hospital de Base. Esses ficam por longos períodos internados com doenças graves e vulneráveis a infecções hospitalares, que podem inviabilizar a doação de córnea.

“Os pacientes que chegam até as UPAs em geral têm algum acidente cardiovascular, como infarto e AVC, ou não têm complicações de saúde como infecções, e isso contribui para que ele esteja apto a doar”, afirma João Fernando Picollo, coordenador da OPO (Organização de Procura de Órgão) do hospital. 

Desde maio de 2016, a OPO é comunicada quando algum paciente morre em alguma UPA ou no Samu (Serviço Móvel de Atendimento de Urgência). Assim, um profissional pode solicitar à família a doação do tecido que devolve qualidade de vida a quem não consegue enxergar. 

Um trabalho de acolhimento é feito com a família. Um grupo formado por médicos e enfermeiros recebe os familiares em um sala separada no próprio hospital ou UPA. Depois de uma conversa sobre como aceitar e lidar com a dor da morte, é explicada a importância da doação de órgãos e ao final ela é solicitada.

“Somente depois de se sentir confortado e amparado, o familiar tem condições de pensar sobre a doação. Por isso é importante fazer esse acolhimento e humanizar esse momento”, diz Picollo.

Com mais gente abordando os familiares em mais locais, o tempo de espera pela doação caiu de oito meses para noventa dias. 

Diferentemente de outros órgãos, que precisam ser captados enquanto o sangue está em circulação no organismo, a córnea pode ser coletada até seis horas após o óbito. Depois de coletadas, elas podem ficar até 15 dias no Banco de Olhos do Hospital de Base.

Depois de ser diagnosticada com varicela na infância e ter a visão afetada, a auxiliar de cozinha Maria Aparecida Codinholo Lopes, 59, recebeu o primeiro transplante de córnea há oito anos. 

Mas, por causa de uma catarata e uma infecção, um novo transplante foi necessário no ano passado. Dois meses depois de entrar na fila de espera, ela conseguiu passar pelo procedimento. “Eu já não conseguia ler e enxergava tudo embaçado. Achei que ia demorar para eu conseguir o transplante, mas foi rápido.”

Para ser doador de órgão não é preciso assinar documento por escrito. A família deve estar ciente da vontade, porque é ela que autoriza a doação em caso de morte cerebral. Pessoas com idades entre 2 e 80 anos e que não tenham doenças como hepatite, HIV e leucemia podem ser doadoras de córneas.

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