Cultura que exalta juventude faz mulher se sentir velha a partir dos 30 anos, diz antropóloga

Mirian Goldenberg participou de debate sobre seu livro "Liberdade, Felicidade e Foda-se"

Susana Terao
São Paulo

No Brasil existe a propagação de uma cultura na qual o corpo feminino é considerado um capital. É diante disso que constantemente se define como ideal o corpo jovem, magro e sensual. 

“Quando as mulheres sentem que perdem isso, elas entram em pânico, é como se perdessem o bem mais valioso da nossa cultura. É por isso que a brasileira investe tanto no seu corpo”, afirmou Mirian Goldenberg em debate realizado pela Folha e a editora Planeta, nesta quinta-feira (27), na livraria Saraiva do Shopping Eldorado, em São Paulo. 

A antropóloga e colunista da Folha, Mirian Goldenberg, que está lançando um novo livro "Liberdade, Felicidade e Foda-se"
A antropóloga e colunista da Folha Mirian Goldenberg, que está lançando um novo livro "Liberdade, Felicidade e Foda-se" - Raquel Cunha/Folhapress

Para a autora, que é antropóloga e colunista do jornal, não se trata de um fenômeno psicológico, mas cultural. “A cultura é introjetada em cada mulher, que se sente velha a partir dos 30 anos, às vezes até antes.” Ela relatou que, em uma simples ida ao dermatologista, foi bombardeada com indicações de recursos estéticos para “rejuvenescer 10 anos”, como preenchimento de um suposto bigode chinês, correções de pálpebras e botox nas rugas da testa. 

O debate contou com a mediação da jornalista Marcella Franco, autora do blog Do Meu Folhetim, que discutiu com Mirian os principais tópicos abordados no novo livro da antropóloga, “Liberdade, Felicidade e Foda-se”. 

A autora destacou que a iniciativa para escrever sua nova obra veio do cenário político do país. “No ano passado, que não foi fácil para os brasileiros, eu não queria entrar nesse clima de ódio e pensei que era hora de escrever sobre felicidade.” 

A decisão foi acentuada por mulheres que a abordaram para comentar o impacto sobre suas perspectivas de envelhecimento causado pela palestra que ela fez no TEDx São Paulo, “A Invenção de uma Bela Velhice”. “O livro não é escrito para as mulheres, mas foram elas que me pediram para escrever”, contou.
Mirian afirma que fundamentou seu livro com dados de 30 anos de pesquisa. Estimou cerca de 5 mil questionários, centenas de entrevistas e grupos focais que organizou. 

A autora citou a curva da felicidade, que indica que, quanto mais a vida passa, mais infelizes se tornam as pessoas. “A curva da felicidade vai caindo e chega no fundo do poço quando os filhos estão adolescentes.”

Segundo a antropóloga, é entre os 40 e 50 anos que as mulheres presenciam essa queda na curva, que ela intitulou como a fase do “nem-nem”, por não ser nem jovem nem velha demais, e do “será que eu posso?”, pelas novas imposições de padrões estéticos, em que tipos de roupas e cortes de cabelos estão restritos a uma determinada faixa etária. 

A libertação, segundo Mirian, vem depois dos 60 anos. “Elas se libertam desse pânico de envelhecer e da obrigação de cumprir todos esses padrões sociais.” 

Foi a partir de pesquisas com pessoas de mais de 60 anos que a autora decidiu incorporar o “foda-se” no título do livro. Ela ressaltou que essa decisão foi um “dilema existencial” e seu principal receio era de que as pessoas interpretassem como mera agressão. 

Para ela, não se trata disso, mas de uma atitude subjetiva, lúdica e libertária, pois seus entrevistados indicaram que o ato de não se preocupar com a opinião alheia foi fundamental para se relacionar com pessoas que tentavam controlar seu comportamento. 

“Não tinha outro título, porque liberdade e felicidade é o que todos querem, e para conseguir conquistar essas duas coisas é preciso descobrir o botão do foda-se”, concluiu. 

O debate foi seguido de uma sessão de autógrafos, em que os leitores puderam fazer breves perguntas para a autora.


Liberdade, Felicidade e Foda-se

AUTORA Mirian Goldenberg

QUANTO R$ 34,90 (160 págs.)

EDITORA Planeta

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